A despensa de São Paulo

A despensa de São Paulo

CÁSPER LÍBERO

Com a greve nacional dos caminhoneiros em maio de 2018, a companhia de abastecimento foi afetada e houve uma drástica escassez de mercadorias / Foto: Mauricio Abbade

A Ceagesp é dividida em dez pavilhões, cada um destinado ao comércio de um produto diferente / Foto: Georgia Ayrosa
Em fevereiro de 2018, o ex-prefeito João Doria (PSDB) afirmou que a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp)  vai mudar de local até 2020. A área de 600 mil m² hoje localizada na Zona Oeste de São Paulo, abrigará futuramente um Centro Internacional de Tecnologia e Inovação. No dia 16 de março, o Governo do Estado de São Paulo divulgou quatro propostas para a construção da “Novo Ceagesp ”. Todas as proposições para o novo local são próximas ao Rodoanel e os investimentos vão de R$ 1,3 bilhão a R$ 2,3 bilhões. Até a publicação desta reportagem, “não há nada definido ainda sobre a possível mudança”, afirma Inacio Shibata, da Coordenadoria de Comunicação da Ceagesp.

A Ceagesp, conhecida por sua participação no mercado da hortifruticultura e armazenagem de grãos, foi inaugurada em maio de 1969 por meio da junção de duas empresas mantidas pelo governo do Estado de São Paulo: as centrais de abastecimento (Ceasa) e a Companhia de Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Cagesp).

Hoje, a Ceagesp possui a maior rede pública de armazéns, sinos e graneleiros do estado e é o maior entreposto da América Latina. Durante a paralisação dos caminhoneiros em maio de 2018, o abastecimento da companhia ficou comprometido, assim como os de demais centros comerciais do país. Nos dias que durou, ela acarretou no aumento dos preços de diversos alimentos. Em relação a semana anterior à paralisação, quando o volume registrado foi de 63.258 toneladas, houve queda de 46,5%. Assim, os atacadistas deixaram de comercializar cerca de 29.419 toneladas. O fluxo financeiro também caiu cerca de 45,5%, passando de R$ 158 milhões para pouco mais de R$ 86 milhões (dados fornecidos à imprensa pela Companhia).

O varejão, a feira na qual ocorre a venda para o consumidor direto, movimenta mais de 250 toneladas de frutas, verduras e legumes mensalmente / Foto: Bruno Ascenso

Renan Torres acredita que “o tabuleiro da feira é passado de pai para filho” / Foto: Isabella von Haydin
HORTIFRUTI 

A barraca de Renan Torres, de 26 anos, dispõe dos mais diversos tipos de frutas, emolduradas por folhas de alface e os papéis pendurados com os preços das mercadorias por quilo. Qualquer um que passa por ali é cumprimentado com alguma fruta diferente, como pitayas amarelas, ou combinações exóticas, como morangos e tâmaras.

Além de negociante e dono da barraca, Torres trabalha há 12 anos como feirante, sendo três na Ceagesp . Hoje com 26, ele comenta sobre como foram os dias de trabalho no período de greve dos caminhoneiros, em maio de 2018. Ao passo que alguns produtos estavam em falta, as vendas não foram afetadas em certas barracas. “Não senti muita diferença, não. O povo que achava que nossos preços estavam altos por conta da falta de abastecimento estavam errados. Ainda tinha muita fruta armazenada aqui, então não teve tanto aumento no preço e nem faltou alimento. Caso tivesse continuado a greve, aí sim começaria a piorar”.

Semanalmente, no pavilhão das flores e plantas, circulam entre 10 mil e 16 mil pessoas e são comercializadas entre 800 e mil toneladas de mercadorias / Foto: Bruno Ascenso

Semanalmente, no pavilhão das flores e plantas, circulam entre 10 mil e 16 mil pessoas e são comercializadas entre 800 e mil toneladas de mercadorias / Foto: Saulo Tafarelo
PAISAGISMO

De madrugada, a Ceagesp é um lugar frio e florido. Com flores, ervas, ramos e quase todo tipo de planta ornamental, e até comestível, que se pode imaginar. Além disso, vários vendedores conversam enquanto bebem chá ou café entre os carros de carga que passam quase atropelando qualquer um que resolva dar uma pausa para admirar as mercadorias. A maioria dos vegetais é vendida por atacado, mas é possível comprar até pé de morango e ora-pro-nobis, planta com alto teor de proteína, no varejo.

Fundado em 1969, o espaço é local de trabalho para cerca de 800 pessoas entre licenciados, funcionários e carregadores autônomos / Foto: Rafaela Bonilla

Fundado em 1969, o espaço é local de trabalho para cerca de 800 pessoas entre licenciados, funcionários e carregadores autônomos / Foto: Rafaela Bonilla
PESCADOS

O cheiro de peixe é forte e o movimento, agitado. “Aqui é mais barato!”, gritam os comerciantes. Caminhões estacionados mostram a carga e descarga da mercadoria enquanto os visitantes passeiam pelos corredores. Em média, são comercializadas 200 toneladas de peixes de 97 espécies por dia. Os de água salgada representam 90% desse total. As importações são aproximadamente 6% das vendas, com destaque para o salmão chileno.

A Semana Santa é a época do ano que mais gera lucro ao atacado de pescados. O volume comercializado é triplicado e é justamente nesse período que ocorre, anualmente, a Santa Feira do Peixe. Nela, os comerciantes vendem frutos do mar no varejo e a preços especiais. Milhares de pessoas vão em busca de produtos para o almoço da Sexta-feira Santa e do Domingo de Páscoa, incluindo o famoso e tradicional bacalhau.

Por Bruno Ascenso, Georgia Ayrosa, Isabella von Haydin, Mauricio Abbade, Rafaela Bonilla e Saulo Tafarelo

FONTE: Cásper Líbero