Dor, silêncio e medo

PUC-RS
Adultos revelam traumas por abusos sexuais sofridos na infância

Ela contou nove vezes. Nove vezes em que ela foi abusada, ameaçada e agredida pelo pai durante um ano inteiro, quando tinha seis anos de idade. Algumas vezes, inclusive, na frente da mãe. “Em princípio, eu pensava que o que ele tava fazendo era normal. Na minha cabeça, todo pai fazia isso com as filhas”, recorda Priscila*.

A história de dor de Priscila, que mistura tristeza e raiva, não é rara. Ela não é a única a ter a infância roubada, o artigo 3 “todas as pessoas tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”, e o artigo 5 “ninguém será submetido a tortura nem a punição ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes” da Declaração  Universal de Direitos Humanos são violados todos os dias.

O abuso sexual na infância é apontado como a segunda violência mais cometida na faixa etária de zero a nove anos. Segundo os dados do Disque 100, serviço gratuito de denúncia do Governo Federal, a cada hora, três queixas de abuso infantil são registradas no Brasil. Mas o trauma não acaba na denúncia. Aliás, não acaba nunca.

Priscila  tinha seis anos de idade quando ela e a mãe se mudaram da casa dos avós para uma casa alugada em Teresina, no Piauí. Foi nessa época que a mãe de Priscila começou um novo relacionamento extraconjugal às escuras. Um dia, o novo namorado da mãe revelou que era, na verdade, seu pai biológico.

Quando era criança, ela não se preocupava muito com o assunto e até sabia algumas coisas do pai. Sua mãe já havia lhe contado que a teve quando era nova, aos 16 anos. Nessa época, seu pai tinha 30. Priscila sabia, também, que ele optou por abandoná-la.  Em decorrência disso, a mãe teve diversos problemas emocionais e até pensou em colocá-la para adoção.

Como a casa era pequena, Priscila dormia com a mãe e, consequentemente, com o pai também. Com a convivência, ela acabou descobrindo que era alcoólatra e que isso o tornava agressivo. “Às vezes eu estava dormindo e ele começava a tirar minha roupa. Ele colocava as mãos dele na minha boca para que eu não gritasse e me ameaçava”, conta Priscila. “Ele também ameaçava a minha mãe caso ela dissesse algo para a polícia”.

Após os estupros, a mãe de Priscila parou de se relacionar com o pai, mas não o denunciou ou levou a filha para fazer exames necessários após esse crime. No ano passado, Priscila decidiu fazer exames de doenças sexualmente transmissíveis e um de seus testes deu positivo. havia contraído HPV do pai. Por esse motivo, ela não pode engravidar e, devido ao trauma, não consegue mais se relacionar com homens.

Aos 20 anos, trabalha como técnica de enfermagem. Seguiu o sonho da mãe, que sempre quis ser ou técnica em enfermagem ou enfermeira, mas não conseguiu cursar a faculdade. Há alguns anos, Prisicila resolveu buscar ajuda profissional para tratar os problemas que surgiram em decorrência do trauma. Ela faz terapia com psicólogos há um ano e meio e foi diagnosticada com depressão, síndrome do pânico e ansiedade.

 

Abuso infantil

A violência sexual é definida como uma situação em que a criança é usada para o prazer sexual de uma pessoa mais velha. Dados divulgados pelo Disque 100 indicam que em 65% dos casos de abuso sexual, o abusador é alguém que faz parte do grupo familiar. A proximidade e a convivência do abusador com a vítima faz com que, muitas vezes, ela tenha medo de denunciar. O apoio familiar é essencial nessas horas e a situação fica ainda mais complicada se o agressor for um membro da família ou alguém muito próximo.

Aos sete anos, Viviana* estudava em um colégio renomado de Porto Alegre. Lá, tinha uma colega de quem era bem próxima. Extremamente comum para crianças, ela ia dormir bastante na casa da amiga, fosse para brincar ou para fazer os temas de aula. Ela notou que, após o pai da amiga se divorciar, ele estava sendo mais carinhoso com ela.

Um dia, quando ela estava dormindo na casa da amiga, o pai da menina acordou Viviana e pediu ajuda para arrumar um armário. Ele trancou a porta e falou que eles deveriam arrumar o armário em silêncio. Ele colocou a Viviana na cama, ficou por cima dela e disse que aquilo não iria demorar muito, porque ela o deixava com tesão.

Ela insistiu que ele fosse dormir, mas ele falava que ela o provocava e que havia pedido por aquilo. “Ele me penetrou e eu senti muita dor”.

Depois disso, Viviana desenvolveu anorexia e começou a ter crises de pânico, por medo de ir para a escola e encontrá-lo lá. Ela ficou mais reclusa, se distanciando da família por acreditar ser culpada pelo o que ocorreu, e foi nessa época que ela desencadeou crises de ansiedade que duram até hoje.

