Covid-19 impacta atendimento dos pacientes que precisam de cuidados paliativos

Isolamento social imposto pela pandemia tem impedido contato entre doentes e familiares.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), define cuidados paliativos como o controle de dor e sintomas de doenças que não apresentam possibilidade de cura, proporcionando aos pacientes maior qualidade de vida. Durante a pandemia do novo Coronavírus, a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), publicou diversos materiais para auxiliar profissionais e equipes paliativistas a fim de estabelecer diretrizes para manutenção do cuidado humanizado para os pacientes nessa condição, com e sem Covid-19.

A ANCP reforça o uso da telemedicina para comunicação com o paciente e reunião com familiares, tanto para os casos que o paciente testa negativo, quanto positivo, para que os riscos de contágio por ambas as partes sejam reduzidos, em especial, pelos pacientes paliativos já apresentarem baixa imunidade. A orientação é que hospitais e clínicas funcionem com capacidade de contingência, substituindo, adaptando e realocando recursos e equipamentos para atendimento da demanda, além de priorizá-los para os pacientes com maior possibilidade de melhora ou que mais necessitam.

Para os pacientes que não estão infectados pelo Covid-19 e apresentam um bom prognóstico, a ANCP aconselha a ida dos pacientes para casa, para liberação de leitos e equipamentos, e a facilitação da burocracia para alta hospitalar e transferência dessas pessoas para o home care.

Como os hospitais e clínicas estão se adaptando

O isolamento imposto pela pandemia exigiu que hospitais e clínicas que oferecem cuidados paliativos revisassem seus protocolos e adaptassem as rotinas. Samir Salman é superintendente do Hospital Premier em São Paulo e conta como a instituição decidiu agir quando a OMS decretou estado de pandemia. “A gente tomou a decisão radical de fechar o hospital e convocar quem quisesse trabalhar que ficasse. A partir daquele momento, havia uma decisão da diretoria de não sair mais do hospital”.

Salman explica que essa decisão foi tomada visando amenizar os riscos de contaminação dos pacientes. Dos 220 funcionários do hospital, cerca de 90 pessoas decidiram permanecer no local por 100 dias, em revezamento de funções que iam desde a limpeza até o cuidado direto com os pacientes. O superintendente acrescenta que ter atingido o êxito de zero pacientes infectados, mostrou que a decisão foi correta. 

Para garantir o contato dos pacientes com seus familiares, parte crucial no atendimento dos cuidados paliativos, videochamadas foram realizadas e um muro de vidro foi construído no hospital, possibilitando que se vissem mesmo sem poder se tocar. O muro também foi utilizado pelos funcionários que permaneceram na instituição, que além de local de trabalho, virou lar nesses três meses de isolamento.

Em Santo André, a clínica Nobre Saúde, referência nos cuidados paliativos na região, também adotou restrições de visitas dos familiares aos pacientes durante a pandemia. A clínica investiu em ações como videochamadas às terças e quintas-feiras, além de uma central de dúvidas dedicada exclusivamente para os familiares e uma Central de Acolhimento ao Trabalhador garantindo a saúde mental dos funcionários nesse período.

Eduardo Santana, diretor executivo da instituição, afirma que embora seja necessário seguir esses protocolos de distanciamento para preservação dos pacientes, também é preciso ter empatia com o momento que está sendo vivido.

Santana conta que uma das pacientes foi infectada pelo Covid-19 e apresentava uma situação de finitude. Foi então que a equipe paliativista, após avaliar todos os riscos, decidiu convidar os seus familiares para uma visita e despedida. Com todos os equipamentos necessários para proteção, a visita ocorreu e além de proporcionar um momento de afeto, no dia seguinte, a paciente apresentou melhora no seu quadro clínico.  “A gente seguiu todas as orientações de proteção e conseguiu trabalhar e ouvir os anseios e desejos da paciente, que está bem, sem sequelas e feliz”.

O outro lado 

Embora muitos locais tenham se esforçado para manter o atendimento humanizado, para pacientes paliativos neste período de distanciamento social, na prática nem sempre funciona assim. Fernanda Rodrigues de Melo, auxiliar administrativa, perdeu sua avó de 69 anos quando a aposentada deu entrada no Hospital Central de São Bernardo, com início de derrame, e foi internada na UTI ainda consciente.

Fernanda explica que a família foi impedida de estar com ela por causa do coronavírus e um dia depois, ficaram sabendo por boletim médico, que ela estava intubada. “Foi quando a assistente social disse que minha avó entraria nos cuidados paliativos, que se precisasse de uma massagem cardíaca eles não fariam mais, foi algo bem cru, rápido, sem humanização”.

A administradora enfatizou que após muitas discussões com o hospital, permitiram que sua mãe visitasse a avó e conferisse as informações passadas pela instituição. “A levamos para o hospital totalmente consciente, mas não a vimos em nenhum outro momento, somente no velório”.

Autor: Ariane Lima.

Fonte: Metodista.