Inteligência artificial: dentre códigos de programação, consciência?

USP

I’m Sorry, Dave

Suponha que um dia você atenda o telefone. Do outro lado da linha, desejam marcar um corte de cabelo feminino para quinta-feira ao meio-dia. Não há disponibilidade para esse horário. Você diz que o mais próximo seria às 13h30. A cliente não pode, então hesita como se pensasse em uma solução… teria algo entre as 10 e 12 horas? Você consegue agendar para 10 horas da manhã. Desliga o telefone. Não passa pela sua cabeça se aquela voz era humana ou não. De qualquer forma, não era. Você estava conversando com uma inteligência artificial. Uma máquina. Parece ficção científica, mas já é realidade. Google Assistente, um aplicativo inserido nos smartphones Android, pode marcar os compromissos por chamada de voz sem causar estranhamento algum.

Agora, imagine que esse contato tido por voz aconteça ao vivo e em cores. Corpo biológico a corpo robótico. Você anda pela rua, e alguém apressado esbarra em você. Ele pede desculpas. Após xingá-lo mentalmente, diz que tudo bem. E se esse alguém fosse, na verdade um robô? De acordo com Osvaldo Pessoa, especialista em Filosofia da Mente com ênfase em Inteligência Artificial, “provavelmente em dentro de 100 anos, teremos robôs que vão passar perto de nós, conversar com a gente, e não vamos perceber que eles são máquinas”. Mas essa habilidade de manter um diálogo e enganar o ser humano seria a prova de que essa inteligência artificial é consciente?

Teste de Turing, jogo da imitação

Os dois exemplos são bem sucedidos quanto ao famoso teste de Turing, que nada mais é do que a medição da capacidade de uma máquina enganar um ser humano ao se passar por um também. Portanto, caso a inteligência artificial não consiga se disfarçar como um ser humano, ela falha no experimento.

Esse conceito do teste de Turing é importante por inaugurar o debate do que é a inteligência artificial. Em Computing Machinery and Intelligence, artigo de 1950, o matemático Alan Turing se inspira em um jogo, existente na Inglaterra na época Vitoriana, que consistia em adivinhar se era um homem ou uma mulher que estava escondido em uma sala. Turing pensou: e se em vez de um homem e uma mulher interagirem com o juiz, substituíssemos uma dessas pessoas por uma máquina? O juiz faria perguntas, teria as respostas a partir de um teclado (para evitar identificação através da caligrafia) e, depois de um tempo, teria que dizer qual dos dois era a máquina e qual era o ser humano.

“Essa foi uma proposta do Turing pra fugir da questão ontológica da inteligência artificial, da questão da existência da inteligência: existe mesmo inteligência na inteligência artificial?”, diz Orlando Pimentel, autor de O Menosprezado Debate do Artificial em IA. Visto que “o jogo não é pra saber se a máquina é inteligente ou não, é pra saber se a máquina imita o comportamento inteligente do humano”. É, em termos hollywoodianos, o jogo da imitação por isso. Trata-se de uma imitação do comportamento humano.

O filme Ex-machina retrata um Teste de Turing que busca verificar a inteligência da robô Ava no contato de um ser humano. (Divulgação)

Debate em um Quarto Chinês: máquinas são inteligentes?

Para rebater a discussão se máquinas são inteligentes ou não, o filósofo da mente John Searle propõe o experimento do Quarto Chinês. Imagina-se que há um quarto, em que uma pessoa dentro dele não sabe chinês, mas é presenteada com uma lista de respostas. Todas as respostas possíveis para toda pergunta possível está formulada em ideogramas nessa lista. Essa pessoa recebe perguntas com ideogramas em chinês. Procurando na lista, a pessoa encontra uma base na resposta que é igual à da pergunta, então envia a resposta certa. Essa pessoa não sabe o significado dos ideogramas, apenas realizou um trabalho praticamente mecânico de comparação entre símbolos e entregou o resultado.

Quem está do lado de fora do quarto chinês pode até se confundir e imaginar que a pessoa de dentro sabe chinês, mas essa não é a verdade. Na análise de Pimentel, “foi uma tentativa de enfrentar o debate que John Searle chama de Strong IA: inteligência artificial forte, há inteligência numa máquina?” E complementa com a definição de uma Weak IA: “na inteligência artificial fraca, como big data ou algoritmo, as técnicas são aplicadas sem questionamento se a máquina pensa ou não, se ela é consciente ou não.”

