Metodologia Campeã: entrevista com Agustín Peraita Serra

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O primeiro Congresso de Gestão do Futebol (Congrefut) ocorreu nas dependências da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), nos dias 3 e 4 de agosto. O evento contou com a participação de grandes nomes ligados ao esporte, à sua gestão e cobertura, que debateram sobre as questões mais atuais e controversas do futebol. Uma palestra que chamou a atenção por sua singularidade foi a da iniciativa de formação e educação de atletas do Barcelona.

Com o nome “Metodologia Campeã”, a palestra foi conduzida pelo representante catalão do clube espanhol no Brasil, Agustín Peraita Serra. Designado Diretor de Projeto local do Barcelona Soccer School, ele é responsável pela escola em São Paulo e tem a função de assegurar o ensinamento da filosofia de jogo do clube para seus alunos brasileiros. Essa mentalidade de jogo mundialmente conhecida do “Barça” é característica do time desde a chegada, em 1988, do ex-jogador Johan Cruyff, responsável pela implantação vertical da nova cultura tática e metodológica, bastante citada na apresentação.

Agustín Peraita Serra (Imagem: @MrPeraita)

A preocupação e a atenção dada às categorias de base pelo Barcelona demonstram o grau de importância que o clube dá para as futuras gerações de futebolistas. E não só para os que vestirão a camisa blaugrana, vide as inúmeras escolas de futebol que possuem a função de formar o maior número possível de jovens, com a mentalidade e filosofia de jogo dos catalães, para os próprios clubes dos países nos quais se encontram. A de São Paulo, por exemplo, foi fundada em 2014 e, desde então, vem fornecendo vários jovens atletas para as equipes paulistas. No primeiro semestre deste ano, por exemplo, mais de dez alunos já foram “transferidos”, sem nenhum custo, para clubes do estado.

Agustín utilizou-se de um gráfico em sua apresentação que demonstrava o Barcelona como o clube que mais forneceu jogadores para as cinco grandes ligas europeias. Ao dar essa informação, fez questão de minimizar as críticas de que, após a geração brilhante de jogadores da base que compunham a base (trocadilho intencional) do Barcelona de 2008 (com destaque para Xavi, Iniesta, Messi e Busquets), “La Masia” tinha deixado de revelar grandes jogadores.

Em 2010, o Barcelona conseguiu o feito inédito de ter os três jogadores como os melhores do Mundo. O argentino foi eleito o vencedor, seguido, respectivamente, por Iniesta e Xavi, numa das votações mais equilibradas do prêmio (Imagem: Reprodução/Sportskeeda)

O time do Barcelona durante os “The Best Years”, como ficou conhecido o comando de Guardiola, foi o grande exemplo de que, após 20 anos da implementação da filosofia e cultura tática em todas as categorias por Cruyff, o legado da metodologia do clube catalão realmente era campeão. Os seis títulos conquistados somente na temporada 2008/09 já servem para provar a excelência do trabalho implantado no clube.

Após a palestra, o Arquibancada conversou um pouco com o representante catalão.

Arquibancada: Qual foi a importância que a conquista do prêmio Jogo limpo, na final do Mundial sub-14 de 2016, teve para todos os meninos da base, os das escolas de futebol e das demais equipes?

Agustín: O prêmio Fair-Play foi um fato que reforçou muito a identidade do clube [e] os cinco valores que eu citei [na palestra]: humildade, esforço, ambição, respeito e trabalho em equipe. Este prêmio nos reforça muito internamente, mostra aos treinadores e jogadores de que é para seguir assim, de que é para continuar nesse caminho, com essa filosofia. Não é esse prêmio que vai mudar o mundo, esse comportamento, mas o que se faz é reforçar o nosso processo. O processo não iria mudar se não tivesse esse reconhecimento, mas com certeza agora é mais forte do que antes.

Arquibancada: Quais os objetivos e as projeções da escola de São Paulo para o futuro?

Agustín: Os objetivos para o segundo semestre de 2017 são equilibrar e amadurecer essa dimensão e estrutura interna que temos hoje e que não tínhamos ano passado. Temos atualmente um pouco mais de mil alunos. […] Não é fácil duplicar o tamanho da escola em um ano e meio, como fizemos, mas nós não vamos comprometer a qualidade do processo por isso. Precisamos assegurar essa qualidade, nos treinos internos, para esses 1050 alunos, e também é o momento de que os nossos meninos que estão começando a competir externamente comecem a ter o reconhecimento, não falando de vitórias ou títulos, mas sim que o mercado como um todo comece a entender que é um trabalho diferenciado.

