A história de uma mulher sem identidade, sem reconhecimento e sem existência

FAMECOS PUCRS

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É verão em Bogotá, Colômbia. Eliana tem sete anos. Ela está em cima do sofá, chorando. Sua mãe atravessa a sala a passos largos segurando as roupas compradas especialmente para a missa de Páscoa – para qual a família já estava atrasada. “Não quero usar a gravata, mãe!”, grita Eliana.

Eliana vestiu a gravata para todas as missas de Páscoa, jantares de Natal, casamentos, festividades e entrevistas de emprego ao longo de 18 anos.

Quando atingiu a maioridade, a sexualidade deixou de ser o único problema latente. O conservadorismo da família judaica-ucraniana fez com que Eliana, uma criança intersexual, fosse educada e inserida socialmente como menino. Foi registrada como Roberto. “Não me lembro de um momento na vida em que não tenha questionado o fato de ser menino”. Comecei a me comportar como homem porque esse é o melhor jeito de ser e esse é o melhor jeito de sobreviver, mesmo que os outros não entendam quem você é”.

Não havia muito espaço para rebeldia na casa dos Rubashkyn. “Minha mãe dizia que eu tinha que ficar no meu lugar”. O apartamento no centro de Bogotá tinha uma ampla sala de estar, quatro banheiros, uma cozinha como o orgulho da casa – um fogão a gás de seis bocas – e um estreito corredor que dava acesso ao quarto do casal e ao quarto de Eliana. O cubículo continha uma cama com lençóis de carros de corrida, um armário de madeira com um espelho de corpo inteiro, uma escrivaninha e o único item que Eliana pode verdadeiramente escolher – um tapete vermelho. O computador da casa ficava no corredor, voltado para a porta do quarto dos pais. Escondida na madrugada, Eliana pesquisava na internet sobre histórias parecidas com a dela.

Assim, percebeu um fato curioso. Após longas análises em frente ao espelho, ela notou que suas mamas começaram a crescer. Cruzando esse fato com histórias que encontrara, descobriu a intersexualidade – ou DDS, Desordem no Desenvolvimento Sexual. Preocupada com as alterações proeminentes no corpo do filho, a mãe decidiu levá-lo ao médico.

O corpo de Eliana era capaz de produzir tanto a testosterona (hormônio masculino) quanto a progesterona e o estrogênio (hormônios femininos) em níveis igualmente elevados. Por isso, outros aspectos, como a voz grossa masculina e o crescimento de pelos no corpo nunca foram desenvolvidos. “Nós descobrimos que eu nunca cresci sexualmente, continuava com a genitália de criança e, mesmo tendo alguns pelos na face, nunca teria a aparência completa de um homem”. A solução apresentada pelo médico – e acatada pela mãe – foi o uso de ataduras para conter o aparecimento dos seios. “Minha mãe jamais aceitaria um filho gay, uma filha transexual, então, era inimaginável. Ela preferia ter voltado atrás e não ter engravidado”.

Um dia, na frente do espelho do quarto, Eliana experimentou uma peruca loira sintética e uns vestidos comprados no mesmo dia. “Me vi completamente diferente, senti a necessidade de assumir quem eu realmente era”.

Por meses ela teve que lidar com a violência psicológica dentro de casa. “Na primeira vez deixei meus pais sem reação, eles não fizeram nada. Nas vezes seguintes, eles me fizeram não querer ter nascido”. Eliana não conseguia encontrar alento e suporte em ninguém próximo. Os amigos se afastaram e, inclusive, a evitavam. Isso fez com que ela começasse a frequentar o Stracto Uno, bairro pobre da capital colombiana, conhecido como uma área de prostituição e frequentado por transexuais.

De acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), 67,7 % da população homossexual colombiana já sofreu alguma agressão física. Entre os transexuais, essa taxa sobe para quase 90%. Eliana saía de um bar com uma amiga também transexual e foi surpreendida por um som alto e algo que “pareceu um tapa forte nas minhas costas”. Quando se deu conta da quantidade de sangue, ela percebeu que havia levado um tiro. “Foi de graça. Nunca pretendi fazer nenhum mal a ninguém, especialmente para o homem que atirou em mim”, relata Eliana.

Ela tentou suicídio. Uma, duas, três, quatro vezes. “Estava na camada mais profunda da depressão, quando tudo fica escuro e não existe a luz no fim do túnel”.

Da emancipação ao horror

Essa série de acontecimentos fizeram Elina perceber que não poderia continuar sua vida onde estava. Recém-graduada como farmacêutica na Universidade Nacional da Colômbia, ela passava pela pressão universal quanto ao destino de sua carreira. Descobriu uma bolsa de estudos para mestrado em química em Taiwan. O estado insular, por sua vez, é conhecido pelo grande número de cirurgias de mudança de sexo e pela grande comunidade transexual. “Chegar lá foi a minha emancipação”.