Com 20 anos, a estudante explica que aquilo a afetou para sempre. “Sou muito insegura e perfeccionista. Eu não sabia o que estava acontecendo, só sabia que a culpada era eu”, afirma. Apesar de ser hétero, Viviana  relata que acha penoso ter relações heterossexuais e manter relações sexuais depois do ocorrido.

Porém, não são apenas as meninas que sofrem esse tipo de abuso. Existe um enorme tabu quando o assunto é um homem que sofreu abuso sexual. A sociedade ainda é extremamente sexista e as crianças aprendem isso desde cedo. Há um preconceito intrínseco que sugere que quando isso ocorre, o homem perde a masculinidade – algo que não é aceito em uma sociedade patriarcal.

Outros dados do Disque 100 mostram que 47% da vítimas que denunciaram são meninas, enquanto 38% são meninos e 15% não informaram. Apesar de os dados mostrarem que as vítimas do sexo feminino são a maioria, eles apenas refletem quem faz a denúncia. Mas o que acontece com todos aqueles que têm medo ou vergonha de denunciar?

Leonardo* cresceu com uma família de descendência italiana, extremamente animada, que fazia várias festas com muita música, comida e bebidas. Ele lembra que tinha quatro anos e estava em uma dessas festas. Como ele estava gripado e com muito sono, a mãe resolveu colocá-lo para dormir no quarto. Por ser do outro lado da casa, o barulho da festa não o incomodaria.

Em certo momento da noite, ele acordou com o barulho da porta abrindo. O cunhado dele se aproximou e disse que os dois iriam brincar juntos. “Na hora eu sentei na cama e pensei: Que legal, vamos brincar”, relembra. O cunhado fez com que Leonardo prometesse que não contaria para ninguém, pegou a mão dele e colocou dentro da calça. Leonardo seguiu as instruções, mas sabia que aquilo estava errado.

O cunhado disse que aquilo poderia doer, mas que era daquele jeito. Leonardo não lembra de nada do que sucedeu a partir desse momento até o instante que a sua mãe foi dar um banho nele. Ele não deixava ela o tocar e foi ficando cada vez mais agressivo. Até que um dia, Leonardo a empurrou e disse: Saí daqui, eu não quero brincar.

Foi aí que a mãe dele percebeu que havia algo de errado. Então, ele contou o que havia acontecido. Depois disso, ele começou um tratamento psicológico – que continua até hoje – para superar o trauma. Hoje, com 23 anos, vê no dia a dia como aquele estupro ainda o afeta. “Eu sou gay e qualquer relação sexual que eu vá ter acaba me lembrando isso de alguma forma”, explica.

Além disso, ele se sente inseguro, incapaz de ser amado ou até mesmo valorizado. “Eu tinha quatro anos quando alguém achou que poderia chegar e transar comigo sem eu ao menos saber o que estava acontecendo”. Desde pequeno convive com ataques de ansiedade, pânico e depressão.

“Muitos adultos passam por dificuldades na vida adulta devido ao abuso sofrido na infância e alguns podem apresentar problemas relacionados à imagem corporal. Em muitos casos essas pessoas rejeitam o próprio corpo como uma defesa psicológica para evitar lembrar do abuso”, explica o psicólogo Dieferson Artur Brandao, autor do artigo O impacto na vida adulta do abuso na infância.

Brandão também ressalta a extrema importância de um tratamento psicológico após o abuso, para auxiliar a criança e ajudá-la a entender o que aconteceu, de forma que isso não afete tanto o seu futuro. “Quando a pessoa abusada na infância não passa por um processo de psicoterapia, e não resolve estas questões, ela pode evitar namorar outras pessoas e se relacionar sexualmente também”.

Além de evitar relacionamentos, a vítima pode desenvolver doenças psiquiátricas como depressão, ansiedade e ataques de pânico. “Em todos os casos, as crianças são ameaçadas, e os agressores falam em fazer mal a toda a família se a criança contar para alguém. Além da violência física, a pressão psicológica sofrida por estas crianças é muito grande também”, ressalta Brandão.

Quando tinha 10 anos, a Carolina* decidiu começar a praticar algum esporte. Escolheu o vôlei, uma vez que havia um clube perto de casa. Ela treinava todos os dias e viajava bastante com a equipe. Todas as crianças eram bem próximas do treinador, mas um dia ela tornou-se a favorita dele. Em uma das viagens, ele pediu que ela o ajudasse com alguma coisa, longe das outras crianças. “Do nada, ele começou a passar a mão em mim”, lembra.

Essa situação se repetiu várias vezes: “É o tipo de coisa que se dá em escalada. Num dia ele passou a mão em mim, no outro tirou a minha roupa e, no fim das contas, eu me vi fazendo as mais bizarras modalidades de sexo e ainda sendo fotografada”, conta Carolina. Ela sabia que era errado e, inclusive, pedia sempre que o treinador parasse. Mas ele nunca a obedeceu. “Quando acontecia, eu ficava lá… Sem falar, sem chorar e me movendo o mínimo possível. Meu nível de desligamento era tão grande que eu não sei quando perdi minha virgindade”.

