Exorcismo, socos e garrafadas – As marcas do preconceito

PUC-RS

Jovens homossexuais relatam episódios de intolerância e violência ocorridos em diferentes cidades brasileiras

“Todos descobrem que você é gay antes de você. A pior homofobia é a que vem de casa”, afirma Jeremias Souza. Morador do Piauí, onde a média de crimes contra homossexuais é de 4,5 para cada um milhão de habitantes – maior que a média brasileira, de 1,6 -, Jeremias conta que veio de uma família extremamente religiosa e que o pai, pastor, sempre foi homofóbico. As violências eram constantes e, certo dia, resolveu fazer um exorcismo no filho. Jogou-o no chão, o deixou imóvel e começou a bater em sua cara, iniciando a cerimônia. “Não sinto raiva dele. O que a minha mãe fez é pior. É como falam, as feridas da alma demoram mais para curar”.

Além das agressões que sofria por parte do pai, Jeremias também sofria violência psicológica da mãe. “Ela sempre fez eu me sentir a pior pessoa, acreditar que eu não merecia nada. Que eu era pior que todo mundo”, relata, com tristeza. Foi por causa da mãe que ele desenvolveu fobia social. As chantagens emocionais e agressões verbais fizeram com que até hoje ele tenha medo de se relacionar com outras pessoas, principalmente homens.

Mas os piores momentos aconteciam durante o programa Vitória em Cristo, apresentado pelo pastor Silas Malafaia. Cada vez que o apresentador citava gays, os pais de Souza o agrediam verbalmente. Inúmeras vezes foi chamado de estuprador e sempre ouvia da família que nunca seria ninguém por ser gay.

Em 2012, aos 20 anos, ele conheceu um homem e iniciou um relacionamento. A irmã, também religiosa, descobriu e contou para a família. A reação da mãe deixou marcas até hoje. “Ela começou a bater no meu rosto com muita força e eu só conseguia me perguntar porque aquilo estava acontecendo”, relembra. Na época, o namorado sugeriu que ele ligasse para a polícia. Jeremias não ligou.

A infância também foi conturbada. Uma vez, quando tinha cinco anos, meninos mais velhos o chamaram para a sala de informática da escola em que estudavam. O maior fechou a porta e os outros cercaram Jeremias, que ficou extremamente nervoso com a situação. “Consegui fugir, mas tentaram outra vez em outro banheiro”, conta. “Até terminar o ensino médio eu não usava o banheiro da escola”. Além disso, ele via que as duas irmãs tinham a liberdade de sair, ter amigos. Jeremias, não. “Minha mãe não deixava eu brincar com os meninos por pura homofobia. Ela destruiu minha vida. Minha infância e adolescência nunca vão voltar”.

O último relatório de Violência Homofóbica divulgado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos foi divulgado no início de 2016, mas traz dados referentes a 2013. Eles mostram que, em 73% dos casos, a grande maioria das violências é sofrida por vítimas do sexo masculino. E que 32% dos suspeitos eram pessoas desconhecidas.

Esse é o caso do designer Arthur Blankov. Aos quinze anos, quando voltava de uma festa no centro de São Paulo, levou uma garrafada na cabeça de dois homens que o seguiam.  “Eles estavam me ofendendo e eu não olhei. Então resolveram me acertar com uma garrafa de vinho”.

Em nenhum momento pensou em contar para a família porque aconteciam aquelas violências. “Sempre inventava uma história. Ou era assalto, ou briga com amigos”. Ele explica que não queria preocupar a mãe. “Eu sabia que isso iria acontecer e assumi o risco. Sei que acontece o mesmo com amigos próximos”. Em outro momento, Arthur levou um soco de um desconhecido em um posto de gasolina. Ele estava indo para a loja de conveniência e um grupo de homens ficou  encarando-o. Quando chegou perto da porta, um deles disse: “Vaza, sua bichinha”. Arthur rebateu o comentário e levou um soco no supercílio. Um frentista se aproximou e pediu que ele deixasse o local, para evitar confusão.

