É a educação, gente!

Quase sempre a permanência de um problema está no entendimento equivocado de suas causas. A pobreza e a concentração da renda continuam, apesar do crescimento econômico, porque é um erro entendê-las como problemas da economia.

Ao longo do século XX, o Brasil foi um dos países que mais se desenvolveram, mas a renda se manteve concentrada e o país continua campeão em desigualdade social. Esta não seria uma realidade hoje se antes ela tivesse sida enfrentada usando a escola e não apenas fábricas como vetor da distribuição de renda.

Sem distribuição de educação, não há distribuição de renda, porque sem educação o trabalho livre é ilusão, mantendo-se a estrutura distributiva característica de sistemas servis. O trabalhador pobre é incapaz de se inserir no mercado de trabalho porque depende da educação a que não teve acesso.

Erramos ao acreditar que a economia colocaria um fim na pobreza social. Ao longo do século XX, conseguimos crescer ao ponto de nos tornamos o 6º maior PIB do mundo, mas continuamos pobres, na 98ª posição mundial em renda per capita, porque nossa produtividade está em 78º lugar no ranking.

Ao lado da baixa produtividade, não crescemos mais por causa da enorme preferência nacional pelo consumo imediato e pela baixa propensão nacional à poupança, o que impede investimentos que dinamizariam a produção.

A pobreza, a concentração de renda, as visões imediatistas de consumo e o individualismo conduziram ao maior de nossos problemas: a brutal violência que caracteriza a sociedade atual. Mais uma vez, por erro de foco, enfrentamos a violência como uma questão de polícia, não de escola.

Décadas atrás, nossos educacionistas, especialmente Darcy Ribeiro, alertaram para o fato de que o problema da violência não seria enfrentado corretamente enquanto fosse tratado apenas como uma questão de polícia. A violência, assim como a pobreza e a concentração de renda, é uma questão de impunidade.

A corrupção está finalmente sendo enfrentada por policiais, promotores, procuradores  e juízes, mas não será vencida enquanto não for enfrentada pelos eleitores. O juiz consegue prender político corrupto, mas não elege político honesto. Isso só vai ocorrer quando o eleitor não precisar sobreviver das promessas dos candidatos e dos favores de eleitos.

A educação de um indivíduo não o faz mais honesto, mas a educação de todos os indivíduos faz um povo mais preparado para eleger pessoas decentes, sem demagogias, e com melhores e mais sérias promessas para o futuro.

 Cristovam Buarque é senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).