Existe um padrão de Drag?

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Existe um padrão de Drag?

O Dicionário de Cambridge define o termo Drag, dentre outras coisas, como o ato de se vestir com roupas típicas do gênero oposto. Uma possível origem do substantivo vem lá do século 19, a partir do acrônimo “Dressed Ressembling A Girl” (Vestido como uma garota, em tradução livre), usado no meio teatral para designar atores do sexo masculino que interpretavam personagens femininos. Essa prática, porém, é muito mais antiga: já na Grécia Antiga, quando não era permitido às mulheres atuar, os homens assumiam também seus papéis, caracterizados como tal.

Ainda não se sabe ao certo quando esse termo começou a fazer parte do meio LGBT. Também não faltam hipóteses para explicar o porquê da escolha da palavra Queenpara acompanhá-lo. Mas, apesar da nebulosidade etimológica, o que não resta dúvidas é de que a expressão – e a profissão – Drag Queen está longe de ser algo recente. No Brasil, nos anos 90, ainda que a cena drag não fosse popular como hoje, alguns nomes já se destacavam, como, por exemplo, a memorável Vera Verão, personagem de Jorge Lafond e presença marcante em programas da televisão aberta. Enquanto isso, nos Estados Unidos, em 1994, RuPaul fazia história ao se tornar a primeira drag queen a estrelar um comercial para uma importante marca de cosméticos, promovendo o batom Viva Glam, da MAC.

E por falar em RuPaul, é justamente ela a idealizadora do programa que mais contribui para popularizar a cultura drag atualmente. Com 9 temporadas (11 se consideradas as duas do spin-off All Stars), RuPaul’s Drag Race é um dos reality shows de maior sucesso da televisão americana. Na recente premiação do Emmy, por exemplo, o programa acumulou 8 indicações e levou 3 prêmios para casa, incluindo o de “Melhor apresentador de reality ou programa de competição”. Além disso, seu conteúdo também é exportado para outros países, incluindo o Brasil: a 8° temporada foi inteiramente exibida pelo canal Comedy Central.

Desde a estreia do show em fevereiro de 2009, ao todo 113 drags já participaram da corrida pelo título de America’s Next Drag Super Star, exibindo ao longo da competição seus talentos e também uma grande variedade de estilos. Variedade essa que, entretanto, nem sempre foi bem recebida. Na sexta temporada, por exemplo, a participante Milk recebeu diversas críticas de algumas  competidoras, que julgavam sua estética pouco feminina para uma drag. Além disso, ao acrescentar uma barba postiça a um de seus looks, ela também não agradou aos jurados, que reprovaram duramente a escolha – interessante notar que na temporada seguinte um dos desfiles principais teve como requisito o uso de barbas falsas.

A ocorrência de episódios semelhantes no decorrer do programa deixou por muito tempo a impressão de que apenas um determinado estilo era aceitável e que o “diferente” não seria tolerado – ou não chegaria tão longe na competição, pelo menos. Situação curiosa e intrigante, para dizer o mínimo, já que drags com esse tipo de visual atraíram uma atenção bastante positiva do público, justamente pela singularidade de suas montações.

Acid Betty, Cheddar Gorgeous, Alma Negrot e Nina Codorna são exemplos de drags que não seguem um padrão e também não falham em transformar os próprios corpos em obras de arte. (Imagens: Instagram)

Felizmente, é possível notar uma maior aceitação da diversidade nas temporadas mais recentes, porém alguns questionamentos ainda permanecem: para começar, a que tipo de garota se refere o “Dressed Ressembling A Girl”? E por que um conceito tão limitador como o da feminilidade ainda é tão valorizado no mundo drag? Afinal, ao definir um modelo ideal de “feminino”, não apenas se contribui para a perpetuação de estereótipos de gênero, como também para a dupla exclusão de mulheres que não se encaixam nesse padrão e de artistas que preferem uma estética diferente. Uma drag habilidosa, porém distante dos ditos padrões, é “menos drag” do que uma que usa vestidos longos e apresenta silhueta curvilínea? Para ser uma drag queen talentosa é preciso mesmo se parecer com uma mulher? E por falar em mulher…

Queen? King? Faux?

Peppermint é uma drag queen de Nova York, participante da 9° temporada de Drag Race e a primeira a entrar no programa com sua transexualidade assumida (até então as participantes que se revelaram trans, como Carmen Carrera ou Monica Beverly Hillz, por exemplo, só o tinham feito durante ou após o fim da competição). No começo de julho, pouco depois da exibição da final da temporada, ela concedeu uma entrevista à revista Qx Magazine em que falou um pouco sobre sua transição e outros assuntos relativos à RPDR. Ao ser questionada sobre a presença de mulheres drags em futuras temporadas, ela afirmou achar a ideia fantástica: “[…] É curioso que se você perguntar à muitas das tradicionais drags homens quem é sua maior influência, a maioria vai dizer que é uma mulher. Mulheres sempre tiveram um papel importante e influenciaram drag: especialmente estrelas como Cher e Lady Gaga. Pessoas queers, homens trans e mulheres sempre contribuíram e deveriam ser todos incluídos. Drag é sobre ser mente aberta, livre de sexualidade e de gênero, mas apenas se você for um homem gay? Sério? [risos] Drag é muito maior e mais poderoso que um tipo de pessoa”.

O mesmo trecho foi publicado no Facebook dias depois pela fanpage All RuPaul, gerando um debate acalorado entre seus curtidores e dividindo opiniões. Alguns alegaram que a competição se tornaria injusta, já que, supostamente, as mulheres teriam mais “facilidade” na hora de se montar. Outros que também se mostraram contra, argumentaram, dentre outras coisas, que a inclusão se converteria em apropriação cultural e invasão de um dos poucos espaços de liberdade que os gays possuem.

Contudo, mulheres fazendo drag não é um fenômeno recente e muito menos uma tentativa de se aproveitar do hype de RuPaul’s Drag Race. Tanto é que elas possuem uma denominação exclusiva, podendo ser chamadas de Faux ou Bio Queen e estão no meio há quase tanto tempo quanto os homens gays, que o diga Elke Maravilha, que já nos anos 70 chamava atenção por seu visual. Além disso, há também uma segunda categoria, a de Drag Kings, em que as mulheres se caracterizam com figurinos que remetem ao masculino. Esse tipo de personificação, aliás, é muito mais bem recebida que a da Faux Queen, levando a crer que a inversão de papeis continua a ser um dos preceitos mais fortes do meio.

Quem disse que mulher não pode fazer drag? Peppermint, Palloma Maremoto, Creme Fatale e Vlada Vitrova estão aí para provar o contrário. (Imagens: Instagram)

Já a luta dessas mulheres para ter seu trabalho reconhecido, essa sim é mais recente. Exemplo disso é o Riot Queens, grupo formado no final de 2016 e atualmente composto por 10 mulheres drags brasileiras, que, em sua página no Facebook, se define como “um coletivo pensado por e para mulheres drag queens para falar sobre nossa jornada, nossos obstáculos no meio drag e reafirmar nossa arte”.  E, apesar de seu pouco tempo de existência, a iniciativa já se mostra forte e empenhada em mudar certos conservadorismos do meio através de uma militância que combina performances e um discurso empoderador. Afinal, seja como diversão ou trabalho, drag é, antes de tudo sobre liberdade: liberdade de ser, criar e expressar. Como diria RuPaul, now can I get a amen?

Texto: Gabriela Teixeira

Fonte: Jornalismo Júnior/USP