Do virtual ao real – O crescimento da violência ideológica no país (Parte II)

PUC-RS

A professora de filosofia Valentinne Serpa relata o ataque em massa do qual foi vítima, demonstrando que o que começa como uma simples postagem no Facebook pode se tornar algo muito mais agressivo e perigoso

Nesses tempos em que as redes sociais são as ferramentas prediletas para que alguns se sintam no direito de agredir quem é ou pensa diferente, não são raros os casos de pessoas que se sentem atingidas. Ao contrário. É cada vez mais comum encontrar pessoas que sofrem ataques em massa na web depois de postarem declarações ideológicas.

Foi o que aconteceu com a professora de filosofia Valentinne Serpa, vítima de uma avalanche de ataques e ameaças virtuais no Facebook e no Twitter. Durante a polêmica do Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre, em setembro de 2017, cuja exposição apresentaria a cultura queer, constituída por pessoas que não seguem os padrões heteronormativos, ela trouxe o assunto para a sala de aula no Cursinho Popular Afirmação, onde leciona.

Para Valentinne, o Queermuseu era necessário pelo efeito da obscuridade interpretativa sobre as obras. “O queer se refere ao esquisito, estranho. A mostra queria expor aquilo que ainda é tabu, aqueles que são oprimidos, sofrem diversos preconceitos e que são as ‘diferenças’ em nossa sociedade”.

Ela ainda critica a reação das pessoas que viram o Queermuseu de forma negativa. “A melhor maneira de observar o efeito que a mostra causa é quando a extirpam e deixam claro que a heterossexualidade tem que ser superior à homossexualidade e a qualquer teoria queer”, acredita. Para ela, a obscuridade não ficou apenas nas obras, mas também na população que não tem o hábito de ir ao museu, aquelas que pensam que arte é apenas o quadro bonito que se coloca na sala de jantar para causar uma boa impressão para as visitas. “Para eles, não faz a menor diferença o que está sendo exposto, mas mesmo assim causou indignação”.

Após a aula de mais ou menos 50 minutos, Valentinne posou para uma foto junto ao livro da exposição e com uma expressão de alegria com a língua para fora. Essa foto seria postada mais tarde no seu perfil do Facebook. Valentinne não tinha consciência de que suas publicações estavam livres para o público e não apenas para seus amigos. Esse deslize foi o que bastou para a professora começar a receber ofensas e ameaças partidas de pessoas supostamente ligadas ao Movimento Brasil Livre (MBL), ao deputado estadual Marcel Van Hattem (NOVO-RS), ao candidato à presidência da república e deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), ao Senador Magno Malta (PR-ES) e ao ex-ator pornô Alexandre Frota, além de ameaças diretas vindas dos últimos dois. “Os apoiadores e seguidores do MBL vieram no meu perfil e no perfil do Grupo Autônomo de Filosofia, do qual faço parte. Eles não foram os únicos que eu identifiquei. Eram eles, os eleitores do Jair Bolsonaro, pessoas favoráveis ao Escola Sem Partido e neonazistas”, relatou a professora.

 


Postagem de Valentinne em seu Facebook

Ela lembra que quando chegou em casa, a postagem já estava cheia de notificações e comentários na foto postada no dia anterior. Eram tantas mensagens que ela nem conseguia acompanhar. “Tentei respondê-los, mas ficavam cada vez mais violentos. Eram pais e mães me ameaçando. Jovens e idosos. Diziam que iam me processar, que eu ia perder meu emprego, que iam quebrar minhas pernas, me estuprar, me espancar. Fui chamada de tudo o que foi possível e que eu não poderia ensinar a eles como educar seus filhos, o que nunca foi minha intenção”.

Print de Tweets Ofensivos

 

Print de Tweets Ofensivos

Depois dessa onda de ataques, a professora afirma que começava ali o que ela classifica como táticas de “engenharia social”. Alguns dos agressores conseguiram encontrar os dados de Valentinne, começando a fazer perguntas e a ameaçando de processo. Ela conseguiu fechar o acesso do público ao seu perfil no Facebook, mas as ameaças continuaram pelo Messenger, aplicativo de mensagens dessa rede social.

