Hiroshima: a história contatada por meio do jornalismo

A grande reportagem que relembra o perigo da bomba.

“Hiroshima”, do jornalista e escritor John Hersey, é uma das principais reportagens do século XX. Com uma linguagem fácil que envolve o leitor na história e prende a atenção, o jornalista relata o que seis sobreviventes estavam fazendo no exato momento do lançamento da bomba atômica em Hiroshima, no Japão, dia 6 de agosto de 1945, às 8:15, pelos Estados Unidos. Para abordar o que cada um dos sobreviventes fizeram logo após o acontecimento, Hersey precisou viajar até o local para conversar e entrevistá-los. Os nomes deles são: Srta Toshiko Sasaki, Dr. Masakazu Fujii, Sra. Hatsuyo Nakamura, Padre Wilhelm Kleinsorge, Dr. Terufumi Sasaki, Reverendo Kiyoshi Tanimoto.

Originalmente, ela foi publicada na revista The New Yorker, em 31 de agosto de 1946, quando dedicou, pela primeira vez, todo o espaço da edição para contar apenas a história, visto que ela tem cerca de 31.347 palavras. Somente depois de vários anos a reportagem foi publicada em formato de livro, recebendo o nome de Hiroshima, com total de 170 páginas. Na versão da Companhia de Letras, tem ainda o posfácio escrito por Matinas Suzuki Jr. que contém informações importantes sobre a bomba, o livro, e como foi recebido pelo mundo.

A obra é dividida em cinco partes: um clarão silencioso, o fogo, investigam-se os detalhes, flores sobre ruínas. A última parte recebe o título de “depois da catástrofe”, quando John retorna ao Japão, após 40 anos, para descobrir o que aconteceu com os sobreviventes, e assim, realizar uma espécie de perfil de cada um deles.

Definido como jornalismo literário, e por abordar, ainda que menos, a guerra, em si, a leitura relembra “A guerra não tem rosto de mulher” de Svetlana Alexijevich, pela semelhança na construção da narrativa.

Do início ao fim, é uma leitura sensível e é muito mais do que uma reportagem. É um material jornalístico que alcança o objetivo de que o mundo nunca se esqueça do perigo e dos efeitos de uma arma nuclear.

Já nas primeiras páginas, um dos relatos é comovente. É o do senhor Fukai, que foi resgatado pelo padre Kleinsorge em um quarto e, com ajuda de um teólogo, o colocou nas costas para tirá-lo dali. Nesse momento, a cidade já estava incendiada, e quando o padre se desequilibrou, o senhor Fukai caiu, e aproveitou para seguir na direção do fogo, porque,  como antes tinha insistido para ser abandonado, preferia morrer.

Também comovente é o trecho em que trata das dificuldades da atuação médica durante a crise: “o dr. Sasaki perdeu todo o senso profissional e parou de agir como cirurgião habilidoso e homem solidário; tornou-se um autômato, limpando, engessando e enfaixando mecanicamente; limpando, engessando e enfaixando mecanicamente”.

Hershey prioriza os sentimentos, pensamentos e perspectivas dos hibakushas, termo usado pelos japoneses para quem sobreviveu. Em toda a obra, nos sentimos próximos deles, e,  como leitor, é como se os estivéssemos acompanhando. O escritor descreve quem são as pessoas que viveram esse momento tão importante da História, gerando empatia. É uma forma de mostrar que, apesar de alguns sobreviverem, eles também teriam de lutar pelo resto da sua vida para lidar com o trauma que a bomba causou, além de sequelas da radiação, como o câncer.

Autora: Camila Naegelen (2º semestre) | Foto: Camila Naegelen (2º semestre).

Fonte: PUC-RS.