Integralismo, o maior movimento de extrema-direita no Brasil até Bolsonaro

Pedro Doria narra com excelência a trajetória de Plínio Salgado durante a criação da Ação Integralista Brasileira

A extrema direita brasileira é um movimento que aparenta ter surgido do nada e rápido, mas que na verdade tem uma longa história que ficou em segundo plano por muito tempo. Tempo suficiente para que, quando se manifestasse, pouco pudesse ser feito para impedi-lo. Sendo assim, Pedro Doria se propõe no livro “Fascismo à brasileira”, publicado pela editora Planeta em 2020, a contar como foi o surgimento da Ação Integralista Brasileira, o maior movimento fascista que afetou o país no século XX.

Tendo Plínio Salgado como protagonista, o livro consegue se destacar rapidamente com seu primeiro capítulo, narrando o encontro do político com uma das suas maiores influências, Benito Mussolini Há também a passagem do jogo de xadrez com Getúlio Vargas, que já se tornou uma das minhas partes favoritas da história. Os fatos são tão bem contados no passar das páginas que é possível nos conectarmos com aqueles personagens e perceber os motivos que fizeram aquele brasileiro desenvolver o desejo de ser o “salvador da pátria”, seja por convicção ou por sede de poder.

A apuração é um ponto que deixa claro que o trabalho do jornalista foi muito competente. Com a pesquisa sobre as motivações do grupo, com descrições detalhadas da vida de Plínio, alternando entre demonstrações da escala do projeto fascista e momentos pessoais do sujeito, o leitor consegue entender como o movimento que alcançou um milhão de “camisas verdes”, nome pelo qual eram conhecidos os adeptos do integralismo, conseguiu sobreviver até os dias de hoje, mesmo que em um submundo. Esclarece também a grandiosidade do personagem, apesar do autor sempre transparecer que Salgado não deve ser tomado como um alvo de admiração.

Com pouca descrição em alguns momentos e detalhes espantosos em outros, o livro cria uma expectativa para seu último capítulo intitulado “Plínio e Bolsonaro”. Parecia que o momento de crítica e elucidação sobre o atual governo seria forte e até agressivo em suas palavras. Porém isso não ocorre. Mesmo que escrito em um momento crucial, onde há procura por bases históricas para o desenvolvimento de soluções para o presente, o texto opinativo não se atreve a declarar um repúdio tão afiado.

Não acredito que será um livro essencial para futuros estudiosos do governo Bolsonaro, mas sim uma obra de história do Brasil que destaca os perigos recentes, exemplificados nas semelhanças com o passado. Pedro não faz questão de discutir este ponto diretamente até seu último capítulo. O final é uma mensagem para os atuais leitores, mas a análise não é incisiva o suficiente para ser impactante e atemporal.

É um ótimo livro de história e não pode ser vendido diferente disto. O subtítulo: “Como o integralismo, maior movimento de extrema-direita da história do país, se formou e o que ele ilumina sobre o bolsonarismo” pode até enganar alguns sobre o conteúdo. Porém o que é apresentado foi feito com muita apuração e capacidade narrativa. Sendo assim, nos faz virar as páginas, do início ao fim, com curiosidade.

Autor: Rafael Bento.

Foto: Rafael Bento.

Fonte: PUC-RS.