Moradores próximos ao Polo Petroquímico se preocupam com a poluição no ar

Aumento do risco de casos clínicos de saúde, causados pela poluição, assustam os moradores.

A poluição é um problema recorrente no estado de São Paulo, porém a situação se agrava quando se está vivendo próximo a uma região de grande concentração de fuligem negra no ar, como é o caso dos moradores dos bairros ao redor do Polo Petroquímico, localizado na divisa de Mauá e Santo André.

Glaucia Gandolfi, moradora do entorno do Polo Petroquímico há mais de 40 anos, comenta sobre o incômodo de moradores que vivem na região. “Eles estão liberando muito pó preto, tanto que mancha a roupa no varal. O meu cachorro não dura um dia limpo, porque ele é um shih-tzu, então fica pretinho, e assim eu tenho uma rede na varanda e não posso mais usar, porque ela ficou em um estado péssimo. É tipo uma gordura que eles jogam, manchou tudo”, afirmou Gandolfi. Além da sujeira causada pela fuligem, a moradora cita também o problema de saúde do filho, que piora com a poluição do local. “Meu filho é asmático, ele desenvolveu a doença com mais ou menos um ano e meio e, desde lá, a gente trata. Mas quando está muito carregado o ar de poluição, fica pior. Não tem jeito, para respiração é terrível”. 

Outra residente também reclama dos problemas respiratórios que a vivência no local pode trazer. “Eu mesma sou uma pessoa que tenho rinite e sinusite crônica e, quando não estou na região, os sintomas melhoram”, conta a moradora do Jardim Silvia Maria, Ariana Sabino, 37 anos. 

Ambas as moradoras perceberam uma piora da situação ao longo dos anos. Ariana Sabino, que viveu a maior parte de sua vida no local conta que o problema da poluição sempre existiu, mas que, nos últimos cinco anos, em decorrência da troca de proprietários das empresas, vem piorando. Glaucia Gandolfi diz que mesmo percebendo essa piora nos últimos anos, acredita que no período da pandemia a emissão de poluentes aumentou mais ainda. “Agravou com a pandemia. Sempre teve a Petroquímica, às vezes, soltam um pouco mais de poluente, porém, depois que começou essa época, ficou bem pior, deu para perceber aumento de fuligem negra”. 

Segundo o otorrinolaringologista Mauricio Terci as indústrias a base do petróleo utilizam muitos tipos de substâncias químicas prejudiciais ao organismo. Os mais utilizados são o benzeno, tolueno e etileno. “Sendo muito utilizados, o risco ocupacional é grande e também durante seu descarte e emissões para a atmosfera podem causar prejuízos ao meio ambiente. O descarte incorreto desses agentes químicos pode atingir o solo e até águas profundas, além da liberação de gases. Pode levar a muitos malefícios à saúde das pessoas em contato com as substâncias, seja pela respiração, pela pele ou até pelo sistema digestivo”. 

Terci afirma também que no organismo humano as alterações mais frequentes são lesões no sistema nervoso, doenças no fígado e nos rins. “As alterações e agravamentos de problemas respiratórios também são observados. Ocorre ainda aumento da incidência de doenças de pele, no sangue, incluindo câncer. É observado ainda que trabalhadores expostos a solventes e ruído industrial têm maior potencial de apresentar perda auditiva”. 

O assunto chamou a atenção do jornalismo da TV Globo, que tomou contato com a questão dos moradores pelas redes sociais e se mobilizou pela causa, tornando pública a situação da região, dando mais visibilidade ao problema da poluição. “Saiu uma matéria no Bom Dia SP. Eles ligaram para a Cetesb e tiveram a resposta de que não havia irregularidades. Entretanto, um dia depois da reportagem o mesmo jornal procurou novamente a Cetesb e eles falaram que foi encontrado irregularidades em duas empresas. Pela primeira vez eu estou escutando que essas empresas sofreram punição financeira”, conta Ariana Sabino. 

A Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), responsável pela fiscalização das atividades geradoras de poluição, relatou que já tomou providências, autuando a empresa Braskem S/A por emissão de substâncias odoríferas químicas na atmosfera que atingiram vários bairros de municípios da região. A infração, considerada gravíssima, resultou em duas multas no valor de R$290.900,00 cada. 

Em um novo esforço conjunto de fiscalização a empresa Petróleo Brasileiro S/A – RECAP, também recebeu uma infração gravíssima no mesmo valor (R$290.900,00). 

Questionada sobre as atitudes que serão tomadas após as multas, Gandolfi acredita na possibilidade de uma melhora. “Eu acho que eles (as empresas) têm toda uma estrutura para controlar essa emissão de fuligem. Eles têm muito dinheiro, têm muitos técnicos, muitos engenheiros, podem investir em alguma forma de não liberar tanta fuligem assim no ar”. A moradora relatou que tem momentos que as empresas extrapolam os limites de gases permitidos em lei. “Eles têm como controlar isso”, considerou Gandolfi. 

O Comitê de Fomento Industrial do Polo do Grande ABC, instituição que reúne 16 empresas associadas, incluindo a Braskem, que promove ações positivas e identifica oportunidades por meio de grupos técnicos, afirma ter conhecimento sobre o problema e está empreendendo todos os esforços a seu alcance para identificar a origem dessas emissões atmosféricas. Assim redobrando as verificações dos processos industriais. 

Os moradores começam a ter esperança de mudança depois das atitudes tomadas, e as punições às empresas. De acordo com Ariana Sabino, ninguém quer se mudar, mas desejam um ambiente melhor para se viver. “Nós não temos que sair daqui, mas nós não queremos também que as empresas fechem, pois sabemos a importância para a economia, sabemos que movimentam famílias, pessoas que trabalham. Queremos que trabalhem certo, da maneira correta, seguindo os protocolos e a lei, seguindo tudo, porque é isso que acontece. Então a gente só está pedindo que trabalhem de forma correta, respeitando os cidadãos.”

Autores: Carolina Helena, Marcus Vinicius e Sthefany Gomes.

Fonte: Metodista.