A máfia para além dos Corleones: a história que inspirou O Poderoso Chefão e os estereótipos da comunidade italiana

Reunião do elenco de O Poderoso Chefão em Nova York. Da esquerda pra direita: Diane Keaton, Robert de Niro, Robert Duvall, Francis Ford Coppola, James Caan, Al Pacino e Talia Shire.

O primeiro filme da trilogia O Poderoso Chefão (The Godfather, 1973) completou, no dia 7 de julho deste ano, 45 anos de lançamento no Brasil. A data contou com uma reunião comemorativa do elenco em Nova York em abril, simbolizando a estreia nos Estados Unidos. Cerca de 6 mil pessoas – entre elas, o diretor Francis Ford Coppola, e os protagonistas Al Pacino e Robert de Niro -, se reuniram na noite de encerramento do Festival de Cinema de Tribeca para assistir aos dois primeiros filmes da saga. O vídeo integral da reunião pode ser conferido aqui.

ndicado ao Oscar onze vezes, o longa é baseado na obra homônima de Mario Puzo, escritor nova iorquino que dedicou grande parte de sua carreira a tratar da imigração italiana para os Estados Unidos, especialmente da história da máfia. Em O Poderoso Chefão, essa é contada através da trajetória de Vito Corleone (Marlon Brando), siciliano que constrói seu império na América concedendo favores em troca de dinheiro e lealdade. A família Corleone, como todas as grandes famílias mafiosas, é sustentada em rígidos princípios hierárquicos e confere valorização inestimável ao fundamento da família, tanto à estruturação quanto à seus membros.

O filme é considerado ainda hoje um dos maiores clássicos da história do cinema. Seja pela direção espetacular de Coppola, pelas atuações impecáveis do elenco, pela trilha sonora inesquecível ou pela ambientação envolvente, há inúmeros aspectos que fazem o longa se sobressair à outros de mesma temática. Fonte de frases inconfundíveis, que são repetidas sem erros pelos fãs mais assíduos, o filme é marcado pela transformação do personagem de Michael Corleone (Al Pacino).

“Deixe a arma. Pegue o cannoli”. A cabeça de cavalo na cama. “Eu vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar”. Diane Keaton na cena do aborto. “Um homem que não dá atenção à família nunca será um homem de verdade”. O longa marcou através de cenas memoráveis, sendo para alguns o primeiro contato com a concepção de máfia italiana e eternizando muitos dos conceitos associados à ela. Além disso, o filme também foi crucial na carreira individual dos atores, sendo que a maioria passou a compor os grandes nomes do cinema após a sequência. Para muitos, o melhor papel de suas carreiras foi neste longa. No infográfico abaixo, estão alguns desses atores e sua trajetória depois de O Poderoso Chefão.

A produção também influencia sua gama de espectadores, colocando-os à prova de sensações que muitos ainda não conheciam. Todo o conjunto funciona de forma a nos manter imersos na narrativa, seja pela ambientação, atuações ou enredo. Em certo ponto, podemos até nos questionar quanto à veracidade dos fatos. Muito pouco se fala sobre as possíveis inspirações do longa, e a maioria tem caráter especulativo. A assimilação principal é com a verdadeira trajetória da máfia italiana estabelecida nos Estados Unidos, a La Cosa Nostra. Alguns mafiosos possuem visível influência nos personagens, o que torna a produção ainda mais especial. Abaixo, estão listados alguns dos possíveis agentes que viabilizaram a construção de tão rica narrativa.

 

Vito Corleone: Joe Bonanno

À esquerda, Vito Corleone (Marlon Brando) e à direita, Joe Bonanno.

Vito é um dos personagens mais marcantes do cinema. Centro da família Corleone, construiu a partir do zero toda sua reputação. As “bochechas de bulldog” e a voz áspera de Marlon Brando o tornaram inconfundível. Uma das possíveis inspirações para esse personagem é Joe Bonanno, nascido na Sicília em 1905. Emigrou para os Estados Unidos ainda criança e lá se tornou um dos maiores mafiosos ítalos-americanos. Assim como Vito, tentou manter a ordem e a paz entre as famílias enquanto vivia. Foi conhecido por sua polidez, pelo carisma, por ser um homem honrado, temido e respeitado por todos. Sobre Bonanno, Lauren Carter, autora do livro Os Mafiosos Mais Perversos da História, diz:

Contrabandista de bebidas alcoólicas, assassino profissional, agiota, extorsionário e Don da Máfia, sempre se considerou, antes de tudo, um homem de honra, um homem para quem a tradição era absolutamente importante, para quem o bom nome e a boa reputação vinham antes de qualquer coisa. Considerado por muitos como o modelo para o Don Corleone de Mario Puzo, do best-seller O Poderoso Chefão, Joseph Bonanno incorpora tudo o que é inesquecível sobre o saber da Máfia, e talvez mais do que qualquer outro gângster na história resume bem o que era pertencer a La Cosa Nostra.

