Do papel para as telas: como é ser roteirista no Brasil?

Contar histórias e alimentar os sentidos são necessidades humanas concretizadas pela sétima arte e que requerem grandes habilidades dos roteiristas, profissionais fundamentais para a construção de boas narrativas no cinema. Eles são responsáveis por criar o universo e os diálogos do filme, colocando no papel toda a concepção inicial da obra e guiando os diretores, atores, produtores e os demais envolvidos na produção. 

O roteiro é primordial, como aponta Roberto Franco Moreira, professor doutor no curso de Audiovisual da Universidade de São Paulo (USP). “Se pensarmos que antes do roteiro não existe nada, ele é a base em torno da qual toda a equipe vai trabalhar”. Diretor e roteirista de longas como Contra Todos (2004) e Quanto Dura o Amor (2009), ele completa: “se não tivermos um bom roteiro, dificilmente teremos um bom filme. Não é impossível, há muitos filmes improvisados que foram realizados sem roteiros e que são ótimos, mas, em geral, o roteiro é a garantia de uma história interessante, capaz de emocionar pessoas. É o ponto de partida para o filme acontecer.” 

Além de ser um alicerce dramático para produções cinematográficas, o roteiro cumpre a função de atrair recursos para a realização do projeto. De acordo com Rubens Arnaldo Rewald também professor de Audiovisual na USP e responsável por Corpo (2007), premiado como Melhor Filme Estrangeiro em Los Angeles, “o roteiro muitas vezes é o documento que vai possibilitar o financiamento do filme por meio de editais e capital, então é preciso um projeto forte e geralmente o que se pede é roteiro”. 

Letícia Fudissaku é roteirista ingressante no mercado. Formada em Rádio e TV pela Faculdade Cásper Líbero, atualmente trabalha com desenvolvimento e análise de roteiros na Paris Entretenimento, produtora da Paris Filmes. Para ela “o roteiro é importante não só no início, mas durante toda a construção do material, mesmo na edição. Depois de gravar tudo o que era pretendido, é o roteiro que ajuda a manter a unidade da história, mesmo com algumas mudanças de cena ou improvisações”.

Cartazes de Contra Todos e Corpo, dirigidos por Roberto Moreira, e Rubens Rewald e Rossana Foglia, respectivamente [Imagens: Divulgação]


A luta por direitos autorais 

A ABRA (Associação Brasileira de Autores Roteiristas) representa profissionais do cinema e da televisão, pautando a melhoria das condições de trabalho e das relações contratuais. O modelo de contratação de roteiristas no Brasil consiste no pagamento de um valor único, fixo e vitalício pela obra. Diferentemente dos músicos e compositores, os roteiristas não ganham royalties pela reprodução dos filmes que escrevem. 

Rubens Rewald é associado à entidade e afirma que muitas vezes o roteirista é jogado para segundo plano em detrimento do produtor e do diretor, o que demonstra a relevância da ABRA na defesa dos interesses da classe. “A questão de direito autoral é absurda. Aqui no Brasil, o roteirista e o diretor não recebem uma parcela do preço do ingresso. Nos principais países onde há indústria audiovisual isso acontece.” O cineasta é militante da causa há 15 anos e confessa que desde o início houve dificuldade para o progresso da pauta: “Avançamos e aí muda o governo, mudam as pessoas e voltamos à estaca zero. Beira o ridículo o quanto estamos atrasados nisso, não se consegue estabelecer uma legislação.”

Cena do filme Nada a Perder: Contra Tudo. Por Todos (2018), escrito por Stephen P. Lindsey. A obra teve a maior bilheteria de 2018, arrecadando mais de R$120 milhões com a venda de ingressos [Imagem: Paris Entretenimento]


Brasil e Argentina, a eterna comparação

Muito se fala da superioridade do cinema argentino frente às produções brasileiras. A fama dos vizinhos latino-americanos reside justamente no fato de possuírem ótimos roteiros e, para muitos especialistas, saberem construir histórias melhor do que o Brasil. Qual seria o motivo para essa distinção? 