Apesar de tudo, Carolina só percebeu que aquilo era um abuso sexual anos depois. Quando notou que aquilo não era normal, começou a se culpar por não ter reagido de maneira mais eficaz. Além disso, começou a sentir vergonha do seu corpo,  a ter crises de ansiedade e pensamentos suicidas. Hoje, aos 22 anos, a engenheira afirma que não costuma falar sobre o assunto.

Algumas vezes, usa a internet, por acreditar que o assunto deve, sim, ser debatido. “Todas as vezes em que eu falo que isso aconteceu comigo, surgem várias garotas (de países, etnias, níveis cultural e socioeconômico e configurações familiares diferentes) com histórias parecidas”.

Bruna* é a quinta filha de nove irmãos. Ela e a família moravam no interior do Rio Grande do Sul, em uma casa grande, bem localizada e com enormes jardins. No meio da casa, perto do quarto dos pais, havia um closet. Foi lá que tudo começou. Na época, com apenas sete anos, ela não sabia. Mas todos seus irmãos mais velhos já haviam sido abusados pelo seu pai.

“Ele me pegava no colo e me obrigava a pegar nas partes intimas dele”, conta. Os abusos não tinham hora para acontecer. O pai a buscava na escola e depois a abusava. Ele alegava que ela era suja e que ela ia fazer o mesmo com outros na rua, mas que ele não iria deixar.

Ele ia de quarto em quarto. Abusava um filho de cada vez. “Mandava que os outros não viessem no quarto. Usava a desculpa de que ia dar um corretivo em cada um”, afirma. “E ele falava: depois são vocês”. Todos os dias acontecia a mesma coisa após o estupro, o pai dava bebida alcoólica para os filhos.

Aos nove anos, Bruna menstruou, e o pai disse que agora a situação iria ficar melhor. “Ele disse que ia verificar se eu era virgem, se não tinham mexido”. Ela e os irmãos mais velhos também eram estuprados pelos amigos do pai. Os abusos constantes fizeram com que ela começasse a ficar viciada em bebidas alcoólicas. Como Bruna levava bebida para a escola, a professora notou que havia algo errado. E foi ela quem salvou Bruna. Aos poucos, começou a notar os machucados e percebeu que havia algo extremamente errado ali.

Quando tentou contar para a mãe, ela apanhou e foi acusada de “mentir” e ser culpada pela situação. A falta de apoio familiar e os traumas fizeram com que, com 11 anos, Bruna fugisse para morar na capital. Depois, mais velha, denunciou alguns dos seus abusadores. Os processos demoraram e apenas um foi preso – ficou apenas um ano na cadeia. O pai pediu perdão para os filhos antes de morrer em 1995. Bruna não perdoou.

Aos 53 anos, leva uma vida ainda afetada pela violência sofrida. Precisa usar uma prótese dentária, porque o pai quebrou os dentes dela após ela mordê-lo, tentando detê-lo. Mesmo após o tratamento psicológico, ainda se sente culpada pelos abusos e os relembra constantemente. “Hoje procuro sempre observar queixas e encontrar sinais. Criança é alegre e curiosa. Se estiver quieta, procure saber o que aconteceu. Dê papel para ela desenhar. Diga que está ali para protegê-la. Crianças não mentem”.

É importante que os pais criem uma relação de confiança com os filhos, para que se sintam à vontade para falar sobre o assunto e recorrer a eles caso algo aconteça. O medo de represálias – uma ameaça comum dos agressores – também é um motivo pelos quais as crianças silenciam.

“Não fale com estranhos” é um conselho dado pelos pais diariamente. Mas o abusador pode ser qualquer pessoa.

Como identificar se uma criança sofreu abuso infantil:

  • Masturbação excessiva.
  • Conhecimentos e condutas sexuais impróprios para sua idade.
  • Interesse excessivo, ou rejeição total de natureza sexual.
  • Comportamento sedutor.
  • Depressão ou isolamento dos amigos e família.
  • Desordem no apetite (perda, anorexia, bulimia).
  • Regressões, incapacidade para controlar esfíncteres.
  • Problemas com o sono (insônia, medo e pesadelos).
  • Choro contínuo.
  • Excessiva agressividade.
  • Temor ou rejeição a alguma pessoa.
  • Baixo rendimento escolar.
  • Desconfiança de si mesma.
  • Negar-se a ir à escola, delinquência.
  • Evidência de abusos ou incômodos nos seus desenhos, jogos ou fantasias.
  • Comportamento suicida.

Você pode denunciar pelo Disque 100 ou se encaminhar para a delegacia mais próxima de você.

*Os nomes das pessoas, todas abusadas quando ainda tinham menos de 11 anos, foram trocados para evitar a identificação.

Texto: Kamylla Lemos
Foto: Camila Lara
FONTE: FAMECO/PUCRS