Origens e consequências do negacionismo

Como as redes sociais impulsionam as narrativas conspiratórias e anticiência.

O movimento negacionista representa um número cada vez maior de indivíduos que questionam aspectos comprovados pela ciência. Embora muito se acredite que a corrente negacionista seja algo novo na sociedade, essa postura já data de algumas décadas. Nos anos 70, houve diversos movimentos que questionavam a existência do holocausto, por exemplo. Desde então, outros grupos criam suas próprias narrativas acerca de assuntos como aquecimento global, doenças, política, entre outros. Com a internet, esses grupos puderam impulsionar suas ideias e ganhar mais adeptos a cada postagem. As chamadas “teorias conspiratórias”, que são retratadas como entretenimento de ficção em livros, séries e filmes, se tornaram a  realidade desses indivíduos.

A visão de especialistas

De acordo com o pesquisador em sociologia do conhecimento biomédico Renan Leonel o negacionismo é uma postura cultural e política diante de uma narrativa que pode ser apropriada por terceiros e que gera consequências. “Basicamente ele [negacionismo] é uma consequência da pobreza com que comunicamos ciência no Brasil e, não diferentemente, nos EUA e no Reino Unido também, que têm mostrado um grande índice de politização desse discurso”, afirmou Leonel. 

    No entanto, há uma grande diferença em como os países tentam combater esse negacionismo. Aqui no Brasil, muitas das teorias conspiratórias acerca do coronavírus ou sobre fatos políticos são reproduzidas por membros do próprio governo. Sendo assim, cabe à mídia divulgar a realidade e combater esses discursos sem fontes confiáveis. André Biernath, repórter de ciência da BBC, comenta que, em questão de proporções, é muito maior o número de pessoas atingidas pela desinformação, do que o número de pessoas reparadas pelos jornalistas. Quando questionado sobre a relevância das agências de fact-checking neste combate, ele diz que “elas têm um papel importantíssimo e precisam existir, mas acho que não serão a solução definitiva para o problema. Precisaremos de algo mais potente que isso”. Biernath afirma que para romper essas bolhas negacionistas é preciso inovar o trabalho jornalístico e achar um meio de atingir o público. “Como diria Milton Nascimento: o artista tem de ir aonde o povo está”, parafraseia. 

Ricardo Galvão, no entanto, defende que a inovação deve começar na educação básica. Em entrevista ao Sem Estúdio, o ex-diretor do Inpe acredita que a ciência deve ser ensinada na prática e não apenas na teoria, os estudantes precisam entender como os processos científicos acontecem. A professora de filosofia da ciência Patrícia Ketzer possui um posicionamento alinhado com o de Galvão. A docente acredita que o fato das pessoas não conhecerem a ciência é o que mais fortalece o negacionismo. O sistema de ciência e tecnologia no Brasil é recente, foi efetivamente criado na segunda metade do século XX através do surgimento das agências de incentivo à pesquisa (CNPq, Capes, Inpe, etc.), em contraste com a Europa, que possui universidades que fomentam a pesquisa desde o século XIV. Ketzer defende que o ensino seja adaptado à realidade dos estudantes, pois eles precisam entender que ciência está no dia a dia. “Também acho que as humanidades podem contribuir – de forma geral – quando elas possibilitam a educação política e a educação para uma vida social compartilhada, que seja eticamente fundada para possibilitar a tolerância, o diálogo e permitir que as pessoas entrem em debates”, disse Patrícia. A professora reforça que a falta de debates e a má qualidade dos já existentes fazem com que as pessoas apenas exponham a sua opinião e não escutem o posicionamento do outro. 

