O turbante como forma de resistência

MACKENZIE

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O turbante esteve presente em muitos lugares, culturas e religiões desde que o mundo é mundo. Especificamente no Brasil, o turbante chegou com as mulheres escravas africanas na época do Brasil Colônia. Enquanto as mulheres brancas usavam chapéus enfeitados com joias e bordados a fim de combinarem com seus penteados, as mulheres negras o utilizavam com o intuito de se protegerem ao levarem cestos pesados na cabeça e até mesmo para cobrir as cabeças raspadas ou os cabelos muito curtos que possuíam.

Na década de 20, importantes estilistas como Paul Poiret e Coco Chanel trouxeram o turbante à vida, que só iria popularizar-se depois nos anos 30, sendo inclusive utilizado por atrizes hollywoodianas. Nesta época, o Brasil contava com Carmen Miranda como referência nessa composição. Mais tarde, a partir da década de 60, o uso do turbante passou a ser símbolo de força, resgate, resistência e aceitação da identidade como mulher negra.

Recentemente, o turbante virou polêmica quando mulheres brancas começaram a utilizá-lo e a questão da Apropriação Cultural foi levantada. Em suma, Apropriação Cultural ocorre quando elementos simbólicos e religiosos de uma cultura são utilizados por pessoas que não pertencem a essa determinada cultura (descendentes de uma cultura opressora) como, por exemplo, a utilização de determinados adereços e roupas, que acabam fazendo com que este elemento seja deslegitimado e que perca seu significado.

A polêmica gira em torno de dois opostos, liberdade de escolha e a banalização de objetos simbólicos. Por ser uma questão delicada, conversamos com a  professora Mirtes, que lidera um grupo de discussão chamado GERE (Núcleo de Estudos Sobre Gênero, Raça e Etnia), e alunas do Mackenzie que defendem a causa da afirmação da identidade negra. Logo abaixo vocês encontram um pequeno trecho em forma de vídeo e a transcrição da entrevista:

 

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 RV: Quando o turbante veio para cá, era colorido, essa questão da cor tinha algum significado? Por exemplo, o turbante preto tinha algum significado diferente do vermelho?

 

Mirtes: Então, dependendo da região que vem da África, ele não tinha essas tonalidades coloridas que a gente vê hoje na moda, né, então são várias cores no mesmo turbante, era uma cor única. Algumas tonalidades, por exemplo, o marrom, o bege, o branco e o alaranjado, eles são pertencentes ao norte da África. […] O uso do turbante não é especifico da África, tem a questão da Índia… E cada lugar tem suas especificidades, então, tem lugares em que as mulheres usam, tem lugares, que, na África, por exemplo, tanto faz, usa tanto homem quanto mulher…

RV: A ocasião…

Mirtes: A ocasião, que está ligado a todas essas cerimonias, que ai a gente volta a questão da cultura popular, então ao mesmo tempo em que a gente pega a ideia da cultura de massa, por exemplo, a Carmen Miranda, que saiu do cinema, fez parte do “Alo, amigos”, aquela animação do Walt Disney, de mostrar a América Latina, América do sul… Ela é branca e na verdade nem é brasileira, ela é portuguesa, mas todas essas questões já mostram um país preconceituoso, um país racista, mostrar as baianas tais como elas são, no seu colorido, os colares das baianas que tem essa relação toda com os orixás, então se a gente for pensar de uma forma que ainda carrega um certo preconceito é a própria religiosidade.

RV: Quando o turbante é usado pela religião, as pessoas julgavam como macumba, como se fosse alguma coisa demoníaca, ai a gente entra na questão de apropriação cultural, quando o branco começa a usar o turbante, ou mesmo o dread, ele começa a ser visto como uma coisa bonita, já quando o negro usa ele é sujo. Já o turbante, se ela (a mulher negra) usa, é porque ela é macumbeira, como você vê essa questão?

Mirtes: É muito complicado, eu estava vindo para cá, passando aqui na Maria Antônia, tinha umas pessoas vendendo artesanato, ai eu fiquei olhando, me falaram assim, “ah vem ver, a gente faz artesanato para ganhar dinheiro, para sobreviver”, ai eu falei “Ah depois eu passo ai que eu estou atrasada” ai ele falou assim “a gente não morde não” (risos). […] Então tem essa relação, de se colocar de uma maneira bastante desqualificada, mas que outro na verdade, o colocou, a sociedade o colocou de uma maneira desqualificada, então quando você olha o cabelo com o dread dessas pessoas, você fala “Ah, ‘sujismundo’, não lava o cabelo nunca”, agora quando você vê numa pessoa branca… Minha filha adora, ela tinha dread e tal (risos) quando ela chegou em casa com os dreads minha sogra falou assim “Nossa Laura… não gostei muito, ficou meio assim, estranho” sabe, porque carrega toda essa questão representativa.

RV: É legal essa questão da representatividade, né?

Mirtes: Sim. Quando você está num outro corpo, essas coisas, esses apetrechos, esses adornos, em outras pessoas, eles são valorizados, quando se tem essa questão de estar no negro, de estar numa classe social menos abastarda, menos privilegiada, você tem todo um olhar meio assim, né, tipo de um certo pré-conceito que já é estabelecido.

Entrevistamos também Erika Paixão (18) e Amanda Silva (18), estudantes de Jornalismo, que defendem o movimento negro.

RV para Amanda: Como se iniciou o processo de aceitação e de construção da identidade como mulher negra?

Amanda: O processo de aceitação durou bastante tempo. Sempre achei lindo ser negro. Sempre gostei de ser. Sempre me considerei. (Reconheço que sou parda hahaha). Mas a questão é que não havia uma admiração pela Cultura Afro. Não tinha conhecimento. A partir do momento que reconheci que não havia moldes, apenas possibilidades, abri espaço para as novas percepções e experiências e o Big Chop foi o passo inicial e principal para a autoaceitação. Sem dúvidas.

RV para Erika: Qual a sua opinião sobre a crescente representatividade da mulher negra nos meios de comunicação (como blogs, TV, etc.)?

Erika: Sobre a questão da representatividade, eu acho que a gente já tá avançando, por exemplo, eu olho pra alguns anos atrás, eu lembro que tinha poucas referências de mulheres negras pra me espelhar quando eu comecei com essa vontade de parar de alisar e hoje eu acho que a gente já tá num outro ponto da discussão, a mulher negra já tem mais autoridade pra falar sobre os problemas que ela vive e estão escutando o que ela tá dizendo, acho que as coisas melhoraram, mas ainda sempre temos um caminho a percorrer, pois isso nunca vai parar, sempre temos uma luta.

AUTOR: Guilherme Rossi de Tayrine Santana, Amanda e Ana Caroline Lopes.

FONTE: Mackenzie