Entenda a ‘fadiga de Zoom’, fenômeno causado pelas chamadas de vídeo em excesso

Pouco mais de 42% dos alunos brasileiros apresentam elevado cansaço após aulas virtuais, revela estudo.

As chamadas de vídeo realizadas pelas mais variadas plataformas têm sido um recurso cada vez mais utilizado para manter a comunicação durante o período de isolamento social provocado pela pandemia. Apesar das facilidades promovidas pelas reuniões virtuais, há determinados grupos que tendem a passar grandes períodos de tempo diariamente em frente à tela do computador, o que pode ocasionar problemas de saúde.  

Para investigar possíveis danos causados pela rotina de videoconferências, a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, desenvolveu um estudo com a participação de pouco mais de 600 brasileiros, publicado em 14 de maio deste ano, em que destrincha o fenômeno chamado de “fadiga de Zoom”. O público avaliado envolveu estudantes do Ensino Superior e trabalhadores que necessitam dessa ferramenta para realizar o home office. 

O método utilizado pelo estudo foi um questionário contendo 15 perguntas, que abordaram o desgaste provocado pelas chamadas de vídeo, o quanto a exposição à tela prejudicou a visão dos participantes, como essa rotina impacta nas relações sociais, no controle emocional e na motivação. Para avaliar as respostas, foi utilizada uma escala de 1 a 5, que indicava a fadiga dos participantes em cada um dos aspectos analisados. 

Entre os resultados, destaca-se que aproximadamente 25% das mulheres apresentaram elevado nível de fadiga, enquanto nos homens o percentual cai para 8,5%. Além disso, os dados apontam que pouco mais de 18% dos entrevistados atingiram o nível máximo de desgaste gerado pela rotina de chamadas de vídeo.  

Enquanto aproximadamente 15% dos trabalhadores que realizam reuniões virtuais relataram bastante cansaço gerado pelas videoconferências, entre os estudantes a análise revelou que pouco mais de 42% dos alunos apresentam elevado grau de fadiga. Na comparação entre os dois grupos, a média das respostas dos estudantes indicou desgaste de 16,7% maior que dados colhidos entre os trabalhadores. 

Motivações para a realização do estudo 

A estudante de Fisioterapia Cibele Sousa, 22, moradora de São Bernardo, faz parte dos alunos brasileiros que sentiram o impacto da rotina exaustiva de chamadas de vídeo. “Precisei faltar em algumas aulas nesse modelo à distância por não conseguir suportar ficar ainda mais horas no computador.” Outro aspecto no qual a estudante se encaixa é que a chamada fadiga de Zoom afetou a motivação para assistir às aulas, especialmente com a redução de tarefas práticas em decorrência das medidas de isolamento social provocadas pela pandemia.  

Os efeitos também foram percebidos na visão da jovem. “Reparei que nos últimos meses tenho sentido muita dor de cabeça quase todos os dias e, por usar óculos, percebo que o grau atual não é mais suficiente.” 

Antes de realizar uma pesquisa sobre o efeito da fadiga de Zoom na sociedade brasileira, a Universidade de Stanford já havia publicado em março deste ano um estudo com o mesmo tema voltado à população dos Estados Unidos. Entre os integrantes da primeira publicação, está a pesquisadora brasileira Anna Carolina Queiroz, que trabalha na Universidade de Stanford, em projetos relacionados ao uso de tecnologias na educação estadunidense, latino-americana e europeia, sendo responsável pela análise desse fenômeno no Brasil. 

Os resultados obtidos pelo estudo com brasileiros revelaram que a situação de estudantes e trabalhadores é parecida com pessoas que moram nos Estados Unidos e apresentam rotina desgastante por conta das chamadas de vídeo. Apesar disso, a pesquisadora destaca novos elementos descobertos pela análise da população brasileira. “Vimos que no Brasil há também a correlação entre a duração, quantidade e proximidade das sessões de videoconferência com o cansaço.” Além disso, os novos dados permitiram concluir que os jovens têm mais sensibilidade à fadiga de Zoom que pessoas mais velhas. 

Por que mulheres apresentam maior fadiga 

De acordo com a especialista, o chamado “efeito espelho”, quando as pessoas ficam vendo o próprio vídeo o tempo inteiro durante as chamadas, costuma ser mais percebido entre pessoas do sexo feminino. “Estudos mostram que as mulheres reportam mais sentimentos negativos, como ansiedade e depressão, ao assistirem ao próprio vídeo”, afirma Ana Carolina. 

Dessa forma, foi possível notar a influência desse efeito nos resultados que demonstraram maior impacto da rotina de videoconferências constantes nas brasileiras. “O fato de as mulheres terem reações mais negativas do que os homens em relação ao próprio vídeo contribui para o aumento do cansaço”, acrescenta a pesquisadora. 

Para que atividades possam ser melhor executadas em plataformas que hospedam reuniões virtuais, mesmo em um período posterior à pandemia é necessário encontrar alternativas que evitem o cansaço excessivo de trabalhadores e estudantes.  

Visando potencializar o aprendizado, a pesquisadora cita iniciativas de alguns profissionais da área da educação que ajudam a manter a motivação dos alunos em aulas à distância. “O uso de chamadas de vídeo por telefone, entregar material físico na casa de alunos distantes e disponibilizar uma biblioteca digital de vídeos e materiais educacionais que pode ser acessada a qualquer momento e do celular.”  

Apesar disso, apenas as ações individuais realizadas pelos educadores não são suficientes para que o processo educativo à distância seja eficiente, relata a especialista. “Pensando no futuro da educação global, é fundamental que haja maior participação das instituições e governos nas reflexões acerca dessas mudanças e no suporte à comunidade educacional”. 

Já no ambiente de trabalho, o maior uso das videoconferências durante a pandemia abriu uma possibilidade vista como positiva por parte da população mundial, comenta a pesquisadora. “Diversas pesquisas no mundo todo estão indicando que em média 40% das pessoas pediriam demissão se tivessem que voltar a trabalhar 100% do tempo no escritório.” De acordo com a especialista, há uma busca entre o que se tinha antes da pandemia e as alternativas utilizadas atualmente, o que pode popularizar o ambiente híbrido de trabalho.

Autor: Mateus Bertole.

Fonte: Metodista.