Entre altos e baixos: a carreira de Lindsay Lohan

Adolescente revoltada. Jovem incompreendida. Novata do colégio. Esses foram alguns dos personagens que marcaram a carreira de Lindsay Lohan, uma das atrizes que, durante os anos 2000, era conhecida por muitos como “queridinha da América”. Ruiva e de pele marcada por sardas, a atriz fez sucesso ao protagonizar filmes que a colocavam como personagem impossível de não se identificar. Afinal, quem também não sofreu com dramas como pais nada compreensivos ou uma escola totalmente nova?

Lindsay, ou simplesmente Lilo, alcançou o sucesso e o centro das atenções muito nova e muito rápido, e esse cenário a colocou em situações delicadas que, com a superexposição aproveitada pela mídia, forçaram a atriz a se afastar dos holofotes e cuidar de sua saúde mental. Hoje, reconstruindo seu espaço na mídia aos poucos, Lindsay ainda é lembrada por sua carreira ao ter dado vida a papéis que até hoje carregam fãs e frases marcantes.

Lindsay Dee Lohan nasceu em Nova York, nos Estados Unidos, em 2 de julho de 1986. Filha da atriz e dançarina Dina Sullivan e do analista financeiro Michael Lohan, a garota tinha uma vida financeiramente estável antes de começar a trabalhar. Possui três irmãos mais novos – Michael, Ali e Cody Lohan – e dois meio-irmãos – Ashley e Landon.

Sua carreira artística começou muito cedo. Aos três anos, Lindsay já era modelo infantil e trabalhou para grandes nomes como Abercrombie Kids e Calvin Klein Jeans. Seu primeiro papel na televisão foi como Ali Fowler na série Another World entre os anos de 1996 e 1997.

Em 1998, Lindsay foi chamada pela Disney para protagonizar Operação Cupido (The Parent Trap, 1998). No filme, ela interpretou as gêmeas Annie James e Hallie Parker, que se conheciam em um acampamento de verão e trocavam de lugar para visitarem a outra parte da família, até então distante, e reaproximarem os pais divorciados. Com esse papel, a garota atraiu a atenção do público como promessa artística e ganhou prêmios como o Young Artist Awards, na categoria “melhor performance em um longa”. O jeito angelical, rosto de sardas e cabelo ruivo antecipavam uma carreira que só tendia a crescer. Lindsay começava a ser vista como queridinha da América.

Lindsay como as gêmeas Annie e Hallie em Operação Cupido [Imagem: Disney]Nos anos seguintes, a atriz continuou a estruturar sua carreira na Disney. Estrelou os longas A Boneca que Virou Gente (Life-Size, 2000), ao lado de Tyra Banks, e Seguindo as Pistas (Get a Clue, 2002). Em 2003, veio o segundo papel marcante de Lindsay: em Sexta-Feira Muito Louca (Freaky Friday, 2003), ela interpretou Anna Coleman, uma garota aspirante a estrela de rock que enfrenta dilemas típicos da adolescência. Seu relacionamento com a mãe Tess (Jamie Lee Curtis) era complicado, sua paixão do colégio era desaprovada pela família e seu grupo de amizades passava por momentos conturbados. Em uma noite, após discutir com a mãe em um restaurante chinês, as duas recebem da dona do local um biscoito da sorte. Após comê-lo, mãe e filha trocam de corpo e a partir de então, passam a ter que entender como a vida da outra funciona.

Com esse filme, Lindsay caminhava para o auge de sua carreira ao levar às telas a representação da adolescente dos anos 2000: confusa e aprendendo a estar confortável em sua própria pele. Vê-la atuar significava enxergar em suas personagens dilemas e situações que muitas vezes faziam as garotas jovens se sentirem sozinhas e incompreendidas.

Sexta-Feira Muito Louca rendeu à atriz o prêmio de melhor revelação feminina no MTV Movie Awards, além dos primeiros passos em sua carreira musical, participando da trilha sonora do filme.

Em 2004, Lohan interpretou Lola em Confissões de uma Adolescente em Crise (Confessions of a Teenage Drama Queen, 2004). Mesmo não sendo um trabalho tão marcante em sua carreira, o filme também carrega muito da imagem de Lindsay como garota tentando buscar seu lugar no mundo. No longa, ela também deu voz a quatro músicas, incluindo a música-tema That Girl (Drama Queen).

