Omitir também é violência

Histórias de um hospital psiquiátrico em Minas Gerais que se tornou o “Museu da Loucura”, em 1996.

Mal-estar é uma ótima expressão para definir o que se sente ao terminar de ler o livro-reportagem Holocausto Brasileiro, de 2013, escrito pela jornalista Daniela Arbex. Ao longo de 280 páginas, a autora investiga as barbáries ocorridas no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, em Minas Gerais. Conhecido como “Colônia”, o local era responsável por receber pessoas que não tinham bom status ou que não eram aceitas socialmente. Alcoólatras, mães solo, pessoas em situação de rua, tímidas ou com doenças mentais, mulheres que haviam perdido a virgindade antes do casamento, homossexuais, prostitutas, jovens engravidadas por seus patrões, epiléticos. Muitos pacientes foram internados à força e grande parte foi submetida a condições precárias de higiene e tratamentos desumanos, desde eletrochoques até lobotomia. Além de alguns sobreviventes das últimas décadas terem suas histórias contadas no livro, a autora realiza um estudo completo do hospital, de seus funcionários, cúmplices e do modus operandi genocida.

Não é nenhum exagero utilizar a expressão genocídio ao descrever tudo o que ocorria no Colônia. Afinal, cerca de 60 mil pessoas morreram – ou foram mortas – nas extremidades do hospital. A desumanidade aumenta quando o leitor descobre que os cadáveres de muitas vítimas foram vendidos a diversas faculdades de medicina Brasil afora. Essas pessoas não tiveram enterros que respeitassem sua religião ou com a presença de familiares – neste caso, quando não era a própria família que enviava o paciente ao hospital pelos chamados “trens de doido”.

Colônia foi fundado em 1903, mas principalmente entre as décadas de 1960 e 1980 o local se tornou um “depósito” de pessoas socialmente indesejadas que não tinham qualquer diagnóstico de doença mental. Se ler sobre as torturas realizadas já é um desafio para o estômago, ver as fotografias no livro faz o leitor pensar sobre a importância da luta antimanicomial. Daniela Arbex traz relatos de médicos que visitaram Barbacena e viram com seus próprios olhos ao que eram submetidos todos os pacientes (até mesmo as crianças internadas ou que nasceram no Colônia). Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia visitou o hospital e fez comparações aos campos de concentração nazistas.

Daniela descreve com veemência cada detalhe dos acontecimentos dentro do Colônia. Crianças privadas da infância, pessoas nuas, vestidas com trapos ou de cabeças raspadas, muitas vezes anônimas ou com nomes que não eram os seus verdadeiros. As condições alimentares eram brutais, com os internos tendo que recorrer a carne crua de ratos ou pombas que conseguiam apanhar. Água de esgoto ou urina virando bebida principal. Condições tão absurdas descritas de forma tão real que é impossível não sentir um aperto no peito, ânsia ou raiva do Estado, que jamais veio a público pedir desculpas aos sobreviventes, às vítimas e às famílias.

Em um país cada vez mais cercado de inverdades sobre saúde pública, o livro Holocausto Brasileiro é importante e urgente. Não somente pelos relatos e histórias contadas, como também por um apelo a maiores posicionamentos das autoridades sobre o tabu em relação à saúde mental. No último capítulo, Daniela escreve: “enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final”.

Mais do que relatar o que aconteceu nos pavilhões daquele hospital em Barbacena, a autora oferece ao leitor uma oportunidade de compreender as relações de poder que governam o Brasil e a constituição da sociedade. É uma leitura necessária sobre uma parte da história que quase nunca é contada. E neste caso, é preciso conhecer a História para não repeti-la. 

Autor: Fabiane Cunha.

Fonte: PUC-RS.