A psicóloga Denise Braz, especialista em Gênero e Sexualidade, explica que o número de violência contra gays pode ser maior que a de lésbicas ou trans devido ao grande ódio por parte dos homens heterossexuais e têm baixa tolerância com essa questão. A aceitação de heteros por lésbicas é maior, devido à grande objetificação e fetiche por parte dos homens. A psicóloga também ressalta que é de extrema importância o apoio dos pais para um LGBT. “Pais que não acolhem, não aceitam ou respeitam seu ente querido fará com que ele se sinta cada vez menos incluído na sociedade”.

Desde pequena, Laura* sentia que era diferente e que não partilhava dos costumes praticados por outras pessoas. Aos 16 anos, declarou-se lésbica e conversou com os amigos, que a apoiaram. Já os pais descobriram através de redes sociais e conversaram com ela, que resolveu contar tudo. Mas, diferente dos amigos dela, os pais não a aceitaram. “Eles me ameaçavam muito. Falavam que eu havia estragado a família”.

Quem mais fazia isso era a mãe, que falava, recorrentemente, que se mataria caso Laura não terminasse com a namorada. Isso deixou a estudante em depressão e, em um dos piores momentos de sua vida, tentou se matar. Ela também ouvia constantemente que o grande problema era que ainda não havia encontrado o cara certo. Tanto de homens que pediam para ficar com ela e ela dizia não, quanto dos pais. “Já falei pra minha mãe parar de tentar me empurrar pros meus amigos, porque sexo sem vontade é estupro”, explica.

O termo estupro corretivo surgiu no início de 2000, usado pelos direitos humanos para descrever esses crimes cometidos na África do Sul. Isso é uma prática onde uma pessoa estupra pessoas homossexuais com a ideia insensata de que isso a tornaria heterossexual. Os ataques ficaram cada vez mais recorrentes pelo mundo. Em 2008, a ONG ActionAid pediu a criação de uma legislação que visa aos crimes de ódio, incluindo o estupro corretivo.

Ao contrário de muitas famílias, as de Melissa* e Carla* apoiam o namoro. Melissa dava aulas de defesa pessoal e foi durante uma delas que ela e Carla se conheceram. A química foi imediata. Em pouco tempo, começaram a namorar. Elas lembram de como se assumiram para a família, antes de se conhecerem.  Melissa falou para a família que era lésbica aos 16 anos, quando percebeu que só se apaixonava por meninas. O pai e o irmão mais novo reagiram como se não se importassem, mas a mãe levou tempo para aceitar. “Hoje nos damos muito bem, e ela tem orgulho de mim”, diz.

Carla já havia se relacionado com homens na adolescência, mas aos 20 anos percebeu que aquilo não lhe fazia bem. Ela conta que demorou para contar para a família que é lésbica por já ter se relacionado com homens. “Não queria ouvir perguntas sobre minha sexualidade. Coisas como ‘foi por que algum homem te traumatizou?’”, justifica.

Mas a mãe de Carla tem receio de que pessoas desconhecidas tratem a filha e a namorada de forma diferente. Por essa razão, muitas vezes apresenta Melissa como amiga de sua filha. Mas nem sempre as coisas são simples para casais homoafetivos. Carla relata que causa estranhamento por não ter um visual considerado feminino pela sociedade e que sofre muitas agressões verbais na rua.

Por medo, em certos bairros da capital gaúcha, as duas evitam andar de mãos dadas ou agir como casal. “Uma vez, pegando um ônibus no Menino Deus, dois homens sentaram atrás de nós propositalmente, sendo que o ônibus estava vazio. Quando nós nos beijamos, um deles disse que não ia aguentar ver aquilo”, relembram. Elas responderam o comentário, e o homem ameaçou agredi-las fisicamente.

Os dados, divulados pela organização Transgender Europe, mostram que cerca de 600 transsexuais e travestis foram assassinados nos últimos seis anos.  Isso torna o Brasil o país que mais assassina trans e travestis no mundo. De acordo com o relatório divulgado em 2013, das vítimas identificadas, 11,9% eram travestis e 5,9% transexuais. A insegurança e o medo constante por ser trans fizeram com que Gabriela mudasse de cidade com a namorada.