Esse, porém, não foi o único trabalho dela naquele ano. Além de ter participado de That ‘70s Show e lançado o álbum Speak, que alcançou a quarta posição na Billboard 200 e recebeu o certificado de disco de platina, Lindsay interpretou aquele que seria o papel mais marcante de sua carreira – Cady Heron em Meninas Malvadas (Mean Girls, 2004).

Meninas Malvadas marcou época e é referência até hoje na cultura pop [Imagem: Paramount Pictures]Seu primeiro filme fora da Disney consagrou a carreira da atriz como uma das mais marcantes dos anos 2000. Em Meninas Malvadas, Lindsay era a garota novata boazinha em um colégio aterrorizado pelas Plastics, lideradas pela cruel Regina George (Rachel McAdams). Ao ser convidada para sentar com elas no almoço, Cady decide aproveitar a oportunidade para se infiltrar no grupo e assim descobrir segredos das Plastics, mas acaba tomando o lugar de Regina conforme vai destruindo com a reputação da “abelha-rainha” do grupo.

Essa é a síntese dos filmes adolescentes da época: a menina dedicada que chega para desestabilizar o colégio amedrontado por um grupo de garotas nada simpáticas. Em um ambiente marcado por grupos que disputam o espaço e a relevância do colégio, temas como popularidade, falsidade e superficialidade são abordados em uma sátira dos típicos adolescentes estadunidenses. A maior marca do longa está, porém, na reflexão desenvolvida sobre rivalidade feminina. Com a constante cobrança em ser “a melhor do colégio”, muitas garotas acabam se submetendo a serem pessoas que não são e dedicando suas vidas a tentarem se provar como perfeitas, em uma sociedade que as lembra constantemente que nenhuma garota é bonita, inteligente ou querida o suficiente.

Mesmo tendo sido lançado há 15 anos, Meninas Malvadas é um poço de referências na cultura pop até hoje. Desde bordões clássicos como you can’t sit with us (você não pode sentar com a gente) ou on wednesdays we wear pink (nas quartas-feiras usamos rosa) e datas marcantes – “em 3 de outubro, ele me perguntou que dia era” –, até nas cenas e figurinos icônicos, como a fantasia de coelhinho de Regina e a clássica apresentação de fim de ano das Plastics, o filme permanece como um dos queridos dos jovens dos anos 2000 e 2010. Recentemente, a cantora Ariana Grande reproduziu a dança de Jingle Bell Rock em seu clipe thank u, next, mostrando que o legado de Meninas Malvadas continua vivo.

Nos anos seguintes, Lindsay continuou estrelando filmes adolescentes como Herbie – Meu Fusca Turbinado (Herbie: Fully Loaded, 2005) e Sorte no Amor (Just My Luck, 2006), além de lançar A Little More Personal (Raw), seu segundo álbum de estúdio.

Em 2006, ela participou de Bobby (2006), seu primeiro filme para o público mais adulto. Foi nesse mesmo ano que a vida pessoal de Lindsay passou a ser tema de revistas de fofoca e especulações. Em entrevista à Vanity Fair, ela revelou que já havia usado drogas e enfrentava a bulimia. Na época, a atriz ainda possuía contrato com a Disney, o que desestabilizou a imagem de “queridinha da América” até então sustentada por seus trabalhos. Entre escândalos em festas e brigas com pessoas influentes, a imagem de Lindsay era altamente discutida na mídia. No período de gravações do filme Ela É a Poderosa (Georgia Rule, 2007), ela foi criticada pela produtora por conta dos constantes atrasos e faltas. Naquele mesmo ano, são confirmados os boatos de que Lindsay estava enfrentando problemas com álcool. Ela começara a participar de reuniões dos Alcoólatras Anônimos e esperava conseguir prosseguir com sua carreira no cinema.

Capítulo 27 – O Assassinato de John Lennon (Chapter 27, 2007), Ela É a Poderosa (Georgia Rule, 2007) e Eu Sei Quem Me Matou (I Know Who Killed Me, 2007) foram os trabalhos seguintes de Lindsay. Os três foram recebidos negativamente pela crítica, o que abalou a carreira da atriz.

