Dez anos depois: a transcendência cultural de In Rainbows

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Dez anos depois: a transcendência cultural de In Rainbows

 

Uma década parece cada vez menos tempo. Torna-se mais difícil fazer algo que deixe uma marca efetiva e longeva. As mudanças são rápidas, mas a permanência delas é menor. A indústria musical sofre com isso gravemente: em 2017, os lançamentos surpresa que há três anos eram revolucionários, hoje já não chocam tanto. E o problema cada vez menos trata-se de acessibilidade: a permanência do que se acessa passa a ser a questão. Em 2007, a banda britânica Radiohead parecia perceber isso talvez sem sabê-lo.

Um lançamento, mesmo há dez anos, já não era um evento muito grande, cada vez menos especial tornava-se a data em que um álbum chegava às lojas e o evento de ir até lá comprar um CD estava cada vez mais enterrado. A inovação musical da banda não era necessariamente uma surpresa: traziam desde os anos 90 sons progressivamente mais complexos e experimentais, a densidade sonora só se aprofundava. Nesse sentido, a qualidade musical do disco In Rainbows se juntou com o método inovador de lançamento para ser relembrado sem esforço uma década depois.

Com um anúncio de apenas 10 dias e lançado na base do “pague-o-que-você-quiser” (no qual o ouvinte escolhia o preço a ser pago no álbum), o evento musical por si só já se tornava extremamente instigador. Combinar isso a um som carregado de cuidados e minúcias em toda a composição fez com que o lançamento pudesse ser facilmente encaixado em qualquer mês de 2017. A estreia física veio alguns meses depois acompanhada de um encarte vibrante e colorido feito por Stanley Donwood, que estava no processo de gravação do álbum e tentou transmitir a atmosfera das sessões à arte, deixando atrás a ideia de retratar imagens mais urbanas: “é um álbum muito sensual e eu queria fazer algo orgânico” abordando também a forte presença de cores: “é colorido, é um arco íris, mas é meio tóxico ao mesmo tempo”, definição que, ao ser colocada em perspectiva com a coesão do álbum, faz muito sentido.

Foto da tela presente no site w.a.s.t.e. da banda, quando In Rainbows havia sido lançado

Uma mistura de composições acumuladas por dez anos, algumas que apenas haviam sido tocadas ao vivo e outras novas, o álbum é uma imersão que, apesar de todas as diferentes abordagens sonoras, parece fazer completo sentido quando se chega ao final. Um pouco menos pesado, rígido e eletrônico do que seus álbuns antigos, poderia ser considerado mais atípico comparado ao som que a banda construía em OK Computer (1997) ou Kid A (2000), por exemplo. Com fortes melodias até nos momentos mais experimentais, um pouco mais acessível, não deixava de ser inovador.

Parte do encarte do álbum

Ainda contendo a melancolia clássica da banda, camuflada em certos momentos por sons instigantes – os aplausos e a percussão constantes de 15 Step, por exemplo – a abordagem parece ser mais generalizada, menos politizada e, por vezes, mais leve, inspiradora e até romântica, mas não menos analítica.

Em 15 Step, a entrada para a sonoridade do álbum, já se percebe uma clara diferença e ao mesmo tempo uma marca excelente logo de início, revelando o tom pessoal e introspectivo que marcará grande parte do disco: “How come I end up where I started? / How come I end up where I went wrong?”.

Em seguida, Bodysnatchers parece apropriar-se da ambientação de 15 Step para torná-la muito mais explosiva, com uma interpretação forte por parte do próprio Thom Yorke. Talvez um ponto mais intenso logo de início, que pode remeter aos trabalhos anteriores da banda, inclusive com uma certa tonalidade política, algo fora da curva na totalidade do álbum.

A intensidade de Bodysnatchers logo se percebe como passageira em Nude, certamente um dos momentos altos do álbum, composição delicada e minimalista que ajuda a construir uma atmosfera até meio transcendental, com uma letra que reflete a mesmice de ideias na sociedade, e como aquelas diferentes são afastadas: “So don’t get any big ideas / they’re not gonna happen / you’ll go to hell for what your dirty mind is thinking”. O complemento perfeito é a leveza da voz de Yorke, fechando o primeiro trio de músicas de início e infligindo uma tonalidade ao disco.