Enquanto arrumava os últimos detalhes da mudança para Florianópolis, ela explica que já havia ido para lá outras vezes e que nunca sofreu preconceito, ao contrário de quando estava em Porto Alegre. “O gaúcho tem uma cultura machista”, ressalta. A pior violência aconteceu logo no início de sua transição, quando ela ainda não havia feito a cirurgia de feminilização facial. Ela foi em um posto de gasolina comprar cerveja, e cinco homens começaram a humilhá-la.  Ao revidar, eles começaram a ameaçá-la e correr atrás dela.

Gabriela conseguiu chegar bem em casa, mas lembra que durante o caminho ouviu que eles sabiam onde ela morava e que eles iam estuprá-la.  O trauma fez com que ela deixasse de sair de casa por um tempo. Chegou a tentar o suicídio. “Mas essas humilhações me fizeram mais forte, fazem parte da minha vida”, afirma.

Outro fator que também afeta a vida de homossexuais é a mídia. A falta de preparo dos comunicadores, muitas vezes, acaba acarretando em um tratamento insensível em casos de violência aos LGBTs. “De alguma forma, a vítima se sente desamparada, pouco acolhida, reforçando o medo de se expor e o preconceito”, explica a psicóloga Denise Braz  . Além da falta de sensibilidade, a mídia peca ao usar, constantemente, termos pejorativos. “Quando se referem a uma pessoa trans, eles não respeitam sua identidade de gênero. Insistem em nominá-la com o nome de registro e não pelo nome social”, exemplifica.

Fernanda Nascimento, mestra em Comunicação Social e uma das fundadoras do grupo Gênero, Mídia e Sexualidade (Gemis), esclarece que quando se é colocado sob suspeita a palavra de uma vítima LGBTs, os jornalistas reforçam uma norma que inferioriza minorias. “Quando se afirma ‘diz ter sido’, dá-se a entender que a vítima pode estar mentindo”, revela. Além disso, isso invisibiliza ainda mais a situação e ajuda a desacreditar nas vítimas.

Fernanda ressalta que isso não acontece apenas em casos de violência contra LGBTs. Essa construção se repete com relatos de mulheres, negros, indígenas e outras minorias. “São vozes que constantemente são deslegitimadas socialmente. A mídia contribui para isto ao desacreditar suas experiências”.

Valéria Houston mostra a marca que ficou após a agressão. Foto: Ana Carolina Lisboa

Transexual diz ter sido agredida. Valéria Houston, cantora de 36 anos, ficou chateada ao ler o título da matéria em um dos maiores portais de notícia do Brasil. A agressão, em setembro de 2015, aconteceu quando ela estava passeando com o namorado na Rua da República, na Cidade Baixa, um dos bairros mais conhecidos de Porto Alegre. Em certo momento, um homem os abordou, falou que eles eram aberrações e que tinham que morrer. Tirou uma chave de fenda da mochila e atacou Valéria pelas costas. O namorado dela também foi agredido com a ferramenta.

Mesmo com a rua lotada, ninguém se preocupou em ajudá-los. Valéria relembra que, após o ataque, o homem saiu caminhando normalmente. “Ele não correu. Saiu como se estivesse fazendo um favor para a sociedade”. Na Delegacia da Mulher foi recebida com bastante respeito e sensibilidade, exceto por um perito. Após analisar seu ferimento, perguntou: É só isso?

A imposição da sociedade para que as mulheres sejam extremamente femininas, que se maquiem e usem vestidos, também afeta as mulheres trans. “Não ser uma trans passável soa como uma agressão para outras pessoas”. Olhares nas ruas, comentários e a doença do cotovelo – como ela mesma chama, quando as pessoas ficam se cutucando na rua – não a abalam. Ela acredita que se levasse tudo a sério, não sairia mais de casa. “Pense comigo: e se trocássemos de direitos por um dia. Será que ainda assim nossas poucas conquistas seriam consideradas privilégios?”, questiona.

* Os nome foram alterados para preservar a identidade das vítimas

Texto: Kamylla Lemos
Foto: Ana Carolina Lisboa
 FONTE: Famecos/PUC-RS