O esporte transcende: a inclusão das transexuais em grandes competições e suas incertezas

USP
A possibilidade de vermos transexuais no esporte de alto rendimento, competindo junto a mulheres cis, é algo que alegra muitos, mas ainda inquieta alguns. Em 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI) mudou as regras para a participação de mulheres transexuais nos Jogos Olímpicos. Os critérios são, até hoje, muito questionados, pois nem todos creem que são capazes de garantir uma concorrência justa entre todas as competidoras.

(Imagem: Camila Alves)

Hoje, é exigido que as atletas estejam passando por hormonioterapia, de forma a manter 10 nanomol de testosterona por litro de sangue durante todo o tempo em que estiverem competindo, além de terem mantido essa taxa nos 12 meses que antecedem sua participação nas competições. Não é mais necessária a cirurgia de readequação sexual, também chamada de cirurgia de redesignação sexual ou, grosso modo, cirurgia de mudança de sexo.

As atletas também precisam ter declarado sua identidade de gênero feminina, o que não pode mudar enquanto competirem. Esses critérios também valem para várias outras competições oficiais, já que o COI também controla Comitês Olímpicos nacionais e federações esportivas internacionais, suas regras servindo de base para essas outras organizações.

A mulher transexual que realiza sua transição após a puberdade não teria vantagem sobre as outras, por ter nascido em um corpo masculino e biologicamente mais forte? Seriam esses critérios suficientes para garantir uma concorrência justa entre todas? Em meio a vários questionamentos, alguns ainda sem resposta, não se pode ignorar que todas essas alterações são verdadeiras conquistas para as mulheres transexuais, bem como para toda a comunidade LGBTQ+.

O que é uma pessoa transexual?

O termo já traz, por si só, muitas dúvidas, que merecem ser esclarecidas antes mesmo que comecemos a falar sobre esporte. Transexual é uma pessoa que se identifica com um gênero diferente daquele pré-designado pelo sexo biológico. No caso de uma mulher transexual, é alguém que nasceu com hormônios e órgãos sexuais masculinos, mas se identifica como pertencente ao gênero feminino, se sente mulher. É como se fosse “uma mulher num corpo de um homem”.

Essa incompatibilidade entre o sentimento de pertencimento da pessoa e seu sexo biológico pode causar enorme angústia, o que faz muitas vezes com que transexuais busquem tratamentos e cirurgias que possam adequar seu corpo ao gênero ao qual pertencem. Por estar ligado aos sentimentos do indivíduo, tudo isso é realmente difícil de ser explicado e entendido, sendo necessário algum esforço para compreender e não ceder a pré-conceitos.

Também é importante destacar que a transexualidade não tem nenhuma relação com a orientação sexual da pessoa, estando apenas relacionada à identidade de gênero. Ou seja, o fato de uma mulher trans se identificar com o sexo feminino não quer dizer que ela sinta atração sexual por homens. Ela pode ser uma mulher transexual homossexual, por exemplo, e relacionar-se com outras mulheres.

A imagem explica de forma simplificada a diferença entre identidade de gênero, sexo biológico e orientação sexual
(Imagem: blog.livrariaflorence.com.br)

Por que a participação de transexuais em esportes de alto rendimento está sendo questionada?

Muitas pessoas ainda acham que as mulheres transexuais podem ter uma vantagem física se comparadas às demais, em se tratando de mulheres que realizaram sua transição para o sexo feminino após a puberdade. Isso porque a  testosterona é um hormônio anabolizante, que faz com que a massa muscular de homens seja maior do que a de mulheres.

Assim, pelo fato dos corpos das transexuais terem crescido e se desenvolvido durante anos com a influência de muito mais testosterona do que uma mulher cis, é provável que elas ainda possuam uma força física superior, mesmo com o tratamento hormonal.

Se essa vantagem existir, a participação das transexuais seria injusta, pois poderia ferir a concorrência esportiva, princípio que garante que qualquer um possa vencer uma competição e que faz com que os atletas continuem se aprimorando e competindo. Em outras palavras, a “graça” de se acompanhar um esporte é exatamente não ter a certeza de quem vai ganhar, e dar vantagens prévias a algum competidor faria com que o esporte perdesse seu sentido.

Mas aí é que começam as incógnitas: não existem ainda resultados científicos que comprovem essa vantagem física, ou afirmem o contrário. Vários fisiologistas dizem que é impossível não haver uma vantagem, enquanto as próprias transexuais argumentam dizendo que há uma perda de força física com a transição hormonal. É o que afirma Samy Fortes, Delegada Federal da Saúde da Mulher e ativista trans, que mora em Jundiaí-SP. “Quando uma pessoa transexual começa a fazer a sua transição hormonal, isso acaba modificando por completo a situação de hormônios no corpo da pessoa. Ela se sente mais cansada, mais frágil. É muito complicada essa situação.”

A situação é, de fato, complicada, já que também não há estudos que mensurem essa perda de força que ocorre com a transição hormonal. Isso deixa a todos no escuro, deixando como última alternativa, a confiança no COI e em suas regras.

Segundo o Dr. Magnus Dias da Silva, endocrinologista que atualmente coordena o Núcleo Trans Unifesp, é preciso confiar no julgamento da organização. Isso porque, muito mais do que os aspectos físicos dos atletas, ela conhece também os esportes de alto rendimento em questão, de forma a poder estipular critérios mais precisos para que a inclusão das transexuais continue preservando a concorrência justa. “Eu acho que aí tem pouco papel do médico, do endocrinologista. A responsabilidade é mais do comitê que define aquele esporte, quais são seus critérios de inclusão ou de exclusão”, opina.