Um destaque para a introspecção é encontrada em Weird Fishes/Arpeggi, na qual a instrumentação toma um papel de liderança. A voz de Yorke complementa relatando a frustração pela falta de sentimento e a necessidade de apenas sentir qualquer coisa (I’d be crazy not to follow / Follow where you lead / Your eyes / They turn to me), sensação que parece tomar uma outra faceta em Faust Arp, algumas músicas depois. Faust refere-se a Fausto, nome análogo a uma figura que faz um pacto com o diabo no intuito de atingir poder e felicidade. Ao longo da letra, que se destaca por uma certa velocidade e remete a um fluxo de consciência do narrador, reafirma-se a constante insatisfação e peso que esse (representado na figura do Fausto) carrega, chegando em certos momentos a aceitá-la como algo inevitável: “Dead from the neck up / I guess I’m stuck, stuck, stuck / We thought you had it in you / But no no no”.

A canção All I Need mistura bem a exemplificação do romântico-melancólico desse álbum, numa abordagem que se aproxima a, possivelmente, o maior hit da banda,Creep. O narrador relata o seu sentimento de impotência perante o amor não recíproco. Porém, enquanto Creep era marcada por uma certa explosão de sentimentos e um ritmo pesado, All I Need se destaca por certa suavidade geral, numa evolução pelos sintetizadores no começo enquanto Yorke canta uma letra carregada: “I’m a moth / who just wants to share your light / I’m just an insect / Trying to get out of the night / I only stick with you / Because there are no others / You’re all I need / You’re all I need”.

Mas o ponto alto (e belo) da composição e a liberação emocional encontram-se no final: um outro no qual o piano merece destaque, em que Yorke repete: “It’s all wrong/ It’s all right”. A relação com Creep se torna interessante ao compararmos os 14 anos que diferenciam o lançamento das duas, denotando a evolução de uma banda que explorou em todo esse tempo uma grande diversidade de sons, mas que consegue que ambas tenham a mesma identidade, enquanto All I Need ajuda a manter a coesão de In Rainbows.

All I Need representada no encarte do álbum, com letra

Outro momento mais sentimental e até feliz é encontrado em House of Cards, um passo a mais no minimalismo do álbum, com uma letra remetendo ao sentimento por alguém inacessível, com um certo tom de persuasão (forget about your house of cards / and I’ll do mine). A expressão house of cards poderia ser associada a algo frágil ou inseguro, mas novamente a letra passa por uma virada no final, quando Yorke repete denial sucessivamente, assemelhando-se ao que ocorre em All I Need.

Um distanciamento da análise interna abre caminho para uma sentimentalidade nostálgica em Jigsaw Falling Into Place, uma retomada a tempos anteriores da banda. Thom Yorke chegou a dizer que se trata dos “momentos bêbados que o grupo relembra com carinho, principalmente da época da universidade”. A música vai construíndo uma figuração e parece haver um contínuo aumento de intensidade que se alinha à voz de Yorke, outro ponto que representa uma certa quebra da leveza do álbum.

O disco retorna à sua monumentalidade e transcendência em Videotape, uma progressão iniciada com piano à que se vão adicionando elementos de percussão que parecem se sacudir, apoiados por um vocal, que assumem completo controle da música e vão aumentando sua presença para depois se encaixarem. Com uma letra extremamente melancólica, apresenta-se uma figuração que remete à própria gravação do narrador como sendo sua última, na iminência de morrer, mas que se mistura com elementos de felicidade e plenitude que poderiam dar a entender esse momento específico como o verdadeiramente feliz e por isso, o registro. A canção dialoga com Faust Arp ao reconectar a figura de Fausto que, segundo a literatura, atinge um momento de felicidade exato apenas em sua morte.

Videotape passa a ser a melhor forma de encerrar um álbum que transita por diferentes momentos emocionais e sonoros, mas que é caracterizado pela construção de uma atmosfera extremamente envolvente, seja pelo conteúdo denso das letras ou pela riqueza sonora presente, amarrada numa simplicidade e coesão que ajudam a dar completo sentido ao título In Rainbows. Em suma, o projeto como um todo caracteriza um marco que merece ser relembrado e que se estende a um contexto muito maior do que apenas a música (embora isso já fosse o suficiente) e conversa fortemente com o atual, principalmente por uma certa conferência de responsabilidade aos próprios consumidores para determinarem o valor (mesmo que monetário) daquilo que consumiam, algo raro.

É possível que o marco de um disco como o In Rainbows continue sendo retomado tanto por aqueles que apreciam a beleza de sua construção ou pelos que debatem sobre o impacto do seu lançamento.

Últimas duas páginas do encarte do álbum

Texto: Daniel Medina

Fonte: Jornalismo Júnior/USP