Tweets Ofensivos
Dados da professora se tornaram ferramentas de ameaça

O pior ainda estava por vir. No dia seguinte, Valentinne receberia uma mensagem que criaria o caos em sua vida. “Na quarta-feira, dia 13 de setembro, fui para a universidade cedo para estudar e, quando vejo, recebo uma mensagem que continha um link para o Twitter. Alexandre Frota havia postado minha foto com a legenda ‘o que vocês acham dessa vadia que faz isso?’. Neste momento, já tinham descoberto o telefone da minha casa. Decidi sair do Estado, por precaução. Durante a viagem, recebi muitas ligações de outros Estados, inclusive do Espírito Santo, que, por desatenção, não atendi”. A assessoria de Alexandre Frota foi contatada para dar sua opinião sobre as atitudes do ex-ator pornô nas redes sociais, mas não respondeu aos questionamentos.

 

 


Tweet de Alexandre Frota

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Tweets Ofensivos

Tweets ofensivos

Diante de toda essa situação, Valentinne acabou voltando para casa no dia 21 de setembro. E foi convidada pela Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul a denunciar o que havia acontecido. Lá, pediram que ela fizesse um boletim de ocorrência para seguirem com o caso. Foi então que a situação, que já se mostrava terrível, ficou ainda pior.

Na delegacia, a professora expôs o caso para o agente que a atendeu. Este respondeu para ela em tom alto: “Isso não vai te proteger de nada!”. Ela estranhou a manifestação, mas continuou explicando a situação, dizendo que quem tinha pedido o boletim havia sido a própria Comissão de Direitos Humanos da Assembleia. Nesse momento, o agente teria comentado que direitos humanos só serviam para “vagabundos”. E ele foi além. Quando a professora mostrou os prints que havia tirado de comentários e perfis dos agressores no Facebook, deu destaque a um específico, onde um dos agressores informava que havia estudado na escola “Führer Adolf Hitler”. Em deboche a isso, o agente teria afirmado que “a escola de Hitler era melhor que a escola do governo Lula”. Abismada com a forma parcial com que o agente teria levado a ocorrência, ela decidiu ir embora.

Em 25 de setembro, ela recebeu o telefonema de um funcionário do Santander Cultural, informando que ela seria convocada para a CPI dos Maus Tratos Infantis, do senador Magno Malta. Este seria o assunto das ligações perdidas do Espírito Santo, dias antes. A convocação também chamava o curador da exposição do Queermuseu, Gaudêncio Fidélis. O senador ainda faria um vídeo chamando a professora de “debochada”. Apesar de toda a comoção, a convocação nunca chegou à casa de Valentinne. A equipe de Magno Malta foi contatada pela Agência de Reportagem por duas oportunidades para dar sua versão sobre o assunto, mas não deu retorno.

Fazendo uma retrospectiva de tudo que aconteceu, a professora avalia a situação pela qual passou. “Fiquei apavorada, não imaginava que aquelas pessoas que não eram perfis fakes fossem capazes de expor o que expunham. Ninguém foi capaz de perguntar qual era a faixa etária dos meus estudantes. Do nada, começaram a dizer que eu era professora da educação infantil, o que não sou. Meus estudantes são adultos. E como se eu fosse capaz de levar pornografia para a sala de aula. Não levei nenhum filme do Alexandre Frota. Estávamos tratando de arte, de pensamento crítico, de filosofia. Fiquei triste também. É muito triste pensar no que o ser humano é capaz de fazer e de acreditar”.

Valentinne afirma que os ataques afetaram seu trabalho em sala de aula e atrasaram seu mestrado, mas que a compreensão do corpo docente e discente da instituição a ajudou na superação. “Meu dever é fazer com que os estudantes tirem uma boa nota no ENEM e ingressem na universidade. Inclusive, já caíram questões no ENEM sobre a Lygia Clark, uma das artistas expostas no Queermuseu”.

Autor: Gustavo Fiorenzano Barreto

Foto: Nícolas Chidem

FONTE: Famecos/PUC-RS