Moradores de rua, os verdadeiros “Retirantes” brasileiros

METODISTA

Moradores de rua, os verdadeiros “Retirantes” brasileiros

A vida nos grandes centros urbanos é cada vez mais difícil, mas em época de crise a situação parece piorar muito. Em Santo André, alguns moradores de rua vivem em um canto da calçada no lado de baixo da Avenida Presidente Castelo Branco.  O grupo é formado principalmente por garotas de programa e travestis que, durante à noite, se dividem ao longo das Avenidas Dom Pedro e Industrial na intenção de conseguir algum dinheiro.

Todos que passam são obrigados a ver a dura realidade de quem precisa viver na rua. A higiene é precária. O local não apresenta saneamento básico nem banheiros públicos. São pessoas que possuem pele amarela e pupila dilatada, já que consomem comidas estragadas e convivem com animais transmissores de doenças. Esses são os sinais físicos dos corpos sobreviventes de um ambiente transformado em depósito de lixo. E as dificuldades só crescem, já que não têm fogo, panelas, e o principal, comida de qualidade.

Falar em segurança, neste ambiente, é realmente assustador. Homens e mulheres convivem em um local aberto, onde qualquer um pode chegar. O ambiente é separado por varais envolvido com lençóis, separando “cômodos” e formando quartinhos. Dentro das “minis cabines”, os moradores possuem o seu próprio colchão, garrafas de bebida alcoólica –dizem que é para aguentar a dificuldade de se viver desse modo–, além de um emaranhado de roupas doadas.

O local possui sete metros para 2 homens e 11 mulheres. O direito à moradia está previsto na Constituição de 1988, mas, na opinião do grupo, esse direito está demorando para chegar. Por enquanto, o único pedido dos moradores é viver em um lugar limpo e não em um lixão. “Pobreza não é sinônimo de sujeira”, enfatiza um morador.

Mesmo enfrentando situações de exclusão, eles têm a consciência exata sobre a sua condição, isso fica notório quando alguém para para ouvi-los.  “Somos os novos ratos de Santo André”, declara um deles. “O direito à vida deveria ser de todos”, complementa. “Não é porque nós somos moradoras de rua que não somos gente”. Quase como um grito, um morador conta: “Dormir ao som de automóveis não me atrapalha, já estamos acostumados. O som das indústrias e dos pedestres é imperceptível”.

A busca inalcançável por melhores condições é grande, mas as roupas rasgadas, os poucos objetos pessoais e o semblante fortemente marcado pelo sol remetem ao quadro “Retirantes”, de Candido Portinari. A obra é famosa, entretanto, os moradores de rua ainda não são percebidos como seres humanos e, assim sendo, se consideram parte de um grupo de pessoas esquecidas, um grupo que ninguém vê.

Texto: Moradores

Fonte: Metodista