Mesmo sob tensão, mulheres encontram na Ocupação Mirabal chance para seguir em frente

Direito de ser criança: filhas de mulheres acolhidas pela Mirabal brincam no pátio da casa ocupada

Ocupação corre risco de reintegração de posse, e mulheres abrigadas podem ter de voltar a viver com seus agressores ou na rua

No alto da rua Duque de Caxias, no Centro Histórico de Porto Alegre, em uma casa azul de três andares de estilo eclético vivem cerca de 30 pessoas. Entre elas, mulheres vítimas de violência doméstica ou em situação de vulnerabilidade social e seus filhos, crianças desde alguns meses de idade até jovens e adolescentes. Este lugar, que oferece muito além de um teto para dormir, é a Ocupação Mulheres Mirabal, que desde a noite de 25 de novembro de 2016, quando o prédio foi ocupado pelas militantes do Movimento Olga Benário, transformou-se em um centro de referência para quem até então, não tinha a quem recorrer.

O prédio, que é de propriedade dos Irmãos Salesianos, estava desocupado havia mais de quatro anos e, segundo as militantes não servia mais do que “uma casa para infestação de pombos”. As mulheres do movimento no Rio Grande do Sul ocuparam a casa com o intuito de criar um centro de referência. Esta ação teve como inspiração a Ocupação Tina Martins, que transformou um prédio inabitado em Belo Horizonte, Minas Gerais, em centro de referência para mulheres vítimas de violência, hoje legalizado pelo Estado. Atualmente, Porto Alegre conta com apenas um abrigo, com 14 vagas, destinado a vítimas de violência doméstica.

De acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, 85,85% dos casos de mulheres em situação de violência correspondem à violência doméstica e familiar. A questão da moradia acaba surgindo como uma consequência desta violência. Já que na maior parte dos casos o agressor está na própria casa da vítima, é fundamental que elas tenham fácil acesso a um abrigo, onde possam encontrar apoio pelo tempo que for necessário.

Pátio da casa ocupada pelo Movimento Olga Benário, onde vivem atualmente cerca de 30 pessoas

Pátio da casa ocupada pelo Movimento Olga Benário, onde vivem atualmente cerca de 30 pessoas

Muitas das mulheres que chegam à Ocupação precisam de acompanhamento psicológico e apoio de advogados. Mas às vezes o que elas mais precisam é de um banho quente, de comida, ou de uma noite tranquila de sono. “Nós nunca sabemos em quais condições as mulheres vão chegar até nós”, esclarece Natália Salau Jobim, advogada e integrante da comissão de acolhimento da Ocupação. Segundo a advogada, esse olhar humano costuma faltar em muitos locais de atendimento, que, na maioria das vezes, geram até mesmo constrangimento, desencorajando as mulheres a procurar por ajuda novamente. Além de um abrigo, a ocupação oferece desde orientação jurídica, aconselhamento psicológico e social até cozinha onde elas podem produzir alimentos para vender e gerar renda própria. Além da cozinha, foi instalado um brechó com roupas que doadas pela comunidade diariamente, e a renda é revertida para a manutenção da casa e alimentação das mulheres e crianças assistidas.

Ao completar seis meses de existência, a ocupação está sob ameaça de reintegração de posse. Um momento que seria de celebração, agora traz grande tensão diante à incerteza quanto ao futuro do trabalho que vem sido exercido na casa. A decisão judicial favorável à reintegração de posse foi tomada no dia 16 de março e o prazo para a desocupação voluntária venceu no dia 20 de maio.

Para Camila Borges, estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e uma das responsáveis pela ocupação, o trabalho desenvolvido pela casa não será impedido de continuar. “Se houver mesmo a reintegração de posse aqui, encontraremos outro local. O problema é que, até lá, muitas mulheres que nos procurariam ou que hoje dependem de nós vão perder muito”. A casa recebe mulheres encaminhadas até mesmo pela Delegacia da Mulher e pela Brigada Militar, além das que procuram assistência voluntariamente. “Prestamos aqui um serviço que deveria ser prestado pelo governo. Vivemos de doações, e no fundo, quem ajuda o governo somos nós”, completa Camila.

De acordo com a militante, muitas mulheres que hoje estão em situação de vulnerabilidade, vivendo nas ruas ou casas de parentes e amigos, estão fugindo de seus agressores. “Elas acabam indo para a rua pois não têm mais ninguém a quem recorrer. Para quem nos procurou pedindo ajuda, se não estivéssemos aqui poderia ter acontecido o pior, muitas poderiam estar mortas”, afirma Camila.

Claudia Moraes foi acolhida na casa há quatro meses e hoje é militante do Movimento Olga Benário

Claudia Moraes foi acolhida na casa há quatro meses e hoje é militante do Movimento Olga Benário

Primeiro, desespero; depois, propósito para a vida
Cláudia Moraes chegou à Mirabal há pouco mais de três meses, por volta do dia 20 de janeiro, fugindo da violência no bairro onde vivia, Rubem Berta, um dos mais violentos da capital gaúcha. “Às vezes a gente sofre vários tipos de agressão, principalmente agressão moral, e a gente não se dá conta disso né?”, observa a diarista de 43 anos. Ela se diz uma mulher de sorte por nunca ter sofrido agressão física por parte dos antigos companheiros, mas reconhece que a banalização da violência contra a mulher faz parte do cotidiano nas comunidades mais pobres.

Cláudia viu sua vida ser transformada a partir do momento em que se tornou moradora da Ocupação Mirabal. Muito mais do que uma casa para viver longe do tráfico de drogas e dos tiroteios diários no antigo bairro, ela descobriu ali o verdadeiro propósito de sua vida. “Aqui a gente aprende a viver com outra cultura, não que o pessoal de comunidade não tenha cultura, mas aqui é uma outra realidade. Tem tolerância e respeito, só vivendo isso aqui mesmo pra saber”, completa a diarista, que hoje faz parte do movimento como militante, e é uma das responsáveis pelo acolhimento na Mirabal.

Quanto ao futuro, Cláudia diz que não se vê fazendo outra coisa, a não ser ajudar mulheres que sofrem com a violência. Mãe de quatro filhos, viver hoje longe do Rubem Berta traz uma tranquilidade que ela diz nunca ter sentido na vida. O filho mais velho, Bruno, de 22 anos, é gay, e segundo a militante já sofreu muita violência verbal na antiga comunidade. “Faltava tolerância, compaixão mesmo. Hoje aqui ele encontrou apoio na parte do movimento que defende a comunidade LGBT que também passa por situações de violência ou que vive na rua”.

Segundo a diarista, a tensão é grande na espera pela intervenção da Brigada Militar para a reintegração de posse do prédio. “Mesmo que tirem a gente daqui, a gente não vai desistir desse projeto”, reforça Cláudia. Até o fechamento desta reportagem, a ocupação Mirabal ainda operava na Rua Duque de Caxias, 380, no Centro Histórico de Porto Alegre.

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Confira também a galeria de fotos:

Para onde vão as mulheres vítimas de violência em Porto Alegre?

Texto: Lauriane de Castro Belmonte e Teresa Miranda
Foto: Roberta Requia
Fonte: Famecos/PUC-RS