Intercâmbios estudantis são impactados pela pandemia de Covid-19

Entenda como agências e estudantes se reorganizaram neste período, como países estrangeiros estão lidando com a situação e o futuro do mercado de intercâmbios.

A felicidade de fazer intercâmbio para os estudantes que passam meses planejando a viagem é imensurável. Para Rafaela Calliari (18), estudante de ensino médio, e muitos outros que moraram em diferentes países no início deste ano, no entanto, a pandemia foi um grande obstáculo. Rafaela, que teve como seu destino a Itália, retornou com urgência no início de março para fugir de onde, algumas semanas depois, se tornaria o país epicentro da doença. A história da estudante reflete a realidade de muitos outros intercambistas que foram obrigados a cancelar seus planos de viagens e, por consequência, congelar o movimento de um grande mercado para a economia brasileira. 

Antes do surto de Coronavírus, o setor de viagens estudantis tinha procura crescente. O número de intercâmbios realizados no país triplicou na última década, movimentando cerca de U$1,2 bilhão conforme uma pesquisa realizada em abril de 2019 pela Associação Brasileira de Agências de Intercâmbio (Belta). A queda nas vendas deste setor vêm ocorrendo desde março e já alcança uma redução de 46% de vendas realizadas pelas agências. O cenário pandêmico fez com que essas empresas se readaptassem a uma realidade nunca antes vivida e de grande impacto financeiro. 

Relatos como o de Rafaela foram comuns neste ano. Ela, assim como a maioria dos estudantes, precisou mudar seus planos de viagem imediatamente com o contágio do vírus em escala global. Diversos países fecharam suas fronteiras com o objetivo de conter o avanço da pandemia. Por decorrer deste processo, grande parte dos estudantes que estavam no exterior precisaram voltar ao seu país de origem, sendo repatriados enquanto a realização de viagens internacionais estava proibida. Além disso, foi observado que muitos dos estudantes em viagem escolheram permanecer no local que já estavam estudando e até mesmo alguns precisaram pedir auxílio financeiro ao governo para que pudessem se manter no exterior. 

Entre os estudantes que precisaram adiar seus intercâmbios, Júlia Zander Monteiro (19) iria estudar francês no Centro Universitário CUEF em Grenoble, sudeste da França. A estudante relata que sua ida precisou ser adiada e ainda não foi marcada nova data de embarque: “ainda sigo ansiosa para fazer a viagem no futuro, mas realmente a incerteza desse cenário deixa qualquer um inseguro”. Atualmente a Europa está passando por uma segunda onda de contágio do coronavírus e os governos estão aumentando as restrições. A França, por exemplo, esteve com toque de recolher durante novembro, na esperança de ter um número mais baixo de casos até o Natal. Analisando os destinos mais requisitados por intercambistas, o continente Europeu é o segundo mais desejado. Em uma pesquisa realizada pela Belta com 500 estudantes e 402 agências, o Reino Unido foi considerado um dos mais competentes nos protocolos de controle da pandemia e disposição de recursos tecnológicos, ajustados às exigências de alunos em formato híbrido de ensino.

Em relação à Oceania, desde o início da pandemia os números foram mais amenos do que nas Américas e Europa.  A Nova Zelândia, por sua vez, foi um exemplo de combate ao vírus, tendo seu governo muito elogiado pela maneira com que lidou com a pandemia e apresentando baixos números de infectados e mortos, assim como seu país vizinho, a Austrália, que também lidou bem com a situação e restringiu voos logo no primeiro momento de explosão de casos pelo mundo.  

A estudante paulista Isabela Caroline (25) foi uma das atingidas pelas restrições na Austrália. A jovem estava com data de embarque marcada para 25 de março. Ela conta que já havia se desligado da empresa em que trabalhava uma semana antes da data de embarque, e dias depois descobriu que não poderia viajar pois seu destino fechou as portas para embarques vindos do Brasil. Sobre sua experiência, conta: “não tive que pagar nenhuma taxa adicional devido ao atraso da viagem nessas circunstâncias atuais. Hoje estou esperando para que o país volte a receber intercambistas.” O continente em si também é um dos grandes interesses dos estudantes, que, segundo a mesma pesquisa da Belta, consideram Austrália e Nova Zelândia os países mais seguros em termos sanitários e com infraestrutura acadêmica adequada para a recepção de estudantes estrangeiros.  

Já se tratando da América do Norte, o principal destino de intercambistas brasileiros, a retomada deste tipo de viagem ainda é incerta. Os Estados Unidos vêm registrando o maior número de casos diários da doença no mundo, ultrapassando a média de 165 mil novos infectados por dia na última semana. Isso reflete na insegurança de agências e estudantes. Conforme pesquisa já citada sobre a confiança do mercado em países no cenário pós-covid, os EUA têm o menor índice de competência para lidar com a pandemia. Enquanto isso, no Canadá, destino de maior interesse dos estudantes para intercâmbios futuros, o índice é maior, com até 92% de confiabilidade de agências no comprimento de normas sanitárias para a recepção de estrangeiros. 

