Evasão: quase metade dos universitários abandona curso

METODISTA
Dificuldades financeiras, falta de tempo e de identificação com a carreira estão entre os principais motivos
Evasão: quase metade dos  universitários  abandona curso
Sala de aula vazia simboliza os alto índice de evasão nas universidades brasileiras – Foto: João Fiasche/RRJ

Início de ano sempre lembra volta às aulas. Para os que conquistaram vaga em universidades, então, o momento costuma ser de euforia, especialmente depois de fases estressantes como o Exame Nacional do Nível Médio (Enem) e vestibulares. Mas nem sempre entrar em uma faculdade significa sair formado. Muita gente acaba abandonando o curso antes de terminar, compondo a chamada evasão universitária.
O último censo feito pelo INEP-MEC calcula a evasão universitária no período entre 2010 e 2014, ou seja, antes da forte recessão econômica que atingiu o país. Para aquele período foi constatada uma evasão de 49% do total de alunos matriculados em cursos superiores no Brasil, sendo esse índice de 53% entre estudantes de instituições privadas e 40% entre os de universidades públicas.
Thiago de Freitas, 18, deixou a faculdade de Análise e Desenvolvimento de Sistemas ainda no primeiro semestre. Duas semanas após o início do semestre letivo, na FATEC São Caetano, já estava muito atrasado com o conteúdo, o que prejudicou seu desempenho. Além disso, outro fator que obrigou Thiago a deixar a faculdade foi a indisponibilidade de tempo. “Eu trabalhava oito horas por dia em um shopping perto da faculdade, mas morava em Santo André. Não sobrava tempo para eu estudar e fazer os trabalhos”, afirma.
Para facilitar a logística, Thiago se mudou para São Caetano e foi morar sozinho. Mas mesmo estudando em uma faculdade gratuita, o alto custo de vida o fez desistir do curso em poucos meses. “Eu pagava sozinho aluguel, alimentação, internet e ainda tive que arcar com a condução, porque meu cartão de ônibus de meia tarifa não chegou até hoje. Não demorou muito para eu ficar sem dinheiro e ter que sair da faculdade”.
Sthevan Camargo, 19, também enfrentou a ausência de tempo e dificuldades financeiras. Ele trancou o curso de Educação Física na Universidade Metodista após o primeiro semestre, mas pretende retornar à faculdade assim que tiver oportunidade. “Mesmo com 50% de bolsa, estava difícil pagar a mensalidade sozinho. Além disso, eu trabalhava muito longe e precisava pegar sete conduções por dia”, conta.
Outra questão que tem provocado a desistência de estudantes universitários é a falta de identificação com o curso escolhido. Bruno Rigoni, 19, cursou um ano de direito na Faculdade de Direito de São Bernardo, mas decidiu deixar o curso ao perceber que não era a sua vocação. “Eu sempre quis direito porque gostava de história, mas sempre tive mais facilidade com as disciplinas exatas. Quando percebi que não era isso o que eu queria, eu poderia ter continuado ou tentar fazer outra coisa, e escolhi a segunda opção”.
Bruno alerta para a dificuldade de tomar uma decisão tão séria sobre sua carreira logo após o fim do Ensino Médio. “Quando eu escolhi minha faculdade eu tinha 17 anos. Eu era praticamente uma criança e a escolha é muito difícil nessa idade. E eu me senti muito pressionado, porque mesmo existindo muitas opções, parece que as únicas válidas são as mais conhecidas, como engenharia, direito e medicina”.
Para o professor doutor Roberto Chiachiri, titular da Cátedra Unesco de Comunicação da Universidade Metodista, os principais fatores que levam à evasão no ensino superior são a forte pressão que os jovens sofrem no período do vestibular e a falta de perspectiva profissional para grande parte deles, principalmente nesse período de crise econômica.
Chiachiri também identifica o Ensino Médio voltado intensamente para o vestibular como um fator decisivo para essa situação, uma vez que os alunos são o tempo todo treinados para passar nas provas, sem maiores preocupações com uma real absorção dos conteúdos importantes. “Muitas vezes, o aluno faz o Ensino Médio pensando apenas em passar no vestibular, acreditando que é a faculdade que vai ensinar tudo a ele, o que não acontece, de fato”.
Ainda segundo Chicahiri, a principal atitude para reduzir a evasão nas universidades brasileiras é a adoção de políticas públicas que fortaleçam o sistema educacional, priorizando o ensino básico. “Se, desde cedo, os estudantes brasileiros tiverem uma educação ética, honesta e firme, com investimento na infraestrutura das escolas e valorização dos professores, as taxas de evasão em universidades serão menores”.

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

Autor: João Fiasche

Fonte: Rudge Ramos Online/Metodista