O Brasil como um recomeço

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De acordo com dados do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), órgão ligado ao Ministério da Justiça, 2.077 sírios receberam o status de refugiado entre 2011 e agosto deste ano. Após um período de adaptação, os refugiados têm conseguido reestruturar suas vidas e reinventar trajetos para se estabelecerem novamente.

Há cerca de dois anos no Brasil, uma dessas famílias busca reconstruir sua história em Belo Horizonte. Fugiram da Síria por causa dos conflitos que já se aproximavam da cidade em que moravam. Ainda sonham voltar à terra natal, por isso pedem anonimato à reportagem. Os nomes utilizados são fictícios.

Marcelo, com a ajuda da filha que já domina o português, conta que ele, a esposa Silvia e os três filhos tentaram primeiro fugir para a Europa. “Gastamos muito dinheiro, mas não deu certo, não conseguimos sair. Ficamos desesperados!”, explica. As histórias nas cidades vizinhas eram violentas e já tinham alcançado alguns familiares e amigos de familiares.

“Uma mulher e a família dela, que morava perto da casa da minha tia, que não existe mais por causa de uma bomba, não quiseram sair da onde moravam. O Estado Islâmico matou o marido dela na frente de todo mundo. Cortaram a cabeça dele. Depois, prenderam a mulher e os dois filhos dentro da casa e ligaram o gás, a sorte foi que não viram que tinha outra porta. Eles fugiram e ficaram três dias escondidos no mato. As crianças ficam contando sobre o que aconteceu com o pai”, conta Sílvia junto com uma de suas filhas.

A ideia de vir para o Brasil, o país do “café, futebol e carnaval” segundo a família, foi de um parente refugiado na Suécia. “No inicio não acreditávamos que iria dar certo, mas mesmo assim resolvemos tentar. Foi difícil de acreditar quando recebemos a resposta!”, conta a filha do casal. O filho mais novo, 12 anos, vibrou com a ideia de morar no Brasil, “o país do futebol”, diz com um sorriso no rosto.

O garoto pediu para ser chamado de Messi na história, o jogador que ele almeja ser.

Messi foi o primeiro a aprender o português, e se tornou o porta voz da família nos comércios da cidade. Seus pais ainda reclamam da dificuldade da língua portuguesa, mas admiram a agilidade dos filhos no aprendizado. A família recebe o apoio de uma igreja protestante na cidade para se estabilizarem e reinventarem sua história no país.

Silvia e Marcelo sonham com o retorno à Síria, enquanto os filhos já se acostumam com a ideia de ficar no Brasil. Para o casal, ver tudo que conquistaram se perder é doloroso e reconstruir tudo é como se “descessem todos os degraus que subiram na vida e começassem tudo de novo”, explica Marcelo. Enquanto a guerra não termina Silvia prefere não sonhar: “levei 20 anos para construir a casa que sonhei. Deixo nas mãos Deus. O que eu tinha sonhado, já foi!”, diz. Enquanto isso, Marcelo conta os anos de guerra para mensurar a intensidade da saudade que sente de seus familiares e de tudo que conquistou.

Leandro Roberto Barbosa é estudante de jornalismo e faz parte do projeto Focas de Jornalismo do Clube do Jornalismo desde 2015.