Movimento estudantil brasileiro ajudou a combater a ditadura

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O ano de 1968 foi marcado por uma série de protestos estudantis ao redor do mundo, com jovens estudantes se revoltando contra a repressão e o autoritarismo de seus governos. O Brasil não foi exceção.

Para entender o movimento é necessário conhecer o contexto não só do Brasil como do mundo à época. Na passagem da década de 1950 para 1960, o mundo se encontrava em um processo de transformação tecnológica, social e política. Era o auge da Guerra Fria e havia a bipolarização política, com dois modelos antagonistas. “Devido ao desenvolvimento tecnológico acelerado, uma série de paradigmas são quebrados. Há um maior acesso à informação. Os meios de comunicação se tornam mais ágeis. Uma nova cultura industrial é criada”, resume Robson Alexandre de Moraes, que foi presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (UMES-SP) nos anos 1980, quando a entidade voltou à legalidade.

Hoje orientador pedagógico na rede municipal de ensino de Campinas, professor de história e pesquisador da Unicamp, Moraes diz que é interessante pensar quem eram esses estudantes e de que maneira o movimento estudantil se articulou. O ensino superior no Brasil começa ainda no final da época colonial e era exclusivo para os filhos da oligarquia. As escolas para a massa de filhos de operários e de grupos mais populares são recentes, surgiram só no século 19. “Estudante não é classe social, é condição. Acontece que muitas vezes essas lutas pela aquisição ou manutenção de direitos acabam tendo um recorte de classes, principalmente com os grupos mais populares”, pondera ele.

 

 

Imagens de época, recortes de jornal e arquivo policial mostram protestos estudantis e a violenta repressão sofrida pelos estudantes contrários ao regime militar no congresso de Ibiúna | Fotos: Reprodução de internet

Estudantes contra a ditadura

Segundo Moraes, com o golpe em 1964, tudo mudou. “Houve uma grande quebra de direitos e condições, e é claro que a estudantada foi se mobilizar fortemente.” De acordo com o pesquisador, a mobilização imediata de denúncia e de resistência ao golpe não foi só com partidos políticos e sindicatos. “Logo após os miliares assumirem, muitos estudantes ocupam a sede da União Nacional dos Estudantes [UNE] no Rio para fazer de lá um grande bastião da resistência”, diz.

Como resposta, uma das primeiras medidas tomadas pela ditadura foi a de fechar os centros acadêmicos e entidades estudantis devido à sua capacidade de mobilização em oposição ao regime.

No dia primeiro de abril de 1964, houve um incêndio na sede da UNE, na Barra, no Rio de Janeiro, que posteriormente foi fechada. A União Nacional dos Estudantes era uma forte aliada do anterior governo de João Goulart e fazia oposição aos militares.

Nesse momento, professores foram cassados, acusados de conspirarem com comunistas, e militares foram introduzidos dentro dos colégios e universidades para monitorar as atividades dos estudantes. Entretanto, mesmo de maneira ilegal, a UNE continuaria como símbolo do movimento estudantil brasileiro.

Entre 1964 e 1968, a atividade estudantil no Brasil foi intensa, mas clandestina, já que os centros acadêmicos oficiais estavam sob o controle dos militares.

O ano de 1966 foi marcado por tumultos. O episódio mais notório foi o chamado “massacre da Praia Vermelha”, no Rio de Janeiro, onde estudantes cariocas protestavam contra o pagamento de taxas à universidade e sofreram forte repressão policial. Após violento conflito, o mês seguinte ficou conhecido como “Setembrada”, e foi marcado por manifestações espontâneas em todo o país.

Sala de aula de universidade francesa pichada durante o Maio de de 1968 em Paris | Foto: George Garrigues/Creative Commons

Reforma

Durante toda a década de 1960, os estudantes lutaram por uma reforma universitária. “Uma das grandes bandeiras que os estudantes tinham naquela época era a mudança do sistema de vestibular, o acesso à universidade para todos e o fim do que se chamava de funil educacional”, conta Moraes.

Neste contexto, uma medida adotada pelo regime militar foi o acordo MEC-USAID que tinha o intuito de reformar o sistema educacional brasileiro, introduzindo o sistema norte-americano de ensino. Entretanto, a parceria entre o Ministério da Educação e a United States Agency for International Development não foi bem vista pelos estudantes. Eles entenderam essa proposta como uma mudança que representava o grau de influência dos Estados Unidos sobre o Brasil. Como resposta, nas universidades, os estudantes organizaram uma aliança de oposição à mudança. Mesmo com protestos, diversos pontos da reforma foram implantados.

