O novo clássico do jornalismo investigativo é feminino

A história da reportagem que abalou as estruturas de Hollywood.

O movimento #MeToo tomou conta das redes sociais em 2017, quando mulheres, em uma rede de apoio, tornaram públicas suas histórias de abuso e assédio, denunciando homens ao redor do mundo. A hashtag tomou proporções gigantescas, e uma reportagem em especial teve responsabilidade pela grandiosidade do movimento: a exposição dos casos de assédio do produtor de cinema Harvey Weinstein, publicada no New York Times. O livro “Ela Disse”, escrito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, autoras da reportagem, conta os bastidores da investigação e o processo de conquistar a confiança de dezenas de mulheres e dar um dos maiores furos jornalísticos da década. A reportagem foi premiada com o Prêmio Pulitzer e o livro foi considerado “um clássico instantâneo do jornalismo investigativo” pelo The Washington Post.

O livro descreve detalhadamente o processo de investigação das jornalistas em relação aos assédios cometidos por Weinstein. Desde o primeiro ao último telefonema feito, Jodi e Megan documentam cada passo tomado na tentativa de conquistar a confiança de mulheres que não tinham motivo para se abrir com ninguém que mencionasse o nome do produtor. Weinstein era um dos homens mais poderosos de Hollywood, e não mediu esforços para interferir na produção jornalística. O que ele não esperava, porém, era a eficiência de Jodi e Megan. É perceptível uma entrega ao trabalho e um comprometimento com as fontes que tornam os bastidores da reportagem ainda mais fascinantes.

Aos poucos, as jornalistas localizaram diversas vítimas ao redor do mundo e começaram a notar que existia um padrão no comportamento predatório do produtor. Jovens mulheres que sonhavam com a vida hollywoodiana eram levadas para quartos de hotéis, onde eram prometidas reuniões de negócios com Harvey Weinstein, mas acabavam recebendo pedidos desrespeitosos como massagens sensuais e convites para banho. Muitas relataram que o produtor as esperava nu, e prometia que, após aquilo, as jovens seriam como Gwyneth Paltrow (uma das maiores estrelas descobertas por Harvey, que quando descobriu que seu nome era usado como justificativa do abuso, sentiu nojo e culpa). Isso sem contar em casos de apalpadas, assédio moral e psicológico, beijos forçados, dentre outros. Além disso, quando uma mulher denunciava, uma rede antiga e distribuída de advogados era responsável por comprar o silêncio das vítimas com indenizações enormes. Por isso, o trabalho das jornalistas se tornou muito mais difícil: as mulheres não foram apenas assediadas, mas silenciadas.

Durante a investigação, Megan e Jodi torciam para que alguma das fontes desse o pontapé inicial de revelar seu nome na reportagem, como forma de incentivo às próximas. Nomes importantes no mundo do cinema como Gwyneth Paltrow, Ashley Judd e Angelina Jolie estavam entre as possíveis vítimas, além de diversas outras anônimas que sonhavam com o estrelato ou simplesmente trabalhavam na Miramax e ou na The Weinstein Company (ambas empresas de Harvey). Nos dias finais de apuração da reportagem e no meio da tensão sobre as proporções que a denúncia causaria, Ashley Judd aceitou ter seu nome incluído, assim como outras vítimas. A verdade é que a publicação da reportagem mudou para sempre a indústria cinematográfica. Depois da primeira matéria, outras denúncias apareceram, mulheres vieram a público e pessoas influentes demonstraram seu repúdio ao produtor. Hoje, Harvey Weinstein cumpre pena de 23 anos por estupro e ato sexual criminoso.

O livro encerra-se com os impactos dessa longa e trabalhosa reportagem. Após um tempo da publicação e dos desdobramentos que seguiram, doze das mulheres que compartilharam seus relatos de abuso se reúnem na casa de Paltrow, juntamente às jornalistas, para uma outra reportagem: o que aconteceu com as mulheres que se pronunciaram e o que concluíram a partir do ocorrido? Rowena Chiu, que decidiu não tornar sua história pública anteriormente, naquele momento entende que se trata de algo muito maior do que ter sua vida exposta – era evitar que outras mulheres fossem tratadas dessa forma. Chiu decide contar sua história, mesmo com a carreira de Weinstein já destruída.

Por meio do detalhamento e da forma que é escrito, o livro tem o embalo quase que de um romance policial, que prende o leitor. Por mais que os desdobramentos do caso sejam conhecidos, o suspense é de novidade. “Ela Disse” e a reportagem do New York Times ilustram perfeitamente a importância do jornalismo. Sem a dedicação de Kantor e Twohey e o empenho da equipe do jornal, Weinstein provavelmente ainda estaria cometendo abusos. Investigar requer coragem, assim como o próprio jornalismo. Ao longo do livro, fica clara a apreensão das jornalistas em relação ao próprio futuro pós publicação da reportagem. Estavam mexendo com um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, mas sabiam que era dever delas expor ao público algo tão importante. 

Acima de tudo, esse é um livro de mulheres. As jornalistas são mulheres, que dialogam com fontes femininas e impulsionam um movimento feminista que muda os rumos do mundo. “Ela Disse” é a prosperidade e qualidade das mulheres no jornalismo, tornando-se um clássico contemporâneo, que deve ser lido por todos.

Autor: Maria Fernanda Luchsinger.

Fotos: Maria Fernanda Luchsinger.

Fonte: PUC-RS.