Ingrid Kaylane (16), natural de São Luiz do Maranhão, viveu a experiência de intercâmbio na cidade de Bridgewater, no Canadá, através do programa IEMA no Mundo, ofertado pelo Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA). Após chegar ao local no início de fevereiro, a estimativa era de que Ingrid estudasse o primeiro semestre do 2º ano do Ensino Médio no país. Entretanto, a jovem acabou tendo apenas um pouco mais de um mês de aula presencial, passando o restante do período no modelo EAD. Segundo Ingrid, este não foi o plano de viagens idealizado por ela, mas afirmou que sua agência de intercâmbio, Via Mundo, lhe manteve assistida por todo o seu período no exterior. Além do mais, a estudante fala que a experiência do isolamento social com uma nova família, em um outro país com cultura e valores diferentes foi um desafio e tanto, mas que isso lhe trouxe uma nova perspectiva de vida. Quando me perguntam sobre o meu intercâmbio, eu falo que, apesar das circunstâncias, minha experiência não foi nula. O intercâmbio me ajudou a me conhecer melhor, e eu garanto que a Ingrid de hoje não é a mesma Ingrid de antes da viagem”, relatou a estudante. 

A visão das agências

Para agências de intercâmbio a mudança devido à pandemia também foi grande. A maioria das empresas enfrentou severa crise por conta do congelamento total de viagens. Na pesquisa da Belta, 98% das agências afirmam ter tido impacto negativo nas vendas, e mesmo com apenas 3% dos estudantes entrevistados terem desistido definitivamente do intercâmbio, o setor ainda sofreu muito pela falta de movimentação. 

A diretora de vendas da agência STB Intercâmbios, de Porto Alegre, Caren Hahn Richter, estima que entre o período de 01/01/2020 a 20/11/2020 a agência enfrentou uma queda de 70% no número de vendas, quando comparado ao mesmo período de 2019. Ela afirma que alguns estudantes voltaram para o Brasil, pois as escolas fecharam. Outras se adaptaram ao modelo online e permaneceram no exterior. Aos intercambistas que optaram por retornar ao Brasil, a STB ofereceu um programa de créditos. Os meses, serviços e escolas que foram contratadas e não tiveram 100% de aproveitamento por parte dos estudantes poderão ser usados posteriormente, seja pelo próprio estudante ou outro. Além disso, uma das alternativas buscadas pela agência para combater a crise no setor foi a venda de cursos de inglês no modelo online, com escolas nativas da língua estudada. Entretanto, Caren afirma que este pacote não tem feito muito sucesso, e que a maioria dos estudantes estão optando por aguardar o momento ideal para vivenciarem essa experiência pessoalmente. A expectativa da agência é de que as viagens possam ser retomadas de forma efetiva no segundo semestre de 2021, visto que ainda há consulados que permanecem fechados. Por fim, a diretora afirma que a pandemia afetou também a logística da empresa, que reduziu em 50% o quadro de funcionários, além de aderir ao modelo home office para os demais colaboradores.

Os primeiros meses de pandemia foram os de maior impacto para as agências em razão da falta de experiência do que fazer neste cenário incomum e com um futuro incerto para a realização de viagens. A Belta, que congrega as principais agências de intercâmbio no Brasil, foi a responsável por lidar com a repatriação de estudantes no exterior e oferecer orientação jurídica e técnica para as agências entenderem como agir nesse momento único da história. Mesmo com a grande perda financeira para as empresas, grande parte dos estudantes apenas adiou os seus cursos para o próximo ano, na maioria das vezes sem qualquer aumento de valor do pacote da viagem. 

O futuro do mercado

Mesmo com algumas viagens já sendo agendadas para o futuro, o mercado ainda sofre com a baixa demanda. Para Mariglan Gabarra, diretora executiva da Belta, o cenário para a recuperação de toda a perda gerada no ano de 2020 levará tempo. “Acreditamos que o mercado só volte a ser como era antes em 2022, com um processo lento e gradativo de recuperação começando no segundo semestre do próximo ano”Segundo levantamento realizado em setembro pela associação, grande parte dos estudantes ainda possui confiança no mercado de intercâmbios e na realização da viagem num futuro próximo. 90% dos estudantes entrevistados para a pesquisa aguardam a liberação de entrada no país de destino para investir em intercâmbios estudantis pós-covid-19.

A liberação para entrada de brasileiros em países estrangeiros está em constante mudança. A Associação Belta hoje é responsável por atualizar semanalmente a situação sobre o recebimento de brasileiros para intercâmbio nos destinos mais procurados pelos estudantes. Na maioria dos países a entrada ainda é restrita e permitida apenas com a testagem negativa comprovada de covid-19 ou com um período obrigatório de quarentena. Hoje as agências apostam em grande divulgação para intercâmbios futuros e até valores mais baixos para atrair estudantes, buscando uma recuperação no máximo até 2022, conforme previsto pela Belta. Até o surgimento de uma vacina, estudantes e agências permanecem alertas para as mudanças e demandas constantes do mercado de viagens.

Autor: Bruna Tkatch , Felipe Loreto e Luísa Roman.

Foto: Reprodução/Pexels.

Fonte: PUC-RS.