Em São Paulo, projeto “Fique Vivo!” cuida da saúde mental da população de rua

O projeto de extensão da universidade Mackenzie, “fique vivo!”, surgiu em 2017 e realiza um trabalho de promoção da saúde mental aos moradores de rua.

“A Cracolândia é um organismo vivo, que muitos querem que desapareça e que sofre os efeitos da humilhação e da violência. Conheci um jovem de uns 26 ou 27 anos que estava há três dias acordado. Quando ele veio conversar comigo, estava muito angustiado. Ele se sentia muito sujo, olhava pra unha dele e se achava nojento, se perguntava como ele ia voltar pra casa magro como estava. Isso foi um exemplo muito claro da humilhação e invisibilidade dessas pessoas” – João Paulo Bejega, 28 anos, voluntário do projeto e aluno de psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Fique Vivo!

O projeto foi criado com o objetivo de dar um suporte psicológico para as pessoas que iam ter a habitação desapropriada na região da Luz, bairro do centro de São Paulo. No começo eram três professoras de psicologia responsáveis, agora duas se mantém na coordenação do projeto, Dra. Maria Aparecida Fernandes Martin e Ms. Mariana Luzia Aron. “No início, realizávamos apenas o mapeamento das pessoas em relação ao lugar”, conta Aron, 43 anos.

Apesar disso, a ideia inicial passou por muitas mudanças e acarretou em um novo processo: atender as pessoas que ficam nas ruassendo a maior parte delas usuárias de crack e álcool.

Contudo, o projeto não ocorre diretamente pela universidade, se trata de uma extensão. É realizado pelo Laboratório de Estudos da Violência e Vulnerabilidade (LEVV), que está situado no serviço-escola do Mackenzie. O aluno participante tem uma flexibilidade de horários, alguns vão uma vez a cada 15 dias, outros uma vez a cada três semanas.

“Tem gente que sai de um semestre para outro, tem gente que se forma, tem gente que começa a participar e desiste. Mesmo assim, o número de membros cresceu muito. Tem um psicólogo, o Tainner, que se formou no Mackenzie quando não tinha o ‘Fique Vivo!’, então ele sempre aparece como um convidado”, conta João Paulo. Tainner está no projeto desde seu início, em 2017, atuando tanto na concepção quanto na realização das tarefas.

A atuação

Além disso, a professora Mariana Luzia Aron também afirma que o projeto não é relevante apenas para quem é ajudado por ele, mas também para quem o pratica.

“É interessante também para quebrar essa psicologia elitista, a gente não espera a pessoa vir até nós, vamos até ela nas condições que tem: na rua, em pé, na calçada. É um atendimento psicossocial. No começo era só uma conversa, mas agora nós fazemos algumas ações de âmbito social como a arrecadação de sabonetes”, diz Aron.

De acordo com João Paulo,  o processo básico da  psicologia é baseado em diálogo e, para que isso ocorra, é necessário que as mínimas condições de dignidade estejam em dia, como higiene básica, alimentos e água. Assim, após a distribuição de insumos, é possível avançar e usar materiais que entram no nicho psicológico e apoiam o atendimento, como dominó, dama, lápis de cor, borracha, livros de contos e para colorir. Isso ajuda na aproximação e na dinâmica, pois nesses livros as pessoas também escrevem poemas e agradecimentos, além de nome, idade e a data.

“Entramos em contato com muitas pessoas, as vezes pegamos o nome, conversamos e depois nunca mais a gente vê. Ao mesmo tempo, tem uma galera que acompanhamos por vários meses. O que a gente observa, é que tem um pessoal que está sempre no território e vem até a gente, e tem uma turma que aparece, toma uma água ou pega uma roupa, agradece e vai embora. Não tem como controlar”, conta João.

Ele também explica que é importante realizar anotações e manter um banco de dados, já que há um grande índice de migrações por parte da população em situação de rua. Com isso, é possível encontrar demandas comuns, o que dá uma ideia de como agir e enxergar o fenômeno em sua complexidade.

“A cartografia está em constante mudança. O morar na rua é algo migratório, você não fica fixo em uma única rua. Já encontramos na Paulista pessoas que conhecemos na Luz. Uma pessoa em situação de rua hoje dorme em um lugar, amanhã em outro e, no dia seguinte, é encontrada morta em outro”, explica o voluntário.

É importante ressaltar  que o projeto não desempenha um papel assistencialista, mas se trata de uma experiência, cujo intuito é promover a saúde mental.

“A prevenção ao suicídio é algo global. Nos voltamos muito ao adoecimento orgânico e esquecemos do mental e psicológico. Não há como falar em saúde mental sem pensar em dignidade social ou discutir questões emocionais quando nem o acesso ao básico ocorre”, completa João Paulo.

Na pandemia

Durante esse período, o projeto sofreu fortes impactos e mudou a sua atuação. Além disso, a saúde, que já era precária, foi agravada nesse contexto.

“Levantamos dinheiro para distribuir máscaras e álcool em gel. Mesmo assim, o empírico, o ‘estar lá’ e o ‘olho no olho’ fazem falta. Estamos sem perspectiva de volta. A atuação como fazíamos antes só poderá voltar com algo concreto caso haja a vacina ou altos índices de imunização”, finaliza João Paulo.

Durante a pandemia, o Mackenzie suspendeu as aulas presenciais e as atividades extracurriculares. E, devido ao vínculo com a universidade, a ida dos alunos ao “Fique Vivo!” também está suspensa. “Nós pretendemos voltar. A base do projeto é estar lá com as pessoas e para as pessoas”, conclui a professora Aron.

O projeto “Fique Vivo!” pode ser encontrado no Instagram e também no Facebook.

Autoras: Maria Cunha e Marina Galiotte.

Fonte: Cásper Líbero.