A chegada a Taiwan e o início do tratamento hormonal foram documentados pelo blog de sua altoria Soy Eliana – redigido em ucraniano, espanhol, inglês e mandarim. Os primeiros posts, tímidos, narravam a vida no campus e compartilhava desde receitas até fotos que ilustravam suas mudanças corporais.

Após o primeiro semestre, a Universidade Médica de Taipei pediu a renovação dos documentos de Eliana. Em seu passaporte, ainda constava seu nome de batismo e sua foto antes do tratamento. Ela foi aconselhada a procurar pelo consulado colombiano mais próximo e atualizar as informações o quanto antes. Ela deveria atravessar 815,14 quilômetros de Taipei até Hong Kong.

A viagem deveria durar dois dias. Eliana partiu com pouco dinheiro e nenhuma reserva de hospedagem. O plano era passar a noite no aeroporto. Mas ficou quase cinco noites.

Até esse ponto da entrevista, Eliana é muito direta e aberta. Ela fala sobre sua trajetória com uma naturalidade impressionante. Com longas pausas e a voz rouca, ela continua.

Detida na imigração por um oficial que riu da sua situação, ela foi encaminhada para a delegacia do Aeroporto Internacional de Hong Kong. Ao ver a foto de um homem no passaporte de uma mulher, os seguranças acreditaram que seguravam documentos falsos. “Quando entendi a complexidade da situação, percebi que eles me tratariam a partir dali como uma criminosa”. E foi exatamente o que aconteceu.

O primeiro passo foi examinar o conteúdo das bagagens. Ela conta que, durante a inspeção, eles zombavam dos seus pertences e não respondiam a nenhuma de suas perguntas. “O que vai acontecer? O que eu estou fazendo aqui? Quando vou poder falar com alguém de fora?”, questionava. Seu cheburashka (boneco de um personagem infantil russo) foi quebrado ao procurarem por drogas e jogado na lixeira da sala. Ninguém falou nada. Um dos guardas se virou para ela e disse: “Nós precisamos de você pelada”.

Não adiantou clamar pela presença de um médico, de uma mulher, chorar ou gritar. Eles começaram a tocar nos seus seios. Perguntavam como um homem poderia ter seios de verdade. Quando eles a despiram completamente, o estupro começou. “Não há muito o que dizer sobre isso, perdi toda minha dignidade naquele momento”. Enquanto me conta, acrescenta um “ok” ao final de cada frase para garantir que eu estou entendendo o que se passou. “Todo o tratamento que eles estavam tendo comigo era tão ofensivo, humilhante, abusivo, invasivo, que eu estava chorando sem respirar. Eu estava chocada, não podia sequer entender todas as coisas que eles estavam fazendo comigo, a falta de humanidade”. O medo de ser deportada para a Colômbia fez com que ela tivesse um ataque de ansiedade. Por volta das seis da manhã, pediu para ir ao banheiro. O policial concedeu o direito de sair da cela e usar o banheiro masculino. Às nove horas, ela urinou nas calças.

Quando o oficial se distraiu, ela conseguiu ligar o celular. Acionou a opção de roaming internacional e conseguiu um sinal muito baixo, mas o suficiente para mandar uma foto e a mensagem “Ajuda” no Facebook. O post chamou a atenção de um amigo que contatou a Organização de Direitos Humanos Hong Kong Rainbow. Eles falaram imediatamente com o aeroporto e conseguiram cancelar o processo de deportação de Eliana.

Eles a deixaram ir depois de mais quatro dias, sem um carimbo, sem documentos e com uma carta que dizia que ela estava em situação “semi-legal”, ou seja, a qualquer momento ela poderia ser deportada. Ela passou a noite seguinte em um hotel, em contato com a ONG que a tirou do aeroporto. A única saída para Eliana era se registrar em uma lista da ONU que categorizava pessoas que procuram por asilo. Ganhou status de refugiada e foi transferida para um campo na periferia de Hong Kong.

 

Vivendo no limbo

Limbo, segundo a teologia cristã, é um conceito de caráter escatológico que identifica os que permanecem ‘à margem’ da presença de Deus. “Naquele momento, não existia Deus. Não existia fé”. Em seu blog, ela narra o início da vida em Hong Kong com o título “Meu pior pesadelo se tornou realidade”.

Campos de refugiados na Ásia são mais comuns do que imaginamos. Apesar de ser conhecida pelo seu milagre econômico, a China e, especialmente, Hong Kong, apresenta uma longa história de movimentos populacionais. Nos últimos 20 anos, segundo a ACNUR (agência da ONU para refugiados), dois milhões de pessoas vindas do Camboja, Laos e Vietnã foram acolhidas e protegidas por conta de conflitos nos seus países de origem. O último campo de Hong Kong foi oficialmente encerrado no início dos anos 2000, porém, a grande maioria dos seus residentes continua no mesmo lugar e categorizados como refugiados.

