Do virtual ao real: o crescimento da violência ideológica no país (Parte I)

PUC-RS

As redes sociais aproximaram as relações humanas. Mas abriram um grande espaço para compartilhamento de discursos de ódio e fake news. O problema se mostra pior quando esse discurso extrapola os limites da internet e é organizado por atores políticos

Radicalização política ganha as ruas depois de se tornar um fenômeno acirrado nas redes sociais

Radicalização política ganha as ruas depois de se tornar um fenômeno acirrado nas redes sociais

Na foto de abertura, Augusto Neftali, doutor em Ciências Políticas e professor da PUCRS.

O Brasil vive um período de radicalização política. A polarização vem sendo parte do dia a dia do brasileiro desde as manifestações de 2013, que serviram como apresentação de grupos como os Black Blocks, fomentando a visibilidade de lados opostos a partir das eleições presidenciais de 2014. Nas redes sociais, as discussões se tornam mais comuns e exaltadas. A rivalidade conhecida entre “coxinhas” e “petralhas” deu lugar para “fascistas” e “comunistas”. Contudo, o que parecia estar limitado ao âmbito virtual, está cada vez mais aparecendo na vida real.

No início de 2018, casos mais notórios como o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL-RJ) e o ataque a tiros na caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstravam um cenário violento que estava se criando para o ano eleitoral. Mais recentemente, outro atentado a tiros foi registrado, dessa vez contra o acampamento pró-Lula em Curitiba, deixando dois feridos.

Nas redes sociais, a situação também se mostra cada vez mais extrema, evidenciando a crescente contrariedade por parte dos usuários, como foi o caso do desabamento do prédio ocupado por sem-tetos no centro de São Paulo, na madrugada de 1º de maio. Diversos comentários buscando culpar os moradores foram postados, vindos inclusive de figuras públicas, como o ex-prefeito de São Paulo e atual candidato ao governo daquele Estado, João Dória (PSDB-SP), que classificou a organização da ocupação como uma facção criminosa, e do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que compartilhou no seu Twitter informações falsas de que a ocupação seria organizada pelo grupo MTST, além de também caracterizar a ocupação da estrutura como criminosa.

Augusto Neftali, doutor em Ciências Políticas e professor no curso de pós-graduação em Ciências Sociais da PUCRS, analisa a situação para identificar as razões pelas quais o radicalismo vem tomando conta do embate político brasileiro. “As opções mais moderadas e o discurso mais de centro estão perdendo espaço para aqueles políticos que defendem ideias radicais. E as pessoas, em geral, estão se identificando mais com posições radicalizadas e extremistas do que antes”, afirma o professor. Para ele, há interesses por trás desse comportamento. “Nós devemos compreender, do ponto de vista da política, que essa é uma estratégia incentivada pelos atores políticos que esperam receber dividendos e votos na medida em que radicalizam o seu discurso”.

Neftali também ressalta que a situação da violência política, apesar de mais clara hoje, não é um fator novo. “Há registros, nos últimos cinco anos, de 196 assassinatos políticos no país. E não apenas de políticos profissionais ou candidatos, mas também de ativistas sociais, dos direitos humanos e de pessoas envolvidas com a questão da terra. Então, estamos falamos de quase 2 mil assassinatos políticos desde 1975”.

O professor deixa claro que o cenário de violência é propositalmente moldado a partir de interesses de grupos que pretendem usar essa violência como arma política. Para ele, esses grupos aproveitam e manipulam confrontos e brigas para formarem argumentos na disputa política, com o intuito de controlar os eleitores.

Analisando todo esse conjunto político-social, Neftali prevê que a situação tende a piorar durante as eleições presidenciais deste ano, e que depende apenas do eleitor buscar ser cético em relação às interpretações que os políticos dão para casos de violência, não admitindo o exercício dessas ações e das ameaças. “Nós pensamos na concorrência dos partidos nas eleições como algo que se deve exercer justamente para conter a violência na sociedade, para que as pessoas possam se expressar de maneira livre, equivalente, justa e regulada”, aponta Neftali.

O professor de Ciências Políticas da UFRGS, Alfredo Alejandro Gugliano, avalia a situação presente no Brasil como semelhante à de outros países. “Isso está acontecendo na Europa, com o surgimento de um movimento social de cunho racista, nos Estados Unidos, com o fortalecimento do neoconservadorismo levado adiante por movimentos políticos como o Tea Party (movimento social e político dos Estados Unidos, constituído pela ala mais radical do Partido Republicano), e agora é a vez do Brasil. Com isso, não quero dizer que todos sejam movimentos idênticos, mas que comungam de princípios muito próximos”.

Gugliano vê as redes sociais como facilitadores da capacidade de as pessoas manifestarem opiniões e divulgarem pontos de vista em larga escala. Para ele, essas redes transmitem uma falsa impressão de impunidade, de que tudo seria permitido com a premissa de um anonimato, o que incentiva as pessoas a postarem o que querem e da maneira que querem. “A internet não se conforma enquanto um espaço reflexivo. Pelo contrário, esse é o universo da informação rápida”, explica. “Quanto mais polêmica for a opinião, maior a capacidade de obter o interesse de outros e ampliar a popularidade midiática. Portanto, situações extremas são uma oportunidade ímpar para muitas pessoas saírem da obscuridade e chamarem a atenção nas redes, tanto de apoiadores quanto de críticos”.

Assim como o professor Augusto Neftali, Alfredo Gugliano indica a existência de grupos políticos organizados que levam adiante postagens de cunho violento. Para o docente da UFRGS, esses grupos têm a capacidade de transformar o ódio em moeda política, como se fosse uma forma de expressar um posicionamento e combater os adversários. A partir disso, o professor afirma que essa não é uma prática recente. “Isso não é propriamente uma novidade na história política do Ocidente, na qual ódios diversos foram utilizados como uma forma de resolver conflitos políticos fora do campo das instituições. Raiva contra negros, judeus, comunistas e mais recentemente contra imigrantes e muçulmanos. No caso do Brasil, mais notadamente, raiva contra ativistas sociais, trabalhadores sem-terra, defensores de direitos humanos, sindicalistas e militantes de esquerda. O problema todo é que a passagem do discurso de ódio para uma prática de ódio é um passo muito curto, o que pode, rapidamente, levar à deterioração da democracia de um país”.

Gugliano também explica a situação das redes sociais de uma maneira mais geral, nos embates em comentários e postagens. Ele destaca que esses espaços são um instrumento que podem ser utilizados de diferentes maneiras. Ele vê que, em certa medida, prevalece o que chama de “ditadura das curtidas e compartilhamentos”. “Digamos que um político brasileiro afirme, caso seja eleito, que colocará um ex-ator pornô, sem vinculação ao tema educacional, como ministro da Educação. Essa notícia é rapidamente acessada por centenas de usuários que comungam com essa ideia, assim como por outra centena que é contrária. No final, uma notícia sem grande viabilidade, quase satírica, acaba se transformando numa eficiente peça publicitária”. Segundo o professor da UFRGS, as redes sociais podem se tornar a principal ferramenta de propaganda do século XXI.

Na próxima semana, acompanhe a última parte da reportagem Do virtual ao real: o crescimento da violência ideológica no país.

Autor: Gustavo Barreto

Foto: Camila Lara e Nícolas Chidem

FONTE: Famecos/PUC-RS