A corrupção que corre para além dos gramados

USP

Em meio à crise política no Brasil, na qual a corrupção é o principal motivo para tal, o livro Ladrões de Bola(Panda Books, 2016), do jornalista esportivo Rodrigo Mattos, revela os mais ambiciosos acordos que eram fechados nos bastidores do futebol mundial. Nos seus 16 capítulos, Mattos coloca às claras o maior escândalo no mundo futebolístico e os brasileiros que estiveram envolvidos. Ele pôde conhecer muitos dos citados, fazendo com que o livro seja uma visão de quem realmente esteve próximo a tudo isso.

Reprodução da capa do livro “Ladrões de Bola”
(Imagem: Blog do Rodrigo Mattos)

Os principais personagens do livro são denominados cartolas. Segundo o Dicionário Online de Português “cartola”, no sentido figurado, é um “indivíduo de posição eminente, influente, que despreza a opinião e as tendências populares”. E é do que se trata esses grandes personagens do mundo real. Eles possuem uma enorme influência no esporte mais praticado do mundo e mesmo com denúncias de corrupção já feitas em alguns anos antes do estopim, eles ignoravam e as colocavam para debaixo do tapete.

O seu primeiro capítulo já relata a prisão de sete dirigentes da Federação Internacional de Futebol (FIFA) envolvidos em corrupção, fraude eletrônica e lavagem de dinheiro. Foi uma missão de alguns policiais suíços após três anos de investigações da Agência Federal de Investigação (FBI) e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Depois deste episódio retratado no livro, Mattos retorna há cerca de 25 anos para contar detalhes de como tudo começou, mostrando que essa corrupção está mais enraizada do que se tem imaginado.

É fato que a euforia deste esporte mexe com o Brasil, principalmente por ser considerado “o país do futebol”. Essa êxtase social faz com que muitas sujeiras passem despercebidas. Entretanto, não só de vitórias vive um clube ou Seleção, e é nessas fases que o que está sujo acaba aparecendo e o que parecia perfeito acaba se distorcendo.

No atual cenário político brasileiro não é diferente, até porque nenhuma vertente escapa. Políticos e dirigentes, de esquerda e de direita, possuem uma característica em comum: grande parte quer apenas alçar o poder para adquirir seu ganho próprio que, muitas vezes, é fruto de dinheiro público. E esse assunto foi bem retratado no livro: a hipocrisia que independe de ideias políticas defendidas.

No mundo dos cartolas, “caráter” era um termo em falta. O dinheiro era sempre colocado acima de qualquer coisa. Tudo que se poderia fazer para obter um maior lucro era feito, nem que esse tudo fosse passar por cima de contratos irregulares já realizados. Alguns cartolas, mesmo havendo eleições, tinham acordos que assemelhavam-se a contratos vitalícios, permanecendo, muitas vezes, por décadas no mesmo cargo ou na mesma área. Até porque eles continuavam “seguindo a lógica da cartolagem de que mais tempo é mais poder”.

Quem sofria e sofre com todo essa corrupção é a base da pirâmide no mundo do futebol: os jogadores. A principal investigação ocorreu na América do Sul (CONMEBOL) e América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF) onde há vários relatos de clubes prestes a falir, salários atrasados, campeonatos que possuem um valor muito abaixo do que devia e torneios inventados para aumentar o lucro dos cartolas ignorando as necessidades dos atletas. Foi assim que surgiu a Copa América Centenário, na qual os astros do campo tiveram “de ficar sem férias pelo segundo ano seguido para poder disputar mais uma competição inventada pelos cartolas”. E não é à toa que os principais jogadores sul-americanos migram à Europa onde encontram sucesso e um ótimo cenário para se realizar como futebolista.

Não bastasse as denúncias de subornos aos dirigentes para escolherem sedes de mundiais, a obra retrata que, em grandes campeonatos, os dirigentes, frequentemente, exigem que os organizadores dos países-sede arquem com os custos dos investimentos enquanto eles, posteriormente, desfrutarão dos lucros dos eventos. Eles forjaram a ideia de que tal nação era privilegiada por receber um campeonato da FIFA, quando na verdade esse país se tornava mais uma vítima dessa cúpula.

A obra consegue superar as expectativas de qualquer leitor por mostrar com detalhes o processo de corrupção que dominou por décadas esta grande entidade do esporte. Rodrigo Mattos conclui seu livro deixando no ar se, com a nova gestão, a FIFA reconquistará, de fato, a credibilidade então perdida. Por ser um acontecimento atual, não se surpreenda de estar lendo o livro e ouvir, na televisão ou rádio, algum spoiler da “próxima temporada”, porque, de certa forma, os protagonistas podem fazer com que surja uma continuação da obra. Ainda é muito cedo para tirar conclusões dessa afirmação. Porém, o que se pode torcer, no momento, é que a bola não retorne a ser roubada.

Texto: Jonas Santana

Fonte: Jornalismo Júnior/USP