Em 2007, ela se internou mais de uma vez em uma clínica de reabilitação para curar o vício em álcool e drogas. A mídia promovia uma cobertura constante de sua vida, flagrando momentos de recaída da atriz. Os maiores escândalos de Lindsay estavam relacionados a dirigir alcoolizada, fato que ocorrera três vezes. Nos dois primeiros flagrantes, Lindsay foi liberada pela polícia sob pagamento de fiança, até que na terceira vez ela mesma se entregou, tendo que realizar serviços comunitários e participar de um programa de reabilitação determinado pela Justiça. Todos esses altos e baixos rendiam manchetes e fotos em revistas que colocavam Lindsay como uma jovem que havia perdido o rumo e se mostrava cada vez mais distante de conseguir dar a volta por cima. A pressão midiática acabava, dia após dia, com sua saúde mental.

Além da mídia, a própria família colaborava com a visão negativa da vida da atriz. Em 2008, após ela assumir relacionamento com a DJ Samantha Ronson, o pai de Lindsay fez uma série de declarações homofóbicas sobre a namorada da filha, que era, naquele momento, a única influência positiva na vida da atriz. O fim do namoro a fez voltar ao vício em álcool e o pai dava constantemente declarações que alimentavam a imagem problemática de Lindsay. Em 2009, ela recebeu uma ordem de prisão por ter dirigido embriagada dois anos antes, mas trocou a pena por programas de reabilitação. Meses depois, foi condenada a um ano de liberdade condicional por não cumprir os programas estabelecidos. Sua carreira parecia estar cada vez mais distante, atuando em Meu Trabalho É um Parto (Labor Pains, 2009) e Machete (2010).

No ano seguinte, ao faltar diversas vezes às audiências para julgar o pedido de prisão em 2007, Lohan teve sua prisão decretada, a qual pagou fiança, porém foi obrigada a usar uma tornozeleira eletrônica que avisava à Justiça caso houvesse abuso de álcool. Pouco tempo depois, sua prisão foi decretada mais uma vez, nesse momento por ter violado sua condicional.

Lindsay durante julgamento em 2010 [Imagem: Getty Images/VEJA]A atriz foi condenada a 90 dias de prisão e sua advogada promoveu uma discussão sobre a fama de Lindsay, cuja prisão parecia ser utilizada como exemplo sobre as consequências do abuso de substâncias. Lindsay acabou realizando um tratamento de reabilitação por ordem da Justiça, mas por não ter sido aprovada no exame antidrogas, que era parte de sua condicional, foi condenada à prisão mais uma vez, saindo sob pagamento de fiança.

Nos anos seguintes, outros escândalos com o seu nome foram assunto em revistas de fofoca, entre eles o roubo de um colar, o atropelamento de uma pessoa, a agressão de uma “fã”, um relacionamento abusivo e problemas com impostos. Atuou em Liz & Dick (2012), Totalmente Inapropriado (InAPPropriate Comedy, 2012) e Vale do Pecado (The Canyons, 2013), além de fazer uma ponta em Todo Mundo em Pânico 5 (Scary Movie 5, 2013) e nas séries Anger Management Eastbound & Down.

Aos poucos, foi tentando reconstruir sua carreira. Em 2014, lançou o seu próprio reality, Lindsay, no qual falava sobre sua luta contra o vício e atuou na série 2 Broke Girls. Em 2018, participou da série britânica Sick Note e apareceu na premiação MTV Europe Music Awards apresentando uma categoria. Já em 2019, além de assinar com a gravadora Casablanca Records, ela lançou um reality na MTV chamado Lindsay Lohan’s Beach Club.

Lilo é a representação do que a fama precoce e as más influências podem resultar na vida de uma pessoa despreparada afetiva e psicologicamente. Mesmo com uma carreira promissora, uma série de decisões erradas colocaram a perder a relevância que o nome de Lindsay tinha no cinema e na televisão. O que anima, porém, é saber que, em poucos trabalhos, Lilo foi capaz de marcar uma época ao levar às telas um sentimento tão complicado, mas comum: o turbilhão de emoções tipicamente adolescente, que faz parte de qualquer geração.

Autora: Maria Luísa Bassan

Fonte: Jornalismo Júnior/USP