Conheça a história de “Permaneço”, o curta vencedor de melhor filme do FECUCA deste ano

Há quem perceba a arte a partir de suas peculiaridades. Na literatura, a poesia que vira frase anotada no verso do caderno. Na música, a playlist favoritada no Spotify. Na fotografia, a foto especial enquadrada na parede do quarto. No caso de Taysa Barros, 19, contudo, todas essas linguagens estão interconectadas e encontram no audiovisual a oportunidade de formarem algo maior.

O impacto dessa visão integrada pode ser visto agora: Taysa é diretora e idealizadora do minidocumentário Permaneço, vencedor nas categorias de Melhor Filme e Melhor Fotografia do 24º Festival de Curtas dos Calouros, realizado entre os dias 20 e 22 de maio na Universidade de Brasília. O prêmio foi uma surpresa para a vencedora, que não planejava atuar no cinema ao longo da adolescência.

“Minha mãe sempre foi uma pessoa que comprou muito minhas ideias”

A partir desse apoio, Taysa começou a ensaiar canto e imaginar uma carreira como cantora algum dia. Com o tempo, contudo, ela descobriu a fotografia, e começou a faltar as aulas do coral para fotografar. A maior paixão? Autorretrato. Sem falar nas poesias que adorava ler.

Até o fim do Ensino Médio, o plano era se tornar uma cantora de sucesso. No meio do caminho, a ideia de cursar Artes Visuais na Universidade de Brasília veio a mente, a partir de uma professora próxima. A vontade só foi reafirmada depois que Taysa participou de um coletivo LGBT, mantido por um grupo de extensão da Universidade de Brasília (UnB). Entretanto, o destino acabou sendo pouco previsível e, hoje, Taysa cursa o 2º semestre de Comunicação Social – Audiovisual na Universidade. A oportunidade perfeita para unir todas as linguagens a que se apegou ao longo da vida, segundo ela.

Hoje, o amor pela música continua, mas não da mesma forma. O sonho de ser cantora ficou para trás, mas Taysa deixa claro que quer trabalhar na área de alguma forma. “A música nunca vai deixar de fazer parte da minha vida”, enfatiza. A estudante pretende utilizar o audiovisual a seu favor para isso e participar na produção de videoclipes e canções. A fotografia continua firme em seus trabalhos, a exemplo do prêmio de Melhor Fotografia do FECUCA.

O minidocumentário Permaneço é um pequeno demonstrativo dessa diversidade artística dentro de Taysa. Com uma canção reconfortante como O Peso do Meu Coração e um bate-papo sincero com o público, o curta mostra diferentes ângulos da Universidade de Brasília a partir da ótica de quatro estudantes. É um passeio agradável por um espaço que julgamos conhecer tão bem – sobre a nossa própria ótica.

Campus entrevistou Taysa para entender um pouco mais sobre a produção do curta, assim como a relação da própria estudante com o minidocumentário. Você confere o conteúdo completo aqui embaixo.

CAMPUS – De onde surgiu a ideia de produzir o curta “Permaneço”?

TAYSA – Então, eu tive a ideia em uma conversa com um amigo meu, o João, que também aparece no curta, no RU. Na minha primeira semana na universidade, ele me disse que vai para o refeitório mais alto para sentir o sol batendo. Nós temos a mania de ter esse tipo de conversa. Enfim, isso ficou na minha cabeça. Além disso, as minhas experiências em me adaptar a diferentes locais contaram muito, e eu comecei a observar os detalhes da universidade que me agradavam. Eu gosto muito de documentário também e eu falei ‘ah, eu acho que quero trabalhar com doc’. Daí eu pensei ‘talvez outras pessoas tenham outras histórias em outros lugares’ e é bem essa a ideia, de sentar, conversar e mostrar um pouco dessas diferentes perspectivas.

CAMPUS – Durante a produção de “Permaneço”, qual foi o principal olhar ou fio condutor que utilizou para guiar a história do minidocumentário?

TAYSA – A linha do curta é mais uma questão de conversa descontraída. Eu quis manter a mesma coisa que eu tive com o meu amigo na primeira conversa do RU. Tanto que todas as entrevistas eram assim: a gente marcava com a pessoa, sentava e conversava. Tinha um roteiro básico de perguntas, com nome, idade, curso e lugar preferido na UnB, com alguma história especial para contar. Mas sempre tentei puxar as entrevistas sempre para o lado da conversa. Tinha que responder algumas perguntas específicas, mas não deixava de ser uma conversa. E essa é uma linha que já sigo no meu trabalho de fotografia (…), essa questão de entrar em contato com novas narrativas e se aproximar de pessoas, uma coisa mais descontraída. Até para que as pessoas se sintam mais confortáveis, porque aquele formato de muitas luzes na cara da pessoa, do ‘senta aqui e responda essas perguntas’ pode inibir bastante o entrevistado e impedir que a gente consiga informações muito boas. Então, é uma coisa de ‘a gente não se conhece, mas vamos ser amigos só um pouquinho’, sabe?