Eliana simplesmente não foi aceita nessa comunidade. Tendo em vista o conservadorismo desses países, um transexual, cujo tratamento tinha sido interrompido e se tornava cade vez mais andrógino, não foi bem visto. A ONG, então, optou por transferi-la para o único lugar disponível. Um contêiner extra de uma carga encomendada pela organização. “Nunca entendi completamente o que meus antepassados judeus viveram no século passado. Sobreviver no gueto de Hong Kong me deu essa dimensão”. Ela viveu lá por quase um ano.

“É muito complicado ser uma refugiada transgênera. Nós somos muito mais vulneráveis. Não é só uma questão de violência e burocracia.” Urinar, ir ao médico,se relacionar com pessoas são só alguns exemplos que Eliana cita de coisas simples que se tornam problemas quando se é transgênero.

O governo colombiano não a reconheceu como cidadã, enviaram um simples ‘não podemos ajudar’. Para evitar riscos de deportação, eventualmente, ela foi aconselhada a cortar a comunicação com seu país de origem. Iniciou-se uma batalha pelo reconhecimento como mulher e pela obtenção de asilo em outro país.
Ela se mantinha com um auxílio simbólico da ONG e com a venda de doces. As horas em frente ao fogão de seis bocas cozinhando com a mãe influenciaram o resultado dos bolos de Eliana. Eles eram bem decorados, coloridos e, alguns, continham arco-íris e mensagem de paz. Além disso, lançou uma campanha no modelo crowdfunding, onde anônimos podem doar dinheiro pela internet em troca de recompensas, para conseguir mais ajuda. Através da campanha Aid for Eliana, pôde retomar seu tratamento hormonal – um colaborador norte-americano chegou a enviar oito caixas de tabletes de estrogênio.

Da luta pela sobrevivência ao asilo na Nova Zelândia

Depois de meses, ela finalmente foi transferida para uma habitação adequada. Eliana se instalou em um apartamento de um cômodo com uma cozinha minúscula e um banheiro. Ao lado da cama, livros e caixas se acumulavam formando pilhas, quase caindo por cima da escrivaninha com o computador. O espaço para se locomover era pequeno. “Não era muito. Mas voltei a me sentir digna”.

Ela iniciou um processo de midiatização de sua história. “Comecei a mandar e-mails, comentários, mensagens por redes sociais; tudo para chamar a atenção da mídia internacional”. Até que aconteceu. Após diversas entrevistas para veículos como BBC, El País e The New Zeland Herld, Eliana conseguiu espaço para ter seus problemas debatidos.

No dia 16 de dezembro de 2013, a ONU aprovou uma resolução reconhecendo Eliana como mulher sob o sistema de refugiados da ACNUR. Ela se tornou a primeira pessoa transgênera internacionalmente reconhecida como mulher sem ter completado a cirurgia de transformação sexual.

Em maio de 2014, a Nova Zelândia aceitou Eliana como refugiada e a garantiu asilo, estendendo reconhecimento universal ao seu gênero. “Honestamente, foi um soco na cara de todos que quase me fizeram desistir”.

O passaporte, o número de seguro social e a residência neozelandeses garantiram o final feliz na epopeia de Eliana. Ela recebeu todo apoio dos escritórios para refugiados da Nova Zelândia, desde auxílio com documentos a tratamento para saúde psíquica.

Eliana está cursando o mestrado em Química. Casou com um homem de origem israelita em 2 de junho de 2015. “Eu não poderia imaginar ser tão feliz assim há dois anos atrás”.

Ela está à frente de um trabalho de ativismo através de seu blog, ajudando e guiando pessoas que desejam mudar seu sexo de nascença. Também é engajada no reconhecimento e obtenção de asilo para refugiados transgêneros.

De acordo com a ACNUR, aproximadamente 170 mil pessoas, neste momento, têm seus direitos básicos feridos por não se identificarem com seu gênero de nascença. Deste número, apenas 7 mil encontram meios de sair de seus países de origem. A partir disso, cerca de 700 pessoas conseguem acessar o sistema de refugiados da ONU e não mais do que 400 são os reconhecidos oficialmente como refugiados. Menos de 30 conseguem asilo político por ano. “É um absurdo, minha luta é para pararmos com isso de achar que transgêneros têm menos direitos que os outros”.

Impressionada com o relato, falei um último “entendo” para os “oks” confirmativos de Eliana. Um soluço interrompeu sua voz. “Precisamos deixar o povo entender que não precisa pedir permissão para ninguém, nem ninguém tem que nos perguntar. Nós nascemos livres e iguais e merecemos preservar a liberdade e viver em igualdade. Não importa o que as pessoas sentem ou acreditam que é correto ou não. Esta é a minha vida, é o meu corpo. É a minha escolha”. Entendo.

 

Texto: Giovana Fleck

FONTE: Famecos/PUC-RS