Elas também estão presas. Mas do lado de fora

Mulheres que visitam a Cadeia Pública de Porto Alegre carregam histórias de dor, resignação e esperança

A maior população carcerária do Rio Grande do Sul se encontra na Cadeia Pública de Porto Alegre, o antigo Presídio Central. São 4.423 presos que vivem amontoados em um espaço com capacidade para quase 2 mil detentos. Muitos deles recebem, todas as semanas, centenas de visitas – mulheres, em sua maioria. São mães, irmãs, esposas, filhas, namoradas, enteadas e avós, que, a partir da prisão de familiares, se viram forçadas a reconstruir suas próprias vidas. 

O Presídio Central de Porto Alegre foi construído em 1959 para albergar 700 presos. Palco de inúmeras rebeliões, motins e fugas, passou a ser administrado na década de 1990 pela Brigada Militar. Em 2011, reformado e com uma capacidade de engenharia de 1.986 presos, chegou a receber 5.300 homens. Hoje, por força de ordem judicial, não pode albergar mais do que 4.650 pessoas. Na frieza dos números, atualmente ainda há lugar para 227 novos presos. 

Andressa, de 25 anos, tem um irmão preso na Cadeia Pública de Porto Alegre. Bianca, de 22, também. Andressa e Bianca não se conheciam. Tampouco sabiam que os respectivos irmãos eram amigos desde antes de serem detentos. Os dois foram presos em agosto deste ano. De tanto visitarem os irmãos-amigos, Andressa e Bianca se tornaram inseparáveis. Às terças e aos sábados, as vizinhas na Zona Norte da Capital passam o dia juntas.  De uma hora para outra, as quatro vidas se entrelaçaram. Duas vidas presas. Duas vidas livres. Mas todas ligadas pela resiliência, pela solidariedade, pelo amor e por histórias parecidas.

Observando a rotina da penitenciária, descobriram que o horário do meio-dia é o mais tranquilo para visitar os irmãos. Nessa hora, não precisam passar pela extensa fila da manhã. Para Andressa, visitar alguém encarcerado não é novidade. O ex-marido já havia sido preso. Em uma conversa tranquila, mostra-se familiarizada com a situação. Mas admite cansaço de estar ali novamente. Há pouco mais de um mês ela visita o irmão no presídio. Sai de casa nos dias de visita entre 9h e 10h para poder chegar à Cadeia Pública ao meio-dia. Às 16h20min, se despede do irmão. É mais ou menos o momento que os agentes começam a anunciar o fim do horário de visitas, pontualmente às 17h. 

Quando deixa o irmão do lado de dentro, Andressa, aqui fora, luta com dificuldades. Desempregada, é sustentada pela mãe, que trabalha como empregada doméstica. Parte do dinheiro, que não é muito, precisa chegar também ao irmão encarcerado. No primeiro dia de visita da semana é permitido entrar com até R$ 90. No segundo, com até R$ 100. A família, sem condições financeiras para manter esse custo semanal, consegue levar uma quantia entre R$ 10 e R$ 30, segundo ela, para que ele possa comprar algo extra durante a semana, como refrigerante, que custa R$ 10, no refeitório. Com o que ele recebe de comida e dinheiro, acaba não precisando comer do panelão – a refeição preparada na própria cozinha da penitenciária e que é comum a todos os apenados. Se Andressa não visita o irmão, ele fica sem dinheiro. “Essa não é uma opção. Eu nunca deixarei de vir.”

Com a rotina de envolvimento com o irmão na penitenciária e apenas o Ensino Fundamental completo, as chances de conseguir um trabalho diminuem. Andressa era cuidadora de crianças. Hoje, virou cuidadora do irmão de 21 anos. Para poder arcar com os custos da visita e o advogado particular, a mãe, que recebe um salário de R$ 998 e mais uma pequena ajuda financeira da chefe, acaba por gastar grande parte do que recebe com o filho. Apenas nas terças-feiras, o gasto é, em média, de R$ 200 – cerca de R$ 20 só para pagar as passagens de quatro ônibus. Sincera e conformada, Andressa sabe que esse ritual se estenderá por muito tempo ainda. “Ele não vai mudar”, prevê, indiferente.   