CAMPUS – Como você e sua equipe construíram esse espaço de conversa com os entrevistados do minidoc, para os deixar mais à vontade?

TAYSA – Então, no caso do João e da Fernanda, a conversa já fluía mais, porque já nos conhecíamos. No caso do Jorge e da Neemé foi diferente, porque não nos conhecíamos, mas foi super tranquilo. Foi uma coisa muito intuitiva, é uma experiência que já tenho da fotografia. E eu sou uma pessoa muito sociável e consigo puxar conversa com facilidade. No caso do Jorge, por exemplo, ele chamava o ICC de passarelas. Ele dizia ‘o meu lugar são as passarelas’. E eu perguntava ‘certo, mas por que passarelas?’. E ele foi me explicar o motivo, e eu amei. Enfim, foi bastante intuitivo, uma coisa mais fluida. Não sei se tem um método específico pra isso.

CAMPUS – Depois que você coletou as entrevistas, como foi o processo para transformar todo o conteúdo em uma única linha narrativa?

TAYSA – Também foi bem intuitivo. Como era bastante material, antes mesmo de terminar as entrevistas, eu já fui editando algumas imagens, colorizando e cortando algumas cenas. Na hora da montagem, eu joguei tudo no Premiere, tanto os vídeos como os áudios, e fui analisando. Eu já tinha certeza da primeira cena, com o teto do ICC, porque eu olho pro teto toda vez que eu chego aqui e penso ‘cara, isso é muito bonito’. O resto eu fui encaixando. Eu também já sabia que tinha de ter detalhes da universidade, como as plantinhas. Ah, e eu me guiei bastante pela música do Castello Branco para encaixar as cenas. No primeiro toque do violão, por exemplo, eu queria colocar a primeira imagem da Fernanda. E por aí foi, bem intuitivo.

CAMPUS – E por que decidiu usar a música “O Peso do Meu Coração”, do Castello Branco, no curta?

TAYSA – Eu gosto muito de Castello Branco, e eu lembro de que eu estava em um rolê de fazer o clipe de um garoto. Ele foi na minha casa pra gente gravar a música, só que eu olhei pra ele e pro amigo dele, e eu pensei ‘cara, nada a ver essas pessoas comigo’. Tipo, não sairia pra rolê com elas. Pessoas muito diferentes de mim. No final, depois da gravação, eles decidiram cantar uma música e eu fiquei de gravar para o Instagram deles. Eles decidiram tocar O Peso do Meu Coração e, na época, eu não conhecia. Mas quando eles tocaram eu fiquei muito feliz. Me deu um conforto tão grande. Eu pensei ‘cara, eu não tenho nada a ver com essas pessoas, mas a partir do momento que eles começaram a cantar eu me senti em casa’. Aí eu falei, nossa, de certa forma, a música deixa as pessoas no mesmo patamar. Ela meio que une as pessoas, sabe? Então, quando eu comecei a pensar em músicas de fundo para o curta, Castello Branco era uma das opções, e eu acabei escolhendo ela por conta do comecinho que casava muito bem com as primeiras cenas.

CAMPUS – Se você tivesse a oportunidade de melhorar algumas coisas em “Permaneço” para concorrer em futuros festivais, o que mudaria?

TAYSA – Acho que coisas técnicas que aprendi depois da produção. Eu mudaria nada em questão de direção e conversas que tive, seria mais em pontos técnicos mesmo. Questões como estabilização de câmera e outros pontos referentes à fotografia.

CAMPUS – O seu curta levou o prêmio de Melhor Fotografia do festival. Quais referências você utilizou para a fotografia de “Permaneço”?

TAYSA – Eu sou muito ruim com nomes de referência, mas tentei seguir a linha do meu trabalho de foto na colorização, deixando tudo quentinho e puxando para cores com essa sensação. Mas tudo é referência, né? Eu gosto muito de literatura, de poesia. Por mais que não seja uma referência visual, eu acho que agrega bastante no trabalho final.

CAMPUS – Ainda sobre referências, mas dessa vez no cinema, você admira algum nome específico que trabalhe com documentário?

TAYSA – Eu gosto muito do Eduardo Coutinho, inclusive nessa parte de conversas. Tem um documentário dele chamado “Últimas Conversas”, que é incrível. Admiro muito a forma com que ele tira informações das pessoas da forma mais singela possível.

Autor: Gabriel Bandeira

Fonte: UnB