Arquibancada: A escola de São Paulo é considerada a melhor do Barcelona. Há algum tipo de “rivalidade”, saudável, entre as escolas para ganhar mais a atenção lá da sede na Espanha?

Agustín: A referência é sempre a escola em Barcelona, a escola que mais tempo tem e também a de maior nível. É a instituição que tem mais treinadores e jogadores que enviam para a base. Para nós é uma referência, e o torneio Sub-12 que ganhamos em 2017 foi contra eles. Foi a escola de São Paulo contra a escola de Barcelona. O fato de termos jogado contra eles, independente do resultado, foi um indicador de que estamos no mesmo nível. E não podemos esperar muito mais, estar no nível dos melhores é o suficiente.

Arquibancada: Como funcionam bolsas para jovens na escola de São Paulo?

Agustín: Não temos uma política de bolsas abertas. As bolsas são ajudas que fazemos a algumas famílias que precisam, que estão muito necessitadas. Por exemplo: eu matriculei meu filho e, durante 6 meses, pagamos a mensalidade corretamente, mas perdi meu emprego e preciso de uma ajuda. Esse é mais ou menos o programa de bolsas, que são, mais ou menos, de 25%, 50% para aliviar e ajudar esses alunos. Bolsas para jogadores que não tem condição são casos muito excepcionais, que são recomendados por algum de nossos treinadores, que conhecemos a família de perto… são mais esses que temos um compromisso econômico com eles.

ArquibancadaPor que não abrir mais casos para futuros talentos?

Agustín: A vida é feita de escolhas e, para ter um projeto auto-sustentável, precisamos de que cada um dos alunos, pela formação que estão recebendo, pague uma mensalidade. O que acontece: se a gente abre essa exceção de que alguns alunos não paguem, estamos sendo injustos com o resto, e esse não é um dos valores do clube. Parte dos princípios de justiça é não fazer diferença entre um aluno e outro. A gente ajuda as famílias que às vezes estão precisando por alguma circunstância, e deixamos para outras instituições e clubes brasileiros para se ocuparem ou darem saída para essa  demanda. Têm muitas instituições brasileiras que esse jogador vai poder ingressar sem problema nenhum.

Arquibancada: Vocês formam muitos jogadores para as bases de equipes brasileiras. Vocês ficam com alguma porcentagem futura ou algum acordo de exclusividade para com esses jovens atletas?

Agustín: Não. A maioria dos nossos jogadores que saem são Sub-12, Sub-13, Sub-14, e não tem direito de formação nessa faixa etária quando não estão disputando algum campeonato da Federação Paulista de Futebol. Então, pelo momento, fazemos por amor ao futebol, não temos um interesse econômico. Não tem nada de exclusividade. O que temos com esse jogador é um vínculo emotivo e formativo. Ele sabe que grande parte das coisas que ele consegue fazer com a bola foram ensinadas na escola do Barcelona. Isso alimenta a escola, a torcida e o clube no futuro.

Arquibancada: Como é dia a dia na escola de São Paulo?

Agustín: Os treinadores chegam primeiro que os alunos e, uma hora antes de começar os treinos da manhã, passamos o conteúdo, debatemos e nos asseguramos da aula ser passada corretamente. Eles vão à campo, fazem as aulas,  e eu supervisiono tudo e corrijo quando precisa. À tarde, [ocorre] a mesma coisa.

Arquibancada: Pessoalmente, qual time te encantou mais: O Dream Team de Cruyff ou o de Guardiola?

Agustín: Eu sou suspeito para falar por ter escrito um livro sobre o Barça de Guardiola, no qual vou explicando o processo todo e os conceitos táticos que ele introduziu nesses anos (2008/2012). Então, para mim, o Barcelona de Guardiola foi o mais importante pessoalmente. Também porque eu comecei a olhar o futebol através dele de um outro jeito, como falei [na palestra], de ser sobre construir vantagem e não de aproveitar erros.

A escola de São Paulo foi campeã na categoria sub-12 no Torneio Internacional da FCBEscola (Imagem: FCBEscola)

A Barcelona Soccer School de São Paulo fica na Av. Marquês de São Vicente, 2.477, na Barra Funda, e seu foco é a formação de jovens de 6 a 15 anos.

Texto: André Martins

Fonte: Jornalismo Júnior/ USP