Estudo sobre segurança na UnB revela fragilidade

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 48,4% da comunidade acadêmica se sente insegura nas dependências da universidade.

“Eu fico com muito medo aqui à noite”, conta Francine Carvalho, 22 anos, estudante de Letras Japonês. “É tudo escuro e quase não vejo seguranças”, complementa. A percepção de Francine não é um fator isolado. Essa é a realidade de aproximadamente 50 mil pessoas, dentre professores, alunos, técnicos e terceirizados, que frequentam diariamente os quatro campi da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo uma pesquisa desenvolvida pela Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social do Distrito Federal (SSP-DF), 48,4% da comunidade acadêmica se sente insegura na UnB. O estudo foi requisitado pela reitoria em 2017 e deve ganhar uma nova versão ainda este ano. Aproximadamente 3 mil pessoas nos 4 campi (Darcy Ribeiro, Gama, Ceilândia e Planaltina) responderam ao questionário que deu origem ao relatório nomeado Diagnóstico de Segurança da UnB. Dos participantes, 2400 eram alunos, 300 eram funcionários e 300 eram professores. Os resultados do estudo apresentaram propostas de soluções para os problemas da universidade.

Diagnóstico de Segurança

De acordo com o relatório, o tipo de crime com mais registros é o de furto a carros. Entretanto, segundo Marcelo Durante, um dos responsáveis pela pesquisa e subsecretário de Gestão da Informação na SSP-DF, os eventos mais recorrentes são crimes interpessoais  (assédio e discriminação), que não costumam ser reportados. “Muitas vezes a própria vítima acha que o caso não foi grave o bastante”, explica Allan Kássio, também participante do estudo. Das mais de 10 mil infrações ocorridas em 2017, apenas 1.313 foram denunciados às autoridades, tanto da Polícia Militar quanto da UnB.

Foram mapeados também os locais onde as pessoas, principalmente os estudantes, se sentem mais inseguros, denominados áreas críticas. No Darcy Ribeiro, este local é o subsolo do ICC, e, em segundo lugar, o caminho entre o ICC e a BCE. O trabalho propôs a criação dos “Caminhos Seguros”, que reforçam a iluminação nos lugares mais movimentados.

O principal problema encontrado, no entanto, é a gestão de comunicação entre as  entidades de segurança na UnB. “As informações chegam difusas. Algumas ocorrências só [são informadas] para a Polícia, outras só para a Segurança da UnB. É uma gestão desorganizada, não formalizada”, aponta Kássio. “No Conselho de Direitos Humanos da UnB, esta foi uma das razões levantadas para começar um trabalho de protocolo”, complementa. Além dos crimes, a baixa iluminação da área e a falta de vigilantes no local também são fatores que influenciam na sensação de insegurança da comunidade acadêmica.

Entre as soluções apresentadas pelo SSP-DF, estão a instalação de câmeras nos locais de maior incidência de casos de violência. Já foram colocados 30 equipamentos de vídeo no campus da Asa Norte, e serão acrescentadas mais 350 nas vias, entradas de alguns prédios e estacionamentos. No último, Durante sugere câmeras no nível de altura das pessoas, próximas aos carros. “O ladrão não quer ser visto. Se tem uma câmera na frente dele, ele se sente inseguro. Já perde a anonimidade”.

Não existem registros anteriores deste tipo de análise na UnB. Os dados obtidos foram comparados com os de pesquisas em outros locais e constatou-se, segundo Durante e Kássio, que as pessoas dentro dos campi da Universidade de Brasília se sentem mais inseguras do que aqueles que vivem ou estudam em outros locais. “A estatística do medo é maior que a estatística de violência”, comentam os pesquisadores sobre a situação da universidade e os crime não reportados.

“O medo é uma medição  subjetiva, e, no caso da UnB, medimos em diferentes contextos. Desordens — qualquer situação que desvie da normalidade — foram levadas em consideração: desde bebida alcóolica dentro do campus, que quase todo mundo percebe, até a presença de traficantes e pessoas armadas. É um conjunto de percepções.” explica Kássio sobre a metodologia.  “Positivamente, vimos menos desordens relacionadas à violência na UnB, mas muitas como uso excessivo de drogas, gritaria, música alta, lugares escuros. Tudo isso gera uma sensação de que o ambiente não é controlado, que não existe uma previsibilidade do que pode acontecer. Isso gera insegurança.”