De acordo com Luis Groppo, sociólogo e professor de ciências sociais pela Universidade Federal de Alfenas-MG, era inegável a influência das revoluções do terceiro mundo e de seus respectivos líderes, como Che Guevara e Mao Tse-Tung, dentro dos movimentos estudantis. Havia jovens que participavam das organizações de estudantes e, ao mesmo tempo, eram militantes do Partido Comunista Brasileiro, o PCB.

Porém, a partir de um momento, esses jovens estudantes questionam a esquerda tradicional e acabam se afastando do partido. “Eles se aproximam de ideologias de esquerda que pregavam a ideia de revolução imediata, influenciados pelas revoluções e pela política operá- ria”, formava-se assim o que se chamaria de Nova Esquerda.

A morte de Edson Luís

O momento que marcou a radicalização política no Brasil durante os primeiros anos de ditadura foi a morte do estudante secundarista Edson Luís no Rio de Janeiro, no dia 28 de março de 1968. O jovem, que saiu de Belém do Pará e chegou à cidade para tentar vaga na Faculdade do Rio de Janeiro, frequentava um restaurante estudantil popular chamado Calabouço, um ponto de encontro entre os estudantes. Os militares perceberam e decidiram fechá-lo. Em uma das manifestações que defendia o restaurante, Edson foi baleado no peito e morto pela polícia.

O jovem não era líder de movimento algum, era apenas mais um estudante adepto às reivindicações. Para Luis Groppo, a morte do estudante desmascarou a face sombria do regime civil-militar brasileiro. “A ditadura completou seus primeiros quatro anos matando um estudante, e isso desencadeou uma série de consequências”, conta.

De acordo com o professor da Unifal-MG, após a morte do secundarista aconteceram 26 grandes passeatas em 15 capitais, o que demonstrou o descontentamento da população com a ditadura.

A maior manifestação ocorreu no dia 26 de junho, conhecida como a Passeata dos Cem Mil, e conseguiu reunir diversas camadas da sociedade brasileira. “Foi, sem dúvidas, o grande momento da mobilização estudantil antes que o regime ficasse cada vez mais violento e autoritário”, diz Moraes.

Revolução estudantil contra a ditadura militar | Foto: Reprodução de internet

Batalha da Maria Antônia

A Guerra ou Batalha da Maria Antônia aconteceu no dia 2 de outubro de 1968 e foi um conflito entre estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A rua, localizada no centro de São Paulo, abrigava os pré- dios das duas universidades e, durante a ditadura, o convívio entre os estudantes das diferentes universidades era tenso. De um lado, o Mackenzie, marcado por um posicionamento mais à direita, e, de outro, a USP, conhecida pela militância de esquerda.

Estudavam no Mackenzie membros de grupos paramilitares, como o Comando de Caça aos Comunistas, ator central no conflito de 2 de outubro de 1968. “A intenção dos integrantes do CCC do Mackenzie era ocupar e fechar a unidade da USP e acabar com o movimento estudantil no centro de São Paulo”, lembra o professor de história Robson de Moraes. Quando a polícia chegou ao local, agiu de maneira violenta, agredindo muitos estudantes, a maioria uspianos.

Como resultado, os cursos de Filosofia, Ciências Sociais, Psicologia e Letras foram transferidos para a Cidade Universitária da USP, no Butantã.

Ainda em 1968, em outubro, aconteceu o Congresso de Ibiúna, que mobilizou cerca de mil estudantes para a pequena cidade do interior de São Paulo. Embora o encontro clandestino entre líderes estudantis fosse para discutir o futuro do movimento frente à ditadura, o Congresso de Ibiúna significou o ponto final de uma importante fase do movimento estudantil brasileiro.

“O que deu errado foi que chamou as atenções das autoridades por conta de um grande número de pessoas em um lugar quase no meio do mato”, disse. Todos os líderes estudantis e grande parte dos estudantes foram identificados, fichados e presos. Só em 1977, quase dez anos depois, voltaria a ser discutido o movimento estudantil.

Autor: Lucas Abreu

Fonte: ESPM