Famílias encontram na adoção um amor que transcende os laços sanguíneos

FAMECOS PUCRS

Dudu, seus pais Antonio e Francini e seu irmão Davi. Crédito: divulgação

O casal Júlio Nassif, 48 anos e Karina Nassif Azen, 42 anos, sempre teve o desejo de constituir família. Sem sucesso pela maneira natural, eles procuraram tratamentos de fertilidade, que também não deram resultado. A partir deste momento, começaram a pensar na possibilidade de adotar. No entanto, o processo é burocrático e lento, podendo levar, em média, de cinco a sete anos, dependendo do perfil da criança.

Ao iniciar a ação, ingressaram no fórum com uma série de documentos comprovando aptidão para serem pais adotivos. Após habilitados, fizeram a inscrição no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). O procedimento demorou dois anos e dois meses, contrariando a média usual e surpreendendo o casal.

No dia 14 de junho de 2012, uma semana antes do aniversário de Júlio, eles receberam a notificação relativa à sondagem para a adoção de Paulo Nassif Azen, que na época estava com dois anos e meio, além de um dossiê contendo o histórico e fotos do menino negro. No prazo de uma semana decidiram e foram ao cartório fazer a confirmação da adoção. No dia 29 do mesmo mês, aniversário de Karina, eles o conheceram, concretizando o sonho de formar uma família.

Embora estivessem preparados para uma possível rejeição, existia, ainda, o receio em relação à forma como até então o menino fora criado no abrigo onde morava. Felizmente, deu tudo certo. “Paulo estava muito aberto para nos receber. Quando a cuidadora disse que o papai e a mamãe estavam chegando, ele se jogou nos braços do Júlio”, contou Karina.

O medo que assombrava Júlio antes da adoção, não dividido nem com esposa, era o de acolher um desconhecido. Mas isso foi superado logo no início do contato. Após quatro anos de convívio com Paulo, ele se diz realizado. “Sou uma pessoa completamente diferente, pois a paternidade é algo mágico e indescritível, um amor instantâneo”, conta. Por sua vez, Karina se diz completa. “Hoje tenho claro para mim que ser mãe por adoção supriu o meu desejo”, afirma.

Conforme Karina, na adoção interracial, a família tem que estar preparada para saber lidar com isso. Inicialmente ela se sentia desconfortável e não estava acostumada com a reação das pessoas. A vontade era a de passar despercebida. Hoje, o casal diz esquecer essa diferença. “Paulo foi bem acolhido pela nossa família e estava todo mundo preparado para vivenciar essa experiência”, relata.

Recentemente o menino começou a questionar o porquê da cor dele ser diferente. A explicação que Júlio e Karina encontraram é que eles queriam muito ter um filho e não conseguiam, então encomendaram Paulo na barriga de outra pessoa. Especialistas dizem que o assunto deve ser tratado abertamente conforme a situação.

Adoção de meninos mais velhos
A história de Francini Simão de Carvalho, 36 anos, e de Antônio Cardoso de Carvalho, 31 anos, foi um pouco diferente. A intenção em adotar uma criança surgiu na adolescência em função da convivência com o irmão adotado. Em janeiro de 2009, o casal entrou com o requerimento de adoção no fórum da cidade de Torres. No perfil do casal não havia a indicação de preferência de cor ou sexo, apenas de que a idade fosse de até três anos.
Com três anos de idade, Luiz ainda recebia visitas da família biológica, até ser destituído do poder familiar devido à falta de perspectivas psicológicas e financeiras. Existiram três possibilidades de adoção com promessas que não se concretizaram. Ele sofreu com as rejeições e esperava a volta dos casais que pensaram em adotá-lo. Por esse motivo, havia maior cautela nas visitas recebidas. Garantido o bem estar de Luiz, o casal passou por um período de transição entre o conhecimento e a apresentação.Posteriormente, já com cinco anos de casados e tendo o filho biológico Davi com um ano de idade, eles foram convidados a participar de um grupo de apoio de pretendentes à adoção, junto a quatro casais e uma psicóloga. Nos encontros, receberam fotos de Luís Eduardo, um menino de cinco anos, com traços indígenas e olhar triste. Orientados pela psicóloga e já identificados com o menino, resolveram ampliar a faixa etária, e o adotaram.

Segundo Francini, o dia 16 de dezembro de 2011 foi decisivo. “O coração disparou e a emoção tomou conta. Nesse instante, tivemos a certeza de que aquela adoção tardia faria muito bem a ele, e a nossa família ficaria completa”, revela. Ele se transformou no Dudu, e é membro da família Carvalho há quatro anos e seis meses. A família passou por momentos difíceis durante esse período, mas conversa, persistência, dedicação e amor superaram tudo. “Sou imensamente grata pela bênção de tê-lo gerado em meu coração”, finaliza Francini.

Estatística aponta espera longa
Segundo o juiz da Segunda Vara da Infância e da Juventude da Comarca de Porto Alegre, Marcelo Rodrigues, nas adoções realizadas entre fevereiro de 2015 e maio de 2016, 38 casos de crianças adotadas foram concluídos. Em vista disso, apenas três crianças tinham de seis a dez anos, duas delas eram meninas negras e um menino branco.

Os dados estatísticos levantados do Cadastro Nacional da Adoção (CNA) indicam que 36.276 pretendentes são habilitados no Brasil, desses, 17.162 esperam por um filho que pode ser negro, o que correspondente a 47,3% do total. Outros 75,5% adotariam pardos e 92,3% aceitariam crianças brancas. Desses casos, 8,8% esperam somente por meninos, enquanto 28,7% restringem sua escolha ao sexo feminino, e 62,4% são indiferentes quanto ao sexo. E mais da metade dos pretendentes cadastrados, 56,3%, optaram por adotar crianças com até três anos, enquanto 90,7% esperam por um filho até seis anos.

 

Texto: Gabriela Castro e Joveline Carvalho

FONTE: Famecos/PUC-RS