De fato, o COI, sendo uma importante organização, não tomaria decisão alguma sem muita cautela. O Comitê, também no escuro quanto a supostas vantagens às transexuais – e que não podem ser medidas –, optou por regular a taxa de testosterona dessas atletas, algo mais palpável. Essa decisão não foi feita ao acaso e, além de levar em consideração a importância da inclusão de todos no esporte de alto rendimento, foi discutida com vários profissionais da saúde.

O COI acredita que todo atleta possui suas vantagens e desvantagens em relação a outros. Existem, por exemplo, mulheres cis com uma força muito acima da média: elas também podem ser consideradas injustas, e proibidas de competir? E quanto a pessoas muito altas, deveriam ser proibidas de jogar esportes como vôlei e basquete?

Cada pessoa tem uma anatomia e fisiologia únicas, e seria impossível equiparar a todos de maneira exata. Somos diversos, como expressa o Dr. Magnus: “É da natureza humana que essa diversidade exista, biologicamente falando. De comportamento, de expressão, de gênero, tudo isso é muito variável. E ainda bem que é variável”.

Ainda bem mesmo. É essa diversidade toda que faz com que nós fiquemos tão impressionados ao observar craques únicos, e quase imbatíveis, como Michael Phelps. Ele possui braços bem mais longos que o normal para alguém de sua altura, puxando água com mais facilidade e fazendo-os funcionar como verdadeiros remos. E isso é só um dos detalhes que faz com que seu corpo seja quase perfeito para a natação. Competir com Phelps também é injusto?

Nessa imagem é possível ver como os braços de Michael Phelps são grandes em relação ao resto de seu corpo. Ele mede 1,93m, mas sua envergadura (distância entre um braço e outro) mede 2,01m. Na maioria das pessoas, a envergadura é menor que a altura. Foto: EPA/PETER FOLEY

Uma conquista para elas, mas a luta não acabou.

Para as transexuais, é muito significativo ver que atletas trans estão ganhando espaço, mesmo que ainda pouco. Até no Brasil, país que mais mata transexuais e travestis no mundo, já vemos a atleta Tifanny Abreu defender o Vôlei Bauru nas quadras. Ela foi a primeira mulher trans a disputar uma partida oficial da Superliga, o mais importante campeonato de vôlei a nível nacional.

Samy Fortes, quando perguntada se espera que mais atletas sintam-se encorajadas a competir futuramente, responde: “Eu sou brasileira e não desisto nunca. A esperança é a última que morre. Ver a Tifanny como atleta, jogando aí no vôlei brasileiro, é tudo pra gente. É uma transexual estar representando a nossa população, fazendo valer os espaços que por direito também são nossos”.

A jogadora de vôlei Tifanny Abreu já causou muita polêmica principalmente entre suas adversárias, mas é motivo de orgulho para as transexuais. Tifanny é representatividade.
(Imagem: Leo Martins/ Veja SP)

A luta dessas mulheres no esporte é árdua, pois, como todas as lutas da população LGBTQ+, ainda enfrenta muitos questionamentos e preconceitos. Mas Samy é otimista e acha que as coisas melhorariam se houvesse uma maior informação das pessoas: “Existe ainda um tabu muito grande da sociedade encarar que uma mulher transexual hoje tenha condições de ser uma esportista, pela falta de informação, de orientação, de profissionais capacitados para poder falar sobre esse assunto. As pessoas não entendem, não sabem, não conhecem, não têm um entendimento maior e acabam tendo esse pré-conceito, que acaba sendo preconceito contra a nossa população”.

Entre essas questões que as demais pessoas têm dificuldade em compreender está a transição hormonal, algo que nunca sentiram na pele e assunto sobre o qual não possuem muitas informações.

Sobre os muitos questionamentos feitos, o Dr. Magnus também não acredita que a maioria das pessoas esteja sendo maldosa. “A pessoa está tentando ser justa na maneira como ela reconhece como igualdade de condições. Eu não vejo isso com repulsa, eu entendo os dois lados”.

Qual será o desfecho dessa história?

Ainda não se sabe. Até o presente momento, aqueles que não concordarem com a decisão do COI não podem fazer nada além de discutir e levantar hipóteses. Nenhuma vantagem foi provada, e, enquanto estiverem jogando limpo, todas são bem-vindas a competir. Mas também é preciso ter consciência de que talvez, com novas descobertas, as regras mudem, e terão de ser acatadas. Se isso ocorrer, o que se espera é que essa inclusão seja reformulada, e não abandonada.

É preciso também saber separar as coisas e entender que, no esporte, os aspectos físicos são sim relevantes, o que talvez venha a tornar mais difícil a inclusão das transexuais. O importante é seguir as regras, como diz o Dr. Magnus Dias da Silva: “Por mais emocionado que a gente esteja e querendo que as Tifannys no mundo e no Brasil tenham acesso e assegurem seu espaço no esporte, isso é uma luta e a gente está junto, mas também não podemos ignorar se para aquele esporte a regra foi cumprida. Jogo é jogo. Esses critérios têm que ser cumpridos, independente de ser cis ou trans.”

Por enquanto, temos certeza apenas de que as regras foram dadas, e, segundo elas, as transexuais podem se fazer bem mais presentes no esporte feminino de alto rendimento de agora em diante, inclusive nas próximas Olimpíadas. Essa representatividade ainda é pequena e nada ideal, mas isso pode mudar.

“A nossa visibilidade perante a sociedade é uma sementinha hoje. Nós estamos plantando ainda. Então aos poucos eu acredito que nós vamos nos fortalecer”, diz Samy, esperançosa. E acrescenta: “Eu espero que um dia a gente possa estar ocupando nossos espaços sem transfobia, sem preconceito, para um mundo melhor para toda a sociedade. Para um todo, né? A nossa população vem pra somar, e não pra diminuir.”

Autora: Marina Caiado

Fonte: Jornalismo Júnior/USP