Em busca de justiça pelas vítimas da Rota

Uma investigação dentro da polícia que assassinava inocentes sem consequência alguma

“Rota 66, a história da polícia que mata” é uma obra escrita pelo jornalista gaúcho Caco Barcellos, que o rendeu lhe Prêmio Jabuti em 1993, na categoria Reportagem. O autor passou sete anos investigando a Polícia Militar de São Paulo e apurando seus casos, e assim, conseguiu descobrir mais de quatro mil vítimas da polícia entre 1970 e 1992. Como um bom apurador, conseguiu informações de documentos do IML e de cartórios, além de ir até os hospitais e delegacias da região. Dentre essas mortes, a maioria eram inocentes ou suspeitos que não possuíam ficha criminal.

O livro é dividido em três partes. Na primeira, chamada “Rota 66”, tem como foco a perseguição de três adolescentes de classe média alta de São Paulo. Caco relata que achou estranho a PM ir atrás deles, porque a Rota foi criada para combater guerrilheiros e caçar criminosos pobres, portanto os perseguidos não eram o alvo usual deles. O autor também conta que dezenas de perseguições aconteceram na Rota, porém, a dos três adolescentes foi uma das únicas a parar em quase todos jornais do país, por causa da condição social deles. Apesar de serem ricos, o caso acabou em tragédia. Durante a perseguição foram disparados alguns tiros, mas foi quando o fusca azul bateu em um poste que cinco policiais metralharam os garotos, sem nenhuma piedade. No decorrer dos capítulos é apresentada a vida normal que os adolescentes tinham, e que na madrugada do acontecimento, eles só queriam se aventurar e furtar o toca-fitas de um amigo.         

Na segunda parte, “os Matadores”, Caco relata meticulosamente como as vítimas eram mortas e como os policiais as levavam para os hospitais. Caco chegou a ficar de plantão na porta do IML. Esperava se misturar com os familiares de vítimas de tiroteios envolvidos com PMs da Rota para, assim, saber o que aconteceu pelo ponto de vista deles.

Wagner Bossato, mecânico de motos desempregado, tinha tido uma discussão com o dono de um bar por causa de bebida. O problema é que esse dono era relacionado com a polícia, que o protegia. Logo depois do desentendimento, Bossato já estava sendo procurado por um cabo e dois soldados, que o seguiram até em casa. O diálogo é forte:

“ – Calma, meu filho, eles só querem prender você.

– Rota não prende, mãe. Rota só mata. Eles vieram me matar.”

A mãe tenta abraçá-lo enquanto o cabo atirava contra ele. Atirou muitas vezes, mesmo o homem já estando morto. Depois, avisou aos seus colegas que o cidadão estava ferido e eles precisavam socorrê-lo.

Esse ato não aconteceu uma ou duas vezes, mas centenas. Mesmo com as pessoas já mortas, os policiais da Rota insistiam em levá-las para os hospitais pois, assim, conseguiam justificar que ainda tentaram ajudá-las de algum jeito.

Outro ato deste caso que se repetia era na hora de registrar o crime. Como culpado pela morte, se registrava o nome do próprio morto. E a justificativa do fuzilamento era preenchida como “resistência à prisão”. Foi assim no caso dos três jovens. Tanto eles quanto Bossato foram culpados de suas próprias mortes.

Os policiais da Rota eram agressivos, faziam depoimentos que não condiziam com a verdade e matavam por matar, principalmente pobres. Para eles, os pobres eram ladrões, e todos os ladrões deveriam morrer.

A terceira e última parte, chamada “Os Inocentes”, mostra as vítimas dos policiais, e como eles matam sem nem saber quem são elas.

Nos capítulos finais o leitor se depara com uma surpresa: a polícia matou um amigo do Caco Barcellos.

Caco estava na sede da Rede Globo, e um desconhecido liga falando que seu amigo morreu. Imediatamente, ele vai ao necrotério do hospital para saber quem era e o que aconteceu. O caso sucedeu como os outros citados anteriormente. PMs da Rota envolvidos, fuzilamento e a culpa era do morto.

Caco passou a noite e a madrugada investigando tudo possível e indo atrás das testemunhas para entrevistá-las. Assim, soube das últimas palavras de seu amigo:“Pelo amor de Deus, não me mate, eu tenho uma filha para criar!” Depois deste apelo desesperado, levou sete tiros. Cinco deles no coração.

É nítido que o único objetivo da Rota era matar. Foram mais de quatro mil mortes e a Polícia Militar não levou culpa de nenhuma delas. A narrativa é bem descritiva, faz o leitor se sentir ao lado do próprio autor durante as investigações e os acontecimentos. É impossível terminar o livro e não se emocionar.

Rota 66 foi publicado inicialmente em 1992 pela editora Record, tem 350 páginas e custa, em média, R$30,00.

Autora:Bruna Portella.

Foto: Bruna Portella.

Fonte: PUC-RS.