Johnny Fontane: Frank Sinatra

À esquerda, Johnny Fontane (Al Martino) e à direita, Frank Sinatra.

Sinatra, filho de imigrantes italianos, foi um cantor e ator norte-americano. Um dos maiores influenciadores do século XX, ganhou um Oscar de melhor ator coadjuvante por A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity, 1953) e embalou gerações com os hits My Way e New York, New York. A carreira de Sinatra, entretanto, foi muito impulsionada pela ajuda dos grandes mafiosos norte-americanos. Como Fontane, quando saía da cena musical ou desandava um pouco na carreira, Sinatra contava com os mafiosos para ameaçar e agredir quem quer que estivesse em seu caminho.

Alguns até relatam que Sinatra e Mario Puzo, autor do livro, tiveram diversos desentendimentos. O cantor ignorou e ameaçou Puzo diversas vezes, mesmo este nunca confirmando a inspiração.

 

Michael Corleone: Carlo Gambino

Michael Corleone (Al Pacino) à esquerda e Carlo Gambino à direita.

Gambino foi um dos maiores e mais respeitados mafiosos dos Estados Unidos no final dos anos 50. De comportamento discreto e reservado, foi assassino profissional na Itália e teve sua ascensão na América da mesma forma: através da política deal or die (em tradução, negocie ou morra). Michael, no filme, faz de tudo para manter seu poder, lidando de forma agressiva e sangrenta contra aqueles que se impunham contra ele. Gambino segue o mesmo raciocínio, pois para ambos ter poder é indispensável, e os dois faziam de tudo para mantê-lo íntegro.

 

Como fica a comunidade italiana com esses retratos da máfia?

O filme transforma casos reais em ficção, preservando alguns aspectos da máfia para tornar mais verdadeiro o que se passa em tela. Por tratar da família, da tradição e, como muito nos parece, da cultura italiana, o longa contribui para a assimilação da figura do mafioso à dos ítalo-americanos e, então, criar um perfil que não reflete a realidade deles. Além disso, o estereótipo do mafioso de terno branco, chapéu inclinado na cabeça e um charuto na boca aparece em muitos filmes depois desse, e se torna nossa única referência à esse tipo de caracterização.

Como pontuado pelo professor de Literatura Italiana e Comparada da Universidade da Califórnia em São Diego (UCSD) Pasquale Verdicchio (também imigrante italiano nos Estados Unidos), o segundo filme da trilogia O Poderoso Chefão, ao tratar simultaneamente da ascensão de Michael na máfia e do jovem Vito (Robert De Niro) construindo sua reputação na América, acaba por fazer um panorama geral da imigração italiana aos Estados Unidos, e deixa subentendido que aquela situação estende-se à todos os imigrantes. Neste retrato, o filme influenciou pessoalmente a vida dos ítalo-americanos, mas “não prejudicou a imagem que já estava formada”, pois “existia uma imagem negativa dos italianos associados à máfia muito antes do filme”. Pasquale ainda comenta que muitos desses italianos se sentem desiludidos por “encontrarem tradições morais e culturais que diferem fortemente da sua própria”. Ao não transcrever de forma correta a cultura italiana, esse tipo de produção torna nossa visão deturpada através de conceitos generalizados, e não permite que a população italiana encontre identificação em solos americanos.

Da esquerda pra direita: Francis Ford Coppola, Marlon Brando e Al Pacino

De qualquer maneira, o filme está entre uma das produções mais excelentes e significativas da história cinematográfica. Teve por produtos a perpetuação de características da máfia que se mantêm até os dias de hoje e a projeção de novos talentos da indústria do cinema, que reverberam seus talentos individuais em projetos subsequentes. Alterando a forma pela qual a comunidade italiana é vista nos Estados Unidos, a narrativa usa da história real dela para construir sua argumentação, e seu teor verídico impacta os espectadores com êxito absoluto. O Poderoso Chefão é um clássico, uma das produções mais bem sucedidas e impecáveis do cinema mesmo 45 anos após seu lançamento, e não é exagero dizer que continuará sendo em todas as décadas que ainda irão se suceder.

Por Giovanna Jarandilha (Jornalismo Júnior/USP)