Negros têm menos acesso ao mercado de trabalho e sofrem com a discriminação, diz pesquisa

Estudo do Instituto Locomotiva afirma que 76% de trabalhadores afrodescendentes conhecem alguém que enfrentou preconceito

Negros têm menos acesso ao mercado de trabalho e sofrem com a discriminação, diz pesquisa

No mês de junho o instituto de pesquisa Locomotiva realizou um estudo que revelou como o preconceito racial é visto pelos brasileiros, além de mostrar como a população afrodescendente sofre em alguns setores da sociedade. A pesquisa “As faces do racismo”, feita para a Central Única das Favelas (CUFA), tem como um dos pontos principais observar os desafios que pessoas pretas e pardas enfrentam no mercado de trabalho. De acordo com o estudo, 46% dos trabalhadores brasileiros dizem ter pouca ou nenhuma diversidade étnica na empresa onde trabalham. Em se tratando de funcionários negros, o número sobe para 68%.

Maria Helena Sabino, 22, trabalha como analista de produtos em um banco em São Paulo. Entre os 200 funcionários de seu andar, além de Maria só há mais uma pessoa negra. E esse não é o primeiro emprego onde ela se sentiu minoria. “É sempre assim nesses lugares, somos um, ou dois”, comenta. A jovem afirma que às vezes é desconfortável ficar se questionando o motivo de ser uma das únicas pessoas negras no ambiente de trabalho. “Por vezes me pergunto como os brancos são minoria no Brasil e a maioria nesse prédio. Porém, eu gosto de transformar esse desconforto em algo positivo para o povo preto. Formamos um coletivo dentro do banco e já trouxemos discussões bem importantes aqui”.

O estudante de arquitetura Ariel Oliveira, 20, de São Paulo, trabalhou por algum tempo como atendente de telemarketing e relata que já se sentiu menosprezado no tratamento de chefes brancos por causa da cor da sua pele. Segundo o jovem, naquela empresa até existia diversidade, no entanto as pessoas com cargos mais altos eram brancas. “Sempre tive problema com meus chefes, isso ia desde agressão verbal a não respeitar o espaço físico”, conta. 

Segundo o estudo do Instituto Locomotiva,  10% dos chefes eram pretos; 21%, pardos e 66%, brancos. Independentemente do cargo ocupado ou instituição, pessoas negras muitas vezes são obrigadas a conviver com humilhações ou deboches raciais por parte da chefia. O levantamento também indica que 36% dos trabalhadores disseram conhecer alguma pessoa que já foi alvo de preconceito no ambiente profissional. Entre os negros, o número sobe para 76%.

A estatística pode ser comprovada por relatos de pessoas como Thayná Nicácio, 20, de São Bernardo, que durante uma experiência única, trabalhando na parte técnica de uma grande emissora de TV, sofreu ofensas raciais. Ela conta que quando apareceu com o cabelo natural e cacheado no trabalho, foi alvo de piadas racistas por parte de homens brancos. “Eles comparavam meus cachos a pelo de cachorro e assoviavam, como se chamassem um cão. Tentava ignorar, até que um deles começou a gritar comigo, disse que eu não fazia nada direito, ofendeu meu cabelo, meu nariz, meu rosto e disse que eu era estranha”. A jovem conta que naquele dia desmoronou. “Fui no banheiro e só conseguia chorar. Foi uma das piores experiências da minha vida”. Thayná diz que a saúde emocional foi uma das motivações que a fez sair do emprego.

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Origens da Desigualdade

A moradora de São Bernardo, Rosângela Marques, 34, consultora educacional e professora de direitos humanos e segurança pública, também passou por constrangimentos por causa da cor da sua pele. “Encontrei várias dificuldades, começando pelo preconceito e estereótipos”. Para pessoas negras, como Rosângela, algumas vezes é preciso encarar a entrevista profissional como um obstáculo extra a ser enfrentado.”Já me senti rejeitada em vaga de emprego pela questão racial. Uma vez percebi que isso me colocou em desvantagem diante de outro candidato que tinha um currículo inferior ao meu”, relata.

Também mulher negra, a cientista social Gabriela Alves dos Santos, que trabalha com responsabilidade social no Instituto EDP, de São Paulo, explica que a dificuldade do negro no ingresso no mercado de trabalho e em cargos de chefia está atrelada ao racismo estrutural na sociedade. “Isso é a não individualização do preconceito. A cultura, a sociedade e a maneira como ela se construiu foi baseada em preceitos racistas”, explica. Segundo Gabriela, após a abolição da escravidão no Brasil, os negros, que eram vistos como propriedade, não foram contemplados por nenhuma lei que os ajudasse a entrar no mercado formal de trabalho de uma forma justa, o que ajuda a explicar o cenário atual.

Fabiana Schleumer é doutora em História Social pela USP, professora de História da África e a primeira mulher negra a ser chefe do Departamento de História da UNIFESP. Ela também acredita que o Brasil carrega heranças dos mais de 300 anos do período escravocrata. “Quando falamos da época pós-abolição, principalmente por conta da chegada de muitos imigrantes, destaca-se uma marginalização do trabalhador negro, que intensificou seu processo de empobrecimento e exclusão dos centros urbanos.” Fabiana também esclarece que estudos na área da história da educação apontam que, após o fim da escravidão, negros foram barrados ao tentar entrar em instituições de ensino.

Como afirma a professora, “pessoas negras que ascendem a cargos de chefia, ou destaque no mercado de trabalho, representam uma reversão histórica, o que pode incomodar grupos atrelados a elites que sempre estiveram em posições superiores, econômica e socialmente.”

Não é segredo que uma boa educação, em todos os níveis, é fundamental para almejar boas posições no mercado de trabalho. Fabiana chama atenção para a falta de estudantes negros em instituições de ensino superior. “A universidade chegou ao Brasil no período imperial, para atender as necessidades de formação dos filhos da elite. Por mais de um século elas receberam, quase que exclusivamente, membros dessas elites. Algo que só tem mudado nos últimos anos, com medidas governamentais de abertura para outras classes.” A chefe do Departamento de História da UNIFESP completa dizendo que é necessário pensar uma universidade mais inclusiva em todos os sentidos. “Esse é um problema coletivo que só pode ser resolvido de forma conjunta, por meio de políticas públicas, primando pela diversidade de ideias, conhecimentos e visões de mundo.”

Seleção para o mercado de trabalho

No estudo do Instituto Locomotiva, também pode ser observado que as pessoas afrodescendentes são maioria em posições de trabalho mais precárias e com menor remuneração, recebendo, em média, 76% a menos do que trabalhadores brancos.

Janaína Damas, 27, é profissional de recursos humanos de uma empresa que presta auditoria e consultoria. Junto de sua equipe, ela explica que utiliza a inclusão e a diversidade como um fator determinante na hora da escolha de profissionais. “Quebramos alguns paradigmas de seleção fazendo um processo que exclui critérios que poderiam eliminar pessoas de determinada classe, como nome da faculdade, idade, entre outros”, comenta.

Segundo Janaína, é preciso quebrar o paradigma de exclusão através de parcerias com universidades e outros meios. “Para ter um crescimento organizacional é importante encontrar espaços para o ingresso de pessoas negras nas organizações”, finaliza.

Autor: Miguel Rocha e Gabriel dos Santos

Fonte: Metodista