De Holcomb para o mundo e para a história

O crime brutal que pôs fim a uma família do vilarejo ganhou notoriedade com a obra que viria a ser um best-seller da literatura.

Truman Capote, com seu característico estilo policial e investigativo, é um dos grandes nomes do jornalismo literário. “A sangue frio” (Companhia das Letras, Sergio Flaksman, 432 páginas, R$50), publicado em 1965, estreou o “romance de não-ficção”, novo gênero reconhecido pelo próprio autor. A obra-prima, que levou seis anos para ser concluída, trouxe prestígio e relevância ao escritor norte-americano. 

Apesar de ser uma história criminal, o livro não apresenta suspense como elemento de destaque, visto que os principais acontecimentos aparecem logo na capa. Isso em nada prejudica a trama, pois a costura dos fatos ocorridos no desenrolar da história é feita de maneira irrepreensível. A relação íntima com os personagens é o grande elemento da narrativa, o leitor é inserido na pequena cidade de Holcomb, no estado do Kansas, de tal forma que se sente amigo da vizinhança. Esse é o fator essencial para comover e arrancar lágrimas de quem lê a descrição detalhada do assassinato de Herbie, Bonnie, Kenyon e Nancy Clutter, a família carismática e querida por todos da região.

A história dos dois criminosos, Perry e Dick, é contada simultaneamente ao dos integrantes do clã exterminado e das demais personagens da narrativa. São abordadas suas trajetórias, motivações, aflições e traumas que culminaram no extermínio do clã naquele fatídico 14 de novembro de 1959, quando seus caminhos fatalmente se interceptaram com os da família Clutter. “A justiça tarda, mas não falha” em um estado onde a população é predominantemente conservadora e quer fazê-la com as próprias mãos, o destino é a morte. Em uma cena de tirar o fôlego também do leitor, os assassinos se despedem da trama pendurados na forca. 

Truman Capote conseguiu, em uma escrita extremamente detalhista, manter o interessado ao longo das mais de 400 páginas da obra. Um livro que merece ser lido com total atenção e, se possível, relido, pois “A sangue frio” presenteia o leitor com uma narrativa de tamanha magnitude que seria um crime perdê-la.   

Autor: Felipe Conte.

Foto: Arquivo Pessoal/Isabela Zamboni.

Fonte: PUC-RS.