Consciência, aquilo que nos diferencia como humanos

Para Pessoa, “um dos grandes problemas da Filosofia da Mente é determinar se a consciência, ou seja, a mente que os animais têm e o ser humano têm, pode ser criada em um sistema artificial com componentes diferentes do ser vivo”. Apesar de ser difícil definir com palavras, ele tenta explicar o que seria essa consciência: “é isso que você está sentindo agora, o seu pensamento, os seus sentimentos, as suas sensações nas cores e nos sons… tudo isso”. Retratando o ponto de vista oposto, do behaviorismo, a definição é objetiva e baseada através do comportamento. Nesse sentido, “a máquina seria consciente por definição, porque age como ser humano”.

Adotando a primeira interpretação, Pessoa acredita que a consciência é responsável por nos fazer humanos. “Mas não há dúvidas, hoje em dia, que um chimpanzé tem consciência. O que diferencia o ser humano de um chimpanzé? Teríamos uma mais sofisticada. O que é essa consciência mais sofisticada? A essência do ser humano, em boa medida, é que a gente é animal. Mas aí tem os, vamos supor, 10% a mais que nos distingue dos outros animais.”

Cérebro de silício, pretensão de inteligência artificial com consciência

Experimento mental, de acordo com Pessoa, é “uma situação que você imagina e não consegue julgar o que vai acontecer, mas pelo menos as dimensões interpretativas ficam mais claras”. Trata-se do caso do cérebro de silício, em que você imagina que as técnicas de neurociência e nanotecnologia evoluíram de certa maneira em que é possível trocar neurônios do cérebro de um homem por neurônios artificiais que irão desempenhar a mesma função dos anteriores. Então você vai lá e vai substituindo uma partezinha do cérebro; vai trocando e trocando… e a ideia do experimento, em geral, é de ver o que aconteceria com esse homem. Ele continuaria vivo? Permaneceria tendo as mesmas sensações? Teria a mesma consciência?

Para Pimentel, “o problema desse experimento mental é o reducionismo de achar que é possível, visto que pra você fazer esse experimento mental é preciso concordar com o determinado pressuposto de que um chip vai de fato exercer todas as funções do neurônio”. Baseando-se no olhar do filósofo John Searle, o corpo inteiro está rodeado de vida, e “ao meu ver, seria muito mais interessante pensar em uma consciência que não está alojada apenas na cabeça, mas que tenha a ver com toda a nossa corporeidade.”

Nas palavras de Pessoa, “um cérebro de silício, assim, falando genericamente, é uma coisa que vai acontecer, no sentido de ser um robô, um computador que vai processar informação. Isso a gente não tem dúvida de que vai acontecer, pois já está acontecendo. Agora a dúvida é se a máquina tem a vida interior que a gente tem. Essa subjetividade, essa consciência.”

Em Her, Samantha é um Sistema Operacional que se relaciona emocionalmente com Theodore, um homem recém-divorciado. (Divulgação)

É preciso ser vivo para ser consciente?

De acordo com funcionalistas, não. O funcionalismo afirma que basta reproduzir todas as relações causais e toda a organização do sistema para ter um ser consciente. Assim, uma máquina pode ser consciente tranquilamente, bastando ser criada de forma muito próxima de nós. “Para os funcionalistas, a materialidade não importa: pode ser célula, pode ser chip, pode ser qualquer substância. O que importa é a natureza das conexões, das relações causais entre as unidades”, explica Pessoa.

Sob o ponto de vista do naturalismo biológico, sim. Esse pensamento diz que a célula biológica apresenta algo de essencial para a consciência, mas essa é uma discussão que não tem solução ou resposta ainda. Ainda de acordo com Pessoa, essa questão é importante primeiro porque os engenheiros estão construindo máquinas que vão passar pelos testes de Turing, e em segundo lugar vão dar mais elementos para debater essa questão de entender se o material biológico é essencial para a consciência ou não. “Não é que vai resolver, mas vai ser muito útil para entender a questão.”

Autora: Caroline Aragaki (carolaragaki@usp.br)

Fonte: Jornalismo Júnior/USP