Da arte dos palcos para o universo das redes

Por conta das medidas de prevenção do novo coronavírus artistas e coletivos de teatro sofrem os efeitos da pandemia e se reinventam no ambiente virtual

Da arte dos palcos para o universo das redes

A arte foi um dos setores mais afetados no cenário da pandemia, mas em tempos de isolamento, ela nunca foi tão necessáriaNas palavras do escritor León Tolstói “a arte é um dos meios que une os homens”, mas em meio ao distanciamento social, como é possível manter a essência do teatro através de um encontro virtual?

Dados da pesquisa “Percepção dos impactos da covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil”, divulgados através da Agência Brasil, mostram que os segmentos culturais e criativos pretendiam gerar R$ 43,7 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB) até 2021.

A arte de se reinventar em meio as câmeras

A fim de não perder o vínculo com o público, o uso da tecnologia tem sido uma alternativa e uma forma de experimento para alguns artistas, após o fechamento das casas de espetáculos.

O diretor e produtor de teatro Sergio Zanck,41, já coordenou oficinas de teatro em diversas instituições públicas e privadas na região do ABC. Ele teve que adaptar as suas criações para o universo digital em decorrência do novo coronavírus. Residindo atualmente em Buenos Aires, Argentina, o artista ainda sente os efeitos da pandemia sobre o ofício. “Eu tava trabalhando com quatro espaços culturais e desses quatro, três já decretaram falência. Não conseguiram se manter com o cancelamento de todas as atividades”, explica Zanck.

Hoje, a máscara é considerada um acessório importante na prevenção contra a Covid-19, mas a relação do ator com elas, têm uma outra dimensão. Especialista em teatro físico e de máscara, ela é dramática, sendo um instrumento de trabalho que o artista utiliza durante as aulas que ministra no ambiente virtual. Atualmente com a oficina online “Aproximação as Máscaras em Tempos de Isolamento”, Zanck comenta sobre os obstáculos que têm enfrentado nas redes. “Tenho sentido que o universo online gera muito mais esforço em horas de trabalho. Você tem que preparar muito material, a gente não é muito familiarizado com a tecnologia. Fazer a adaptação da sua linguagem para o mundo virtual é bem difícil, porque o teatro depende do encontro presencial”, diz Zanck.

Em história semelhante à de Zanck, a atriz Letícia Salis,42, também teve as atividades interrompidas. “O espetáculo de palhaço “Ayurca” no qual eu tava apresentando na Casa de Arte e Cultura, em São Caetano, teve que parar. “A gente que é artista está habituado a fazer muitas coisas, a não parar e a gente se viu parando, literalmente”, diz Letícia. As luzes do palco se apagaram temporariamente para a artista, mas através da internet, uma porta se abriu. A convite de uma amiga, a atriz começou a contar histórias para crianças através do canal “Desvendando” no Youtube. “A questão de a criança estar em casa com os pais, e eles terem que ajudar os filhos com as matérias da escola, a questão de não poder sair, tudo gerou um lado muito pesado, então o “Desvendando” veio para trazer um pouco de leveza para esse momento. Não é porque a gente é ator e atriz que a gente tem essa desenvoltura diante do vídeo, mas foi muito legal se descobrir na frente da câmera. Ainda não está perfeito, mas a gente está aprendendo”, explica Letícia. Atualmente, a atriz criou o seu próprio canal “Leleca Brincalhona” no youtube. 

A fusão do áudio visual com o teatro

O teatro no ambiente virtual é considerado arte em sua essência? Especialistas em artes cênicas afirmam que o teatro necessita da presença física do ator e a presença física do público. Ainda na opinião de Sérgio Zanck, a apresentação de uma peça através da internet pode ser considerada uma nova linguagem, mas não teatro. “Eu acho que o que a gente faz pela internet não é teatro, mas pegamos ferramentas emprestadas do teatro, do cinema, da televisão, do vídeo, da música, das artes visuais, pintura, escultura, foto. Já as oficinas de teatro online, estão funcionando, há uma troca dos alunos”, comenta o diretor. Já na concepção de Letícia, o teatro online é um experimento. “Estamos aprendendo, o artista tem essa mente de transformar tudo em arte. Tudo vira um jogo, uma aula. Eu vejo muitos grupos e cursos acontecendo de uma forma muito mágica. Ainda é estranho, mas eu acho que vem muita coisa boa por aí. Tudo isso que veio foi para nos mostrar que é possível realizar tantas coisas que não acreditávamos”, afirma a atriz.

A importância das políticas públicas e de leis de fomento para o setor cultural

No início da pandemia,um abaixo-assinado com aproximadamente mil assinaturas de artistas e munícipes de São Bernardo do Campo foi entregue à administração do prefeito Orlando Morando (PSDB), cobrando transparência na utilização de recursos do Fundo Municipal de Cultura e o lançamento de editais de cultura para auxiliar a classe artística da cidade.

No dia 5 de junho, a Secretaria de Cultura e Juventude da cidade de São Bernardo, lançou um edital, que tem como objetivo atender até 50 participantes do município, cada um recebendo R$ 600, através do FAC (Fundo Assistencial de Cultura).

Fernanda Alvarenga Lopes, 41, responsável pelo Guia ABC Cultural e integrante do FACA, (Fórum Aberto de Cultura e Arte), conta que essas associações surgiram de uma necessidade dos artistas e que vem sofrendo com os impactos da pandemia. “Nós tínhamos as peças, as apresentações, coreografias, estudos e leituras dramáticas prontas para executar, mas não tinha onde divulgar. Normalmente, a página de cultura dos jornais regionais era lotada, então não dava para abarcar as iniciativas independentes”, explica Fernanda.

Sancionada pelo Governo Federal em 29 de junho de 2020, a Lei Aldir Blanc é destinada a ações emergenciais para o setor cultural durante o estado de crise sanitária, causado pela pandemia Covid-19. Na opinião de Fernanda, a Lei é uma conquista, mas não será a salvação para o setor artístico devido a burocratização, mapeamento da parte do pós-balsa, que é um outro universo de artistas desassistidos pela cidade e também pela difícil comunicação dos conselheiros de cultura com a secretaria de Cultura de São Bernardo.

O ator e produtor Tércio Gomes, 37, integrante da Cia “Os Pândegos”, em São Bernardo, acredita que o projeto de Lei Aldir Blanc demorou para chegar. “Eu acho que ela veio muito tarde por parte do governo. Os artistas foram largados, não tínhamos a quem recorrer, quem nos representasse, ninguém que olhasse por nós nos últimos anos e no início da pandemia. Muitas trocas de secretários na cadeira da secretaria de cultura. Mas eu espero que a Lei consiga atingir todos os artistas e que os critérios não dificultem a execução”, diz Tércio. 

Para saber mais sobre a regulamentação e repasse da Lei Aldir Blanc, acesse o site da Secretaria De Cultura e Juventude de São Bernardo do Campo: https://www.saobernardo.sp.gov.br/web/cultura/lei-aldir-blanc

Autora: Priscila Tiburski.

Fonte: Metodista.