O racismo transcende o âmbito individual

Professor brasileiro explica como o racismo está enraizado na sociedade e opera no dia-a-dia.

Racismo Estrutural foi escrito por Silvio Almeida, professor na FGV e na Universidade Mackenzie, filósofo, advogado e diretor-presidente do Instituto Luiz Gama. O livro faz parte da coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro e publicada pela Editora Jandaíra com o Selo Sueli Carneiro, autora de Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. Todas as obras da coleção são escritas por mulheres e homens negros de diferentes regiões, evidenciando a diversidade intelectual brasileira.

A obra introduz as conexões do racismo com política, economia, direito, entre outros tópicos. O autor defende que não é possível estudar a sociedade sem considerar raça e racismo. No primeiro capítulo, a raça é apresentada como um conceito mutável, que surgiu na época das grandes navegações, quando foi preciso criar um modo de divisão entre as pessoas nativas e os exploradores.  

Com base nos pensamentos iluministas, foi concebida uma dicotomia entre civilizado e selvagem. Essa ideia foi a base do colonialismo na América Latina, que se caracterizou pela exploração dos povos indígenas, camuflada como educação para os nativos. A partir de seus estudos, Silvio concluiu que o conceito de raça contempla características biológicas, como cor da pele, e características etnoculturais, como local de nascimento e religião.

O autor explica que há diferença entre os termos preconceito racial, racismo e discriminação racial. Segundo ele, preconceito racial é uma ideia baseada em um estereótipo difundido na sociedade, como a crença que homens negros são violentos. Já a discriminação é a diferença no tratamento de certos grupos, como as abordagens policias violentas com pessoas negras. Mas também existe a discriminação positiva, como as políticas afirmativas que visam diminuir as desigualdades.

O racismo não é apenas um conjunto de ações discriminatórias, mas uma parte da estrutura social contemporânea. Apesar de as pessoas afirmarem que existe racismo na sociedade, quase ninguém se considera racista. Silvio Almeida faz questão de diferenciar racismo em três relações: com a subjetividade, o Estado e a economia. 

Sob a perspectiva institucional, o racismo é resultado da dinâmica da sociedade, que confere desvantagens e privilégios a determinados grupos. Essa concepção trata do poder como elemento fundamental das relações e por isso racismo é dominação, pois transcende o âmbito individual. O controle de grupos pode ser facilmente percebido ao analisar dados étnicos dos moradores de favelas e guetos. 

A supremacia branca se perpetua de modos diferentes conforme a época, hoje em dia as pessoas não aceitariam segregações raciais como nos Estados Unidos durante os anos 60. Por isso, o racismo foi sofisticado e enraizado na sociedade, o que cria uma sensação de normalidade. Até mesmo obras audiovisuais, como telenovelas, contribuem para a naturalização da desigualdade racial, pois a maioria dos atores negros, que já são poucos, representam majoritariamente papéis de serviços domésticos ou criminosos.

Na economia, as pessoas pretas costumam integrar os grupos mais pobres pois têm menos escolaridade e seus empregos têm salários mais baixos. A taxa de escolaridade baixa é fruto da dívida histórica, pois a abolição da escravidão mudou a teoria, mas na prática os trabalhadores continuaram fazendo os mesmos trabalhos, o que não permitiu ascensão social. 

Mas como mudar algo que está presente em todas as esferas da sociedade? Segundo o autor, é preciso consciência de classe e raça: as pessoas brancas precisam entender que são privilegiadas. O princípio da interseccionalidade explica que as características individuais se somam. Sendo assim, uma pessoa branca pobre que mora na periferia tem mais oportunidades do que uma pessoa que mora no mesmo local mas é negra. Almeida defende que políticas públicas de reparação histórica, como cotas, são importantes para que pessoas pretas possam alcançar empregos com salários maiores e prestígio social e consigam assim, lentamente, diminuir a desigualdade.

Autor: Bruna Tkatch.

Foto: Bruna Tkatch.

Fonte: PUC-RS.