Do reconhecimento facial à atuação da imprensa em Jacarezinho: Bruno Sousa e a narrativa do morador de favela

O Sem Estúdio recebeu o jornalista Bruno Sousa para abordar o reconhecimento facial e a chacina do Jacarezinho. A terceira temporada do programa discute Cidadania.

Responsabilidade das mídias

O Rio de Janeiro vivenciou no dia 06 de maio de 2021 a mais letal operação das forças de segurança de sua história: foram 28 mortos, incluindo um policial, na comunidade do Jacarezinho. A ação foi descrita por entidades de defesa dos direitos humanos, imprensa local e testemunhas como um massacre.

De acordo com Bruno, a cobertura da tragédia realizada pelos veículos hegemônicos brasileiros foi péssima: “eu enxergo que a mídia hegemônica também foi responsável pelas 28 mortes”. O cofundador do LabJaca, laboratório de dados na favela do Jacarezinho, complementa que, na comunidade, há o entendimento de que a espetacularização da segurança pública só tende a piorar esse tipo de situação: “a partir do momento em que a polícia tem seu trabalho exposto, ela passa a ter que dar uma resposta.”

Crianças e presença de violência

Segundo o jornalista, o Estado do Rio de Janeiro resume-se a uma “Síndrome de Estocolmo coletiva”. Portanto, enquanto se torna visível o crescimento das diferenças dentro da comunidade, destacadas pela falta de acesso a educação adequada, práticas esportivas e cultura, surge como consequência o início no tráfico de drogas.

“A criança, sem um real para comprar o chinelo Havaianas, vê o traficante com um tênis Nike, um cordão de ouro e andando na moto com a mulher mais bonita da favela, e no outro dia vê uma operação policial em que o policial entra na casa dele e destrói todo o pouco que tem”, disse o entrevistado, reafirmando que efeitos psicológicos em crianças podem ser devastadores, causando, assim, uma revolta contra a figura policial.

Dificuldades do reconhecimento facial

Outro tópico abordado na entrevista foi o reconhecimento facial, tecnologia em uso cada vez mais constante por forças de policiamento. Bruno explica que, pelas falhas presentes no reconhecimento facial, esta alternativa acaba sendo extremamente prejudicial para minorias como pessoas negras, mulheres e transexuais. O entrevistado conta que, apesar disto, existe um senso comum entre a sociedade de que esta forma de reconhecimento é positiva: “aqui no Brasil [o reconhecimento facial] tem sido colocado como um “santo graal” para a segurança pública, porque, de certa forma, ele tira o peso do policial de uma abordagem racista.”

De acordo com o jornalista, a programação das máquinas deriva de históricos e vieses racistas de quem as programa: “a gente entende que  o meio da programação é um meio branco que não contempla a diferença dos rostos de pessoas negras e por ser um meio machista é uma tecnologia que também é falha com mulheres.”

“A partir do momento em que a máquina vai declarar quem é suspeito e quem vai ser abordado, o policial não é mais racista, a máquina que direcionou aquela pessoa como suspeita de um crime”, disse Bruno, reiterando que as tecnologias de reconhecimento facial estimulam a impunidade de atos racistas, assim como a terceirização da responsabilidade para a máquina.

Desapreço governamental

O pesquisador também fala sobre a falta de atenção do Estado para as necessidades básicas daqueles em situação de indefensibilidade, afirmando que existe um déficit de políticas públicas destinadas à população das favelas: “o formulário que a gente passou no início da pandemia, dentro da comunidade, mostrava centenas de casos suspeitos (de covid-19), enquanto o Estado estava mostrando menos de uma dezena. Se você não sabe o número de pessoas que moram ali, não vai ter escola para todo mundo, não vai ter hospital para todo mundo, não vai ter vacina para todo mundo.”

Bruno, então, reitera que o Governo estadual não foi capaz de comunicar as necessidades do período pandêmico aos moradores da favela. Segundo o entrevistado, há o consenso de que a dinâmica é diferente na comunidade e nos bairros nobres: “as pessoas não têm como fazer isolamento social numa casa com quinze pessoas e dois cômodos, ou cinco pessoas em um cômodo.” 

O jornalista ainda relembra o recorrente problema de falta de água nas regiões que se localizam em morros, por exemplo: “esse é um problema que já é conhecido há vários anos, ele não chegou agora na pandemia, o Estado já conhecia esse problema, mas não se preocupou em resolver. Ele só falou para o morador da favela lavar a mão, mas não deu água para ele.”

Autores: Juliana Affeldt e Luiz Breves.

Fonte: PUC-RS.