Fim de tarde amarelo

MACKENZIE

Era setembro, o sol se punha no horário de pico em São Paulo. O ônibus Terminal Campo Limpo estava lotado como de costume. Levantei e dei lugar a uma menina acompanhada de uma mulher. A criança inquieta disse algo que não pude ouvir para a moça que aparentava ser sua tia. Indignada, ela repreendeu a garota: “Você não pode falar isso, é errado! ”. A menininha sem entender calou-se o resto do caminho.

Sorri desconcertada e pensei: Quantas coisas deixamos de dizer por medo de sermos reprimidos? São tantos os assuntos que deixamos de comentar, até mesmo com pessoas próximas. Os famosos tabus. Fatos que merecem discussão, mas que por medo ou vergonha deixamos guardados em nós. Ao escondê-los em nosso baú pessoal, os transformamos em peso. Conforme o baú enche, mais peso carregamos. Mais pesados nos sentimos. Até que somos esmagados pelo temor do julgamento alheio.

Não que seja nossa culpa. Se receamos ou nos sentimos constrangidos em nos expressar é porque um dia nos impuseram o que não deveria ser falado. Nos disseram que “era errado” e tomamos isso como verdade, sem pararmos para refletir ou questionar.

Então, Deixemos a nossa menina interior falar, antes que a percamos. Antes que ela precise buscar ajuda ou que chegue ao seu limite. Além de nos expressarmos, sejamos melhores ouvintes. Capazes de escutar sem definir o que é certo ou errado. Afinal, não cabe a nós. Sejamos menos parecidos com as tias do busão. Às vezes, não somos capazes de perceber que o próximo está pedindo ajuda. De vez em quando, ele precisa desabafar, antes que seja sobrecarregado pela quantidade de sentimentos que carrega.

Que neste fim de tarde, o céu seja predominado por tons de amarelo. Nos conscientizemos que é preciso esvaziar nossos baús. Deixando a garotinha falar e sendo capaz de ouvi-la. Sem correções ou julgamentos. Apenas esclarecendo sentimentos, neste setembro amarelo.

Autora: Júlia Gabriello

Fonte: Mackenzie