Vigilância da UnB

Atualmente, a proteção da universidade é regida pela Diretoria de Segurança (Diseg), vinculada à Prefeitura da UnB. Para o trabalho, a Diseg recruta cerca de 550 funcionários, divididos entre servidores concursados e vigilantes e porteiros terceirizados. Eles trabalham em regime de escala, 24h por dia, atendendo as faculdades de Planaltina, Ceilândia, Gama, Fazenda Água Limpa e Darcy Ribeiro — que dispõe do efetivo superior aos demais, em número, por ser maior.

Todos os vigilantes são cadastrados na Polícia Federal e têm porte de armas. Porém, o uso de armamento não é permitido nas dependências da instituição: em casos de ocorrências criminais, a recomendação é que os agentes interrompam a ação e reportem à Central de Segurança do campus. Logo após, o episódio é registrado e, se necessário, a Polícia Militar ou o socorro médico são acionados.

Josué Guedes, chefe de segurança da Diseg, explica que, após o agravamento da crise orçamentária enfrentada pela universidade em 2018 — que gerou demissão de diversos funcionários terceirizados —, as equipes de segurança têm encontrado dificuldades para exercer a atividade. Antes, a UnB contava com cerca de 732 agentes de segurança. Agora, restam apenas 550 para toda a instituição. Um vigilante do campus Darcy Ribeiro, que prefere não se identificar, conta que as demissões o fizeram se sentir mais inseguro. “Hoje em dia a gente se sente amedrontado em trabalhar desarmado, principalmente com a livre circulação de pessoas e a redução de funcionários. A nossa arma aqui é a caneta”, afirma.

Apesar da quantidade reduzida de funcionários, Guedes garante: “Não houve um prejuízo no atendimento às ocorrências do campus”. Ele explica que a saída encontrada pela Diseg é a readequação das equipes à nova realidade da instituição. “Cada prédio tem uma característica: tem prédio com 6 portas, por exemplo. Não temos condições de colocar um vigilante em cada porta. A gente tem que ver a particularidade de cada local, indo de unidade em unidade para ver como pode se fazer a readequação”, conta.

Para melhorar a segurança da universidade, principalmente durante o momento de instabilidade orçamentária, a Diseg está seguindo as recomendações do Diagnóstico de Segurança da UnB. Além da instalação de câmeras, foram criados corredores no asfalto, pintados de vermelho, onde uma viatura fica posicionada em horários com maior fluxo de pessoas. “A presença da viatura ali dá aquela sensação de maior segurança”, relata Guedes. Também foi montado um comitê, formado pela Reitoria e Vice-reitoria, três decanatos, a Diretoria de Segurança e a Secretaria de Infraestrutura da universidade, para trabalhar na organização de um plano de segurança.

Apesar de todas as medidas tomadas pela Diseg, Guedes ressalta que a atuação dos estudantes e funcionários da UnB também é importante na prevenção de eventos criminosos. “É fundamental que se registre qualquer tipo de ocorrência para que a gente saiba que aconteceu”, pontua. Ele também chama a atenção para a falta de cuidado cotidiano. É comum ver pessoas dentro de veículos parados nos estacionamentos, carros com vidros abertos e portas destrancadas e indivíduos transitando em locais vazios e mal iluminados. “Uma tarde, cataloguei 16 carros com os vidros abertos”, lembra o vigilante que não quis se identificar.

Outro alerta deixado pelo diretor é para que toda a comunidade acadêmica tenha acesso aos números da central (3107-6222) e da supervisão de segurança (3107-5851) da universidade para registrar ocorrências e situações de perigo. “A gente visa a segurança de vocês e do patrimônio. O patrimônio são vocês, isso é o que é passado para a gente é isso”, afirmam os vigilantes.

Por Luísa Guimarães, Pollyana Fonseca e Rebeca Borges

Foto: Google Imagens

FONTE: UnB