Bianca parece mais otimista. Acredita e reforça a vontade de que o irmão saia dessa situação, que a partir de agora aprenda com os erros para que eles não se repitam. A irmã veio de Chapecó, Santa Catarina, só para poder ajudar o irmão que está em prisão provisória – período em que está à espera de julgamento do processo judicial – preso pela Lei Maria da Penha. Também com apenas o Ensino Fundamental completo, ela teve de largar o trabalho como babá. Cuidava de cinco crianças. O salário de R$ 500 era usado para o próprio sustento. A mãe mora em Torres. Com a vida de cabeça para baixo, Bianca, agora, mora com o avô, em Porto Alegre. Por conta da prisão do irmão, perdeu a sua individualidade e uma relação amorosa de seis anos. Para doar todo o tempo ao irmão, Bianca viu sua vida desmoronar.  

“Eu me apavorei na primeira vez em que vim ao presídio”, admite Bianca, lembrando dos alertas feitos por uma defensora pública do Estado. Amedrontada, imaginou que a situação seria até mais violenta e que a revista seria muito mais invasiva. “Achei que teria que me despir na frente de todas as outras mulheres.” Ela conta que a revista acontece em uma sala onde só passa pela inspeção íntima, de 10 em 10 mulheres, com a presença de uma agente penitenciária. 

No fim do encontro, ao cruzarem pelo pátio da Cadeia Pública, os presos são ordenados a ficar de costas para que a identidade das visitantes, durante a saída, seja preservada. Mesmo alimentada pela esperança, depois de rever o irmão, Bianca acende um cigarro em frente à penitenciária e suspira. Ao relembrar a situação do mais novo e toda mudança de rotina, a jovem fica em silêncio. Reflete. Demora alguns minutos para admitir que estar ali não é – nem nunca será – uma tarefa fácil. 

A dor de duas mães

As visitas acontecem três vezes por semana, às terças, quartas e sábados, com início às 6h. Para conseguirem estar nesse horário na Vila João Pessoa, bairro onde se encontra a Cadeia Pública, mulheres de diferentes idades madrugam para dar conta de organizar, ainda em casa, os 10 mantimentos que podem entregar ao parente preso. São muitas as restrições para a entrada de mantimentos, levadas no sacolão, como é chamado pelas visitantes. Às terças e quartas, além de roupas e produtos de higiene, é permitido entrar com um único pote de comida. Aos sábados, é possível entrar com um pote extra, de sobremesa. 

Em uma terça-feira quente, Suely, já perto dos 70 anos de idade, visita o filho, preso havia cerca de um mês e meio por envolvimento com o tráfico. Sentada em frente ao presídio, ela segurava, desolada, um pote com bolo. Ainda com pouca experiência sobre o que é e o que não é permitido entregar aos parentes, a mãe estava triste por não ter conseguido deixar o agrado para o caçula. Sem saber como voltar para casa, em Viamão, aguardava ajuda do outro filho. 

Com 78 anos recém-completados em setembro, Iracema, como a personagem de  José de Alencar, traz uma história igualmente triste e bela. Com o filho preso há cinco anos por envolvimento com o tráfico de drogas, a mãe relembra os bons momentos vividos em família. Os almoços de domingo, os jantares de final de semana, a união de filhos e netos. Mas há meia década sempre falta um. Iracema defende a bondade do filho. Apegada à fé em seu Deus, mostra-se esperançosa com uma liberdade breve. “A gente paga pelo o que faz… A dor ensina a gemer”, filosofa o que lhe vem à cabeça.

Acostumada com o procedimento de revistas, usa a mesma roupa durante todos os anos de visitas. Costurou o próprio sutiã para que não houvesse mais problema com as alças e os  fechos convencionais. Na calça, ela aponta os rasgos nos bolsos de tanto uso. Com uma voz calma e baixa, ela reitera que tudo é feito para que a viagem não seja em vão e que consiga, depois de um mês da última visita, ver o filho novamente. 

Seguidora da Igreja Mundial do Poder de Deus, Iracema sempre carrega consigo uma toalha pequena ungida pela congregação, para que possa protegê-la onde estiver. Desta vez, antes de passar para a sala de revista, a agente da Brigada Militar ameaçou tirar a proteção. Iracema, já acostumada com o ambiente hostil, mostrou-se forte e conhecedora de seus direitos. Mesmo com seus quase 80 anos, manteve-se firme diante da agente. Guardou a pequena toalha abençoada debaixo da própria roupa. Na saída da Cadeia Pública, Iracema estava sem a sua proteção. Conseguiu deixar nas mãos do filho a toalhinha cheia de fé e esperanças. 

Autor: Gabriela Felin e Victória Citton

Fonte: Famecos/ PUC-RS.