Identidade negra: opressão e resistência

Imagem de Capa: Reprodução (afrolatinas.com.br)

“Com a chegada de culturas européias e o processo de dominação, constitui-se uma lógica de subordinação das culturas colonizadas,” pontuam Anni Carneiro e Silvia Ferreira no artigo Padrões de beleza, raça e classe: representações de elementos identitários de mulheres negras na periferia de Salvador – BA. De fato, devido a questões históricas, que se iniciam na escravidão imposta por europeus a nativos e negros, o belo acaba baseado no olhar eurocêntrico e, neste sentido, a branquitude, junto a marcas como olhos claros, lábios finos e cabelos lisos, acaba sendo encarada como o único tipo de estética correta e apreciável e estabelece, desta forma, um padrão de beleza estreito que exclui do social a corporalidade afro, que permanece renegada.

“Historicamente, a mulher negra era aquela que os homens atacavam nos canaviais e que engravidavam. Seu corpo era belo, mas somente para o sexo, para o abuso,” conta Vânia dos Santos, graduanda em pedagogia da Universidade Estadual do Ceará, mulher, negra, empoderada e interessada em transmitir a resistência na beleza negra. Diminuídas e oprimidas, a beleza e a cultura afro se perdem em meio a tais padrões de beleza, que, intrínsecos à sociedade, acabam comunicados nos círculos sociais, por família e amigos, e nos meios midiáticos, tal como televisão e publicidade, afetando a imagem corporal e ideais de beleza, especialmente das mulheres, para as quais os padrões são mais fortes e presentes.

Todavia, a questão da representatividade tem atingido significativos avanços nos últimos anos. Atualmente, a presença de atrizes, jornalistas e modelos negras na mídia, assumindo sua estética com empoderamento e orgulho, é cada vez maior e tem grande participação na valorização da beleza negra. Assim, vê-se o estabelecimento de um novo cenário, em que mais pessoas assumem seus traços e sua ancestralidade e percebem nela, para além da estética, um manifesto político, em que a afrodescendência é vista como resistência aos padrões perpetuados pelos valores racistas e machistas de nossa sociedade.

Ícone da música, Beyoncé é exemplo de representatividade e resistência; seu álbum Lemonade traz canções e vídeos muito representativos. Foto: Rolling Stone

Negritude como resistência e apropriação cultural

Para Vânia, “resistência é, mesmo diante do preconceito disfarçado, saber lidar com a luta, mostrar que conhece a sua história e dos antepassados”. Resistir, portanto, é se impor perante estes padrões que diminuem a estética negra. É quebrar estereótipos. É “mostrar que o negro tem sua história, que há uma dívida da sociedade brasileira para com os negros,” como completa Vânia. E é, em suma, mostrar o valor que a negritude tem, tão grande quanto qualquer outro tipo de beleza, e muito representativa de histórias, crenças e culturas.

Cabe notar aqui, assim, uma face de grande importância no processo de resistência na estética negra, a apropriação cultural, ou seja, no uso indevido de objetos, roupas e costumes de um grupo por outros, o que pode mostrar percepções diferenciadas para cada grupo e fomentar as relações de dominação ainda muito presentes em nossa sociedade. Quando uma pessoa branca usa um turbante, por exemplo, é vista de modo diferente do que uma pessoa negra usando a mesma peça seria, e seu ato pode ser elevado em detrimento do grupo cuja peça representa a cultura.

A população negra, ao assumir sua estética e sua cultura, encarna a resistência, impondo seu protagonismo, seu significado e sua presença para além de padrões de beleza, algo que lhes é roubado com a apropriação cultural.  A resistência na beleza negra é muito importante, e não pode ser diminuída com outros grupos tomando para si símbolos que representam autoafirmação e luta contra opressões.

 A resistência na estética negra é algo de grande importância para a luta contra padrões da nossa sociedade, a saber, machismos e racismos. Se apresenta como um modo de se impor e valorizar as raízes africanas, tão fortes quanto quaisquer outras.

Ela pode, assim, assumir múltiplas faces e estar em vários lugares. Pode ser o uso do cabelo black power, das box braids ou dos cachos (não renegando o do cabelo alisado, se a pessoa assim preferir). Pode estar no bom relacionamento com traços marcantes da estética negra, como os lábios grossos e os narizes grandes. Pode estar presente no empoderamento na cor de pele e em roupas que expressam a cultura negra, como turbantes. Pode ainda estar em pessoas se sentindo bem consigo mesmas independente do que a sociedade prega como belo ou interessante, em pessoas felizes com suas ancestralidades e culturas e contentes em serem quem são.

Vânia dos Santos, por exemplo, conta que resiste e transmite esse sentimento em suas aulas e em redes sociais. Logo, em suma, a resistência pode estar onde aquele que decidir resistir ver a oportunidade. Como pontua Vânia, com muita razão, onde, enfim, “tiver espaço”.

Por Victória Martins (Jornalismo Júnior/USP)