Indústria é responsável por menos de um quarto dos empregos do ABC

Cansado de trabalhar na roça da cidade paranaense de Cambará, Carlos Genaro desembarcou na rodoviária de São Bernardo em 1978, aos 18 anos, sem passagem de volta. A adaptação não foi fácil. “Fui até ajudante de pedreiro”, contou. Não demorou muito para Genaro conquistar o que dizia ser “o sonho de todos”: um emprego na indústria automotiva. “Naquela época tinham muitas vagas nas montadoras.” De 1979 a 2013, ele passou por três: Chrysler, Volkswagen e Ford, onde se aposentou.

Ainda no começo dos anos 1990 as fábricas eram responsáveis por mais da metade dos empregos formais do ABC, de acordo com a Fundação Seade, a agência de estatísticas do Estado de São Paulo. Porém, entre 1991 e 2015, esse setor perdeu 73,5 mil vagas. Segundo o último levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o Dieese, referente ao ano de 2016, a indústria representa 21,9% dos postos de trabalho da região.

Por outro lado, o número de vagas nos setores de serviço e comércio tem crescido anualmente no ABC. Entre 2005 e 2015, o aumento da mão de obra no comércio e serviço foi de 45 mil e 112 mil vagas, respectivamente. Em 2016, esses setores, juntos, cobriam 75% do mercado de trabalho do ABC, um crescimento 10% maior em cinco anos.

“Esse fenômeno é uma tendência regional e se deve à fuga das indústrias devido aos altos impostos da Grande São Paulo e à forte presença dos sindicatos”, explicou o economista Alexandre Borbely, do Observatório Econômico da Universidade Metodista. Segundo Borbely, uma pequena proporção dos trabalhadores é levada com a empresa, enquanto os que ficam encontram dificuldade para voltar à indústria. “Sem emprego, ele é obrigado a procurar por outras ocupações. Vai trabalhar no comércio, serviço ou abre um pequeno negócio.”

Bruno Segalla, 26, começou sua carreira na indústria aos 22 anos. Ele foi demitido após ter trabalhado por dois anos na área de Tecnologia da Informação da Volkswagen e só conseguiu arrumar emprego no comércio, como auxiliar de estoque. “Minha vontade era continuar na montadora, mas tive que aceitar o que apareceu”, contou.

De acordo com Valter Moura, presidente da Associação Comercial de São Bernardo, os setores alimentício e hoteleiro são alguns dos que mais crescem na cidade. “Muitos dos novos empreendedores são profissionais que perderam o emprego e investiram no próprio negócio com a indenização recebida”.

Aos 27 anos, Renato Zacarias faz parte dessa leva de novos empresários. Depois de ter saído da indústria ele resolveu abrir seu próprio negócio, um bar no bairro Boa Vista, em Santo André. Ex-montador de caminhões, Zacarias trabalhou por nove anos na Mercedes, onde levantou o dinheiro necessário para empreender. “Nunca gostei muito de trabalhar em montadora, minha motivação era totalmente financeira”.

Texto: Guilherme Guilherme

FONTE: Metodista