Mulheres desafiam estatísticas e capitaneiam inclusão de minorias no mercado de trabalho

PUC-RS

Pesquisa mostra melhora nos índices de representatividade, mas minorias ainda lutam para chegar a posições de maior hierarquia

“Por toda minha trajetória de vida, vi dificuldade”. Patrícia Marcelino é assistente social e presidente da Associação Canoense de Deficientes Físicos (ACADEF), a única entre 11 irmãos a ter um diploma. Ela transforma o descrédito que sempre recebeu em desafio para enfrentar a vida em uma sociedade onde o preconceito está onipresente, seja de forma explícita, seja de forma velada. Negra e com deficiência física, Patrícia é exemplo de um grupo que sofre não apenas com um, mas com diversos tipos de discriminações. São minorias que aos poucos ocupam espaços no mercado de trabalho, embora a representatividade ainda seja baixa.

O Instituto Ethos lançou uma pesquisa traçando um perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil. Baseando-se nos dados do levantamento, é possível afirmar que a representatividade de minorias tem aumentado, mas ainda está longe do ideal. Mulheres, negros e pessoas com deficiência, por exemplo, estão sub-representados.

Em 2013, segundo dados do IBGE, a população brasileira era composta por 51,4% de mulheres, sendo 43,6% da População Economicamente Ativa (PEA). “Nós não somos invisíveis, né? Pagamos os mesmos impostos, então queremos ter os mesmos direitos e os mesmos espaços”, lembra Patrícia. Outras estatísticas ajudam a ressaltar essa disparidade. A parte feminina da população é mais instruída, tendo, em média, meio ano a mais de estudo do que os homens. Soma-se a isso o fato de serem maioria em matriculados e concluintes no ensino superior.

Contrariando esses fatos, o que os números mostram é um afunilamento hierárquico. O espaço ocupado por mulheres é menor à medida que aumenta a atribuição de comando. As únicas funções onde o sexo feminino é maioria são as de aprendizes e estagiários (as duas de menor hierarquia). Entretanto, é preciso destacar a evolução em comparação aos dados de 2010. Cargos de supervisão e gerência eram ocupados por mulheres em somente 26,8% e 22,1% dos casos, respectivamente, e, 5 anos depois, são 38,8% e 31,3%, segundo o estudo.

O caso dos negros é mais preocupante. Em 2013, também segundo o IBGE, eles representavam 52,9% da população brasileira e eram 52,8% da PEA. Apesar disso, nas empresas analisadas pelo Instituto Ethos, apenas 34,4% de todo quadro pessoal são de negros. A situação é ainda mais grave se analisada somente a situação das mulheres negras: apenas 10,6% do quadro pessoal. Nesse universo, somente 1,6% ocupam cargos de gerência e incríveis 0,4% fazem parte do quadro executivo de algumas das empresas. Traduzindo: entre 548 diretores (negros ou não, de ambos os sexos) existem apenas duas mulheres negras.

Desafiando as estatísticas, Alyne Jobim é uma das sócias-fundadoras da Integrare Consultoria em Inclusão e Acessibilidade. Ela concorda que os negros e mulheres não têm uma representatividade significativa em cargos de alta gestão, e, por isso, alguns obstáculos a mais aparecem: “Quando se é negro é empreendedor, quando se é branco, é empresário”, compara, sublinhando que a escolha das palavras é capaz de desvelar preconceitos. “Na minha experiência como empreendedora negra, não posso dizer que alguém já fechou uma porta pela minha cor, mas é muito natural que as pessoas me vejam como uma funcionária da empresa”, acrescenta.

No grupo analisado pela Ethos, 2% dos empregados são pessoas com deficiência. Os homens são maioria, com 59,9%. Entre os 8 cargos analisados, a maioria dos deficientes físicos encontra-se no “Quadro Funcional”, ocupando funções administrativas. De acordo com Alyne, cria-se uma barreira em relação ao assunto: “Não querem alguém com deficiência fazendo o relacionamento com o público, por isso o quadro administrativo é usado para inclusão. O deficiente acaba sendo escondido”.

A empresa de software ThoughtWorks é conhecida pela hierarquia horizontal. Possui um modelo de gestão para que os funcionários desenvolvam projetos em colaboração com os demais colegas de trabalho e tenham autonomia para definir horários e metas. E, também, pela política de inclusão de minorias. Ayslan Schmidt, recrutadora da empresa, considera isso uma fonte de força: “O ambiente se torna muito mais integrado e respeitoso. Em função da diversidade e da empatia criada, eu consigo identificar o preconceito muito mais rápido, principalmente o machismo”. Traçando um paralelo com sua experiência em empresas anteriores, ela destaca: “O diferencial daqui é que fazemos com que as pessoas tenham uma visão mais ampla da sociedade”.

Aneliz Silva, deficiente física e também recrutadora da ThoughtWorks, comenta sobre a hierarquia horizontal da empresa e sua relevância dentro dela: “Tive três experiências antes em empresas grandes, de muita hierarquia. Chegando na ThoughtWorks, existe a diretora, a gerente do escritório e uma líder. Só. A maior diferença foi eu ser dona do meu processo, ser consultora, não somente o operacional”.

As mulheres com deficiência enfrentam o mesmo afunilamento hierárquico. Só são maioria entre os estagiários. Em cargos de gerência elas representam 25%. No quadro executivo, os homens alcançam os 100%: três pessoas com deficiência, três homens. Nos cargos mais altos, os de “Conselho Administrativo”, não há ninguém com deficiência. Isso sugere, segundo a pesquisa, uma dupla discriminação com a mulher deficiente: o gênero e a deficiência.

Levando em consideração a diversidade social, racial e de gênero, especialmente em um país como o Brasil, torna-se fundamental que questões como a representatividade no mercado de trabalho seja uma preocupação social. Aneliz enfatiza: “É fundamental o convívio com pessoas diferentes, entender as dificuldades do outro. Ao empregar uma menina trans, por exemplo, você precisa entender o contexto social e valorizar o indivíduo, isso gera empoderamento”.

Por isso, mesmo que apresente uma melhora em relação a levantamentos passados, o estudo ainda evidencia a falta de conhecimento que leva ao preconceito de forma cultural, generalizada e institucionalizada.

Texto: Diego Furtado e Caio Santos
Foto: Diego Furtado
FONTE: Famecos/PUC-RS