Roberto reconhece o domínio dos hermanos, principalmente pela forte presença da literatura na Argentina, às menores taxas de analfabetismo e das condições culturais e econômicas às quais estão expostos. “O sistema de financiamento argentino tem continuidade. Basicamente, é o mesmo desde o final dos anos 60. Enquanto isso, nós tivemos 5 sistemas diferentes e o desastre da era Collor. As descontinuidades do audiovisual brasileiro levam à perda de informação e corpo técnico.

Rewald compartilha um pensamento de Hector Babenco, diretor argentino e naturalizado brasileiro : “a diferença entre o Brasil e a Argentina é que a Argentina não teve Semana de Arte Moderna. Enquanto os brasileiros estavam rompendo tradições, os argentinos estavam em casa, estudando dramaturgia”. Para Rewald, apesar do sarcasmo, há uma forte questão cultural na reflexão. “A Argentina tem uma tradição muito mais ligada à dramaturgia clássica, tem forte influência do teatro inglês. O Brasil tem um compromisso maior com a ruptura e esse compromisso, às vezes, joga para escanteio a solidez da construção dramática.” Forças de produção antagônicas também atrapalham a unidade da dramaturgia brasileira, já que segundo o cineasta, há divergência entre o desejo por um cinema autoral e a tradição mais conservadora da teledramaturgia.  

Cena de O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2009), grande sucesso argentino vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010 e escrito por Eduardo Sacheri e Juan José Campanella [Imagem: Reprodução]


Os desafios da carreira

Letícia alcançou o 3º lugar no concurso de Melhor Roteiro de Longa-Metragem do Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre (FRAPA). O evento recebe roteiristas iniciantes e experientes do país inteiro, possibilitando uma rede interessante de contatos, considerada por ela essencial para a inserção no mercado de trabalho. “Conforme vamos conhecendo o mercado, ficamos expostos a oportunidades e acaba sendo aquela coisa da indicação. Esse trabalho criativo cria um vínculo, o cliente gosta da sua maneira de escrever e te dará preferência ”, conta. 

Essa mesma condição do ambiente de roteiristas, e do audiovisual como um todo, também resulta num desafio, pois muitos profissionais já consolidaram suas carreiras junto às produtoras e conquistaram seus espaços na área, o que aumenta a dificuldade de inclusão para os novatos. 

Outro ponto de atenção (unânime entre os entrevistados) é a qualificação dos roteiristas. Fudissaku conta que, no Brasil, geralmente a formação é básica e abrange apenas o essencial: “gostar de roteiro, não é o suficiente. É importante estudar muito para ser um profissional com repertório e entender diferentes tipos de estrutura”. Outra dica da roteirista para quem deseja mergulhar nesse universo é aprender inglês, pois boa parte do material de estudo é produzido nesse idioma, graças à forte tradição dramatúrgica norte-americana. 

Apesar disso, a qualificação do capital humano passa por um avanço, com a recente criação de cursos de pós-graduação na área e surgimento cada vez maior de escolas com foco em roteiro, principalmente em São Paulo, como analisa Rewald. “Acredito que, aos poucos, vai surgindo uma nova geração de roteiristas mais maduros, que estão tendo chance de experimentar mais, escrever um roteiro atrás do outro, por conta do aquecimento da indústria.”

Para Roberto Moreira, frente à competição que vivemos, com tantas mídias e opções de entretenimento, é necessário saber qual é o público alvo e se ele vai gostar do filme antes de escrevê-lo e viabilizá-lo. “É preciso sentar com o exibidor e o distribuidor e entender o que as pessoas vão achar do seu projeto. Não adianta ter uma ideia genial sozinho. Acho esse o maior desafio, montar um sistema onde todas as partes conversem, se não tem diálogo, não há espaço comum para desenvolver seu trabalho. Talvez isso seja o que mais prejudique o cinema brasileiro.”