Além do problema educacional, Leonel, o sociólogo do conhecimento, aponta que a instabilidade política no Brasil é um dos fatores que contribui para a falha na comunicação entre a comunidade científica e a sociedade civil – peça chave para o negacionismo. “Se muda o governo, muda a agenda. Aliás, o sistema de tecnologia e, também, a própria prática de financiar ele no Brasil, é muito estatal, enquanto na Europa há empresas envolvidas, ONGs, filantropia”, disse. Tal mudança atingiu o ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, demitido do cargo em 2019 após divulgar dados sobre as queimadas na Amazônia que, posteriormente, foram negados pelo presidente Jair Bolsonaro, apesar de haver comprovação por imagens de satélite. Ademais, o corte de verbas de quase 1 bilhão de reais para universidades e instituições federais previsto no Planejamento Orçamentário para o ano de 2021 preocupa pesquisadores de todo o Brasil, visto que 95% da produção científica é realizada pelas universidades públicas do país.

Em relação ao uso da vacina contra o coronavírus no Brasil, o atraso para o início da campanha de vacinação no país e a resistência de muitos brasileiros para se vacinarem estão diretamente ligados aos posicionamentos do Governo Federal, que vem a negar constantemente a eficácia, sobretudo, da vacina CoronaVac, uma parceria entre uma biofarmacêutica chinesa e o Instituto Butantan, de São Paulo. Em um de seus encontros com fãs, o presidente Jair Bolsonaro questionou a eficácia da vacina a um apoiador. “Essa de 50% é uma boa?”, perguntou o presidente em tom irônico se referindo ao resultado final dos testes da CoronaVac, que apresentou 50,38% de eficácia, acima do mínimo exigido pela OMS. 

 A professora Patrícia Ketzer aponta que a rejeição da vacina se dá pelo fato das pessoas se convencerem apenas pelos sentimentos, e não por argumentos racionais, neste caso as evidências científicas. “As pessoas sempre buscam informações de maneira seletiva, que reforçam as crenças que elas já possuem. Isso é o que nós chamamos de viés da confirmação”, atesta Patrícia. Por fim, ela justifica tais crenças com a excessiva polarização no Brasil. As pessoas que apoiam o presidente tentam defendê-lo ao máximo, sem muita criticidade, o que evidenciou a ligação existente entre a ciência e a política. “Há de fato pesquisas que são desenvolvidas a partir do interesse de algumas empresas. Desde que elas sejam comprometidas com as evidências e com uma metodologia adequada, estará tudo certo. Agora, quando ela parte do senso comum, parte da defesa de coisas absurdas, a gente vai ter um problema muito grande, que é isso que está acontecendo aqui no Brasil”, sintetizou a professora.

Impactos do negacionismo

O negacionismo traz consequências concretas para a vida das pessoas, como o colapso do sistema de saúde em Manaus, onde pacientes da UTI viveram situações críticas devido à falta de oxigênio nos hospitais. No dia 14 de janeiro, as redes sociais foram inundadas com pedidos de ajuda vindos dos profissionais da área da saúde e das famílias desesperadas dos internados por coronavírus. O sistema de saúde amazonense foi sobrecarregado após o Governo Federal não aceitar o lockdown proposto pelo governador Wilson Lima, no final do ano passado. Ao analisar situações de outros países, é possível, através de estatísticas como a pesquisa em parceria com o Imperial College London, comprovar a eficácia da adoção de uma medida restritiva provisória, como o lockdown.

Em um momento de crise e excesso de informações, é preciso possuir senso crítico para não espalhar desinformação, que rapidamente se infiltra e se dissemina nas redes sociais. Como dito pela professora Patrícia Ketzer e pelo físico Ricardo Galvão, é preciso combater o negacionismo a partir de sua raiz, ou seja, promover o desenvolvimento científico e crítico dos jovens, através da criação de uma metodologia pensando no estudante como indivíduo único. Entretanto, o combate a este projeto de desinformação precisa ser coletivo, uma união entre todas as áreas envolvidas e, sobretudo, além de uma excelente técnica é preciso demanda, líderes políticos, pessoas sensíveis à ciência e que, de fato, a transformem em agenda pública.

Autor: Bruna Tkatch e Felipe Loreto.

Foto: Reprodução Polina Tankilevitch/Pexels.

Fonte: PUC-RS.