O mercado brasileiro e o repasse de verbas públicas 

Segundo o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), só em 2018 foram lançados 185 filmes brasileiros, o que representa um total de 38,54% de todos os filmes em cartaz no país, gerando mais de R$290 milhões em arrecadação, números significativos e em constante expansão desde 2014. Mesmo com o sucesso da indústria, em abril deste ano a Agência Nacional de Cinema (Ancine) suspendeu o repasse de verbas para a produção audiovisual no Brasil por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU), após o levantamento de irregularidades na prestação de contas da agência. 

Provavelmente você já viu esta imagem nos créditos de algum filme nacional. Criada em 2001, a Ancine regula, fiscaliza e patrocina o mercado de cinema e audiovisual no Brasil. [Imagem: Divulgação]

A restrição do financiamento causou certo pânico no setor e os roteiristas sentiram-se diretamente afetados. Rewald chama atenção para os editais de desenvolvimento. “Quando apresentamos um projeto e ganhamos dinheiro para escrever o roteiro, ele precisa ser trabalhado e retrabalhado com afinco e dedicação, o que leva tempo. Quem vai pagar por esse trabalho tão específico do roteirista? Considero este edital um dos mais importantes, se começam a cortar isso das linhas de produção, todo o ciclo é prejudicado.” 

Para Roberto Moreira, porém, é importante desmistificar o cenário trágico e a dependência estatal excessiva, mencionando mudanças significativas no mercado brasileiro. “O que acho mais importante é a chegada do streaming, teremos grandes plataformas produzindo no Brasil: Netflix, HBO, Amazon. Pela primeira vez temos um ambiente de competição no audiovisual.”

Em maio, após o acórdão 992/2019 do TCU, decisão dos membros do tribunal em segunda instância, a Ancine emitiu um comunicado sinalizando o retorno às suas atividades normais, incluindo a liberação de recursos públicos, contratação de funcionários e admissão de novos projetos. 


A produção nacional na mira do governo
 

O cenário político também é decisivo para a continuidade da consolidação do mercado cinematográfico. “Nós vivemos um momento de muita conturbação política, não sabemos o que vai acontecer, o fomento à produção do cinema nunca explodiu tanto no Brasil. Vivemos um momento de muitas efervescências, mas de total incógnita”, diz Rubens.

O contexto de incertezas para o cinema nacional foi aprofundado com declarações do Presidente da República. Em julho, Jair Bolsonaro indicou suas intenções de extinguir ou privatizar a Ancine, caso a agência não puder impor um filtro nas produções audiovisuais do país. “O poder público não tem que se meter a fazer isso. O Estado vai deixar de patrocinar”, afirmou em suas redes sociais. 

Em referência ao filme Bruna Surfistinha (2001), o presidente também anuncia. “A cultura vem para Brasília e vai ter filtro sim, já que é um órgão federal. Dinheiro público não pode ser usado para fins pornográficos.” Vale ressaltar que Bolsonaro não assistiu ao filme, que gerou mais de 400 empregos diretos e indiretos, e rendeu R$ 10 milhões em impostos para o Brasil, cerca de R$ 2 milhões a mais do que o investido pelo Estado para a produção da obra. Para além do possível corte no patrocínio estatal, profissionais da indústria chamam atenção para o “filtro” do governo: a censura.

Cena do filme Bruna Surfistinha, escrito por José Carvalho, Antonia Pellegrino e Omero Olivetto. A produção foi alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro. [Imagem: Divulgação] 

“Cegueira e ignorância levam à censura”. É assim que a roteirista Antonia Pellegrino, responsável por Bruna Surfistinha, reagiu às palavras de Bolsonaro. Imposta por regimes totalitários, como a ditadura militar brasileira, a medida prejudica os roteiristas. O cerceamento da liberdade de expressão e da autonomia artística destes escritores limita a concepção de seus projetos, principalmente quando estes abordam críticas fundamentais à sociedade em seus roteiros. 

Ser roteirista no Brasil atualmente é conviver com a dualidade da expansão da indústria audiovisual por meio da iniciativa privada e a derrocada do estímulo à cultura por parte do Estado.

Autor: Ana Luiza Cardozo

Fonte: Jornalismo Júnior ECA/USP