Como surgem os vícios?

Beber apenas aos fins de semana, fumar esporadicamente, comer doce só de vez em quando: práticas relativamente comuns no cotidiano dos brasileiros. Mas o que faz com que o consumo eventual de determinadas substâncias se torne cada vez mais recorrente, podendo até se transformar em um vício?

A psicóloga Natália Ragghianti, especialista em dependência química, explica que a linha que separa o uso do “vício” — terminologia popular para designar dependência — é tênue. A principal diferença entre os dois é que o segundo sempre oferece efeitos de risco ao dependente e àqueles com quem convive.

Vício, abuso e a dependência

De forma experimental e esporádica a exagerada e prejudicial, o uso do álcool e de outras drogas pode ser inserido em inúmeras categorias que não sinalizam o usuário como dependente. Para que haja essa distinção, existem alguns fatores que estabelecem as características de uma dependência. “Eles norteiam o médico psiquiatra a saber se aquela pessoa tem uma dependência ou não”, explica a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, especialista na área de Transtornos Relacionados ao uso de Álcool, Tabaco e outras Drogas.

De acordo com os critérios diagnósticos do Código Internacional de Doenças (CID-10), impostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), deve-se estar atento quando existe um desejo exagerado pelo consumo da substância, quando a tolerância a ela aumenta — ou seja, quando são necessárias doses cada vez maiores para obter o efeito pretendido — quando há o uso persistente, mesmo após serem apresentados prejuízos na saúde e no campo interpessoal, e quando o usuário perde o interesse ou coloca em segundo plano atividades que antes eram prazerosas para ele. Além disso, também são traços da dependência a abstinência, percebida quando a pessoa passa a ter sintomas de mal-estar (como tremores e taquicardia) na ausência da substância, e o descontrole, quando a quantidade de uso extrapola a planejada.

Um vício é diferente de um uso excessivo da substância. Camila explica que ter recorrentes problemas interpessoais, ou até legais, como ser pego em uma blitz, ao usar a substância ainda não caracteriza um quadro de dependência. Para isso, é preciso que o paciente apresente três ou mais sintomas impostos pela CID-10. Entretanto, é importante atentar-se ao diagnóstico de abuso, uma vez que ele apresenta um contínuo de gravidade: “Depois do abuso, pode vir a dependência”, diz a médica. 

Do ponto de vista neurobiológico

Comer, beber água, fazer sexo: todas essas são atividades prazerosas para o ser humano. Isso porque elas ativam uma região do cérebro conhecida como “centro de prazer e recompensa” (formada pela tríade entre o córtex pré-frontal, o núcleo accumbens e a região segmental ventral), que é responsável por identificar as mais variadas condições vitais do corpo — como a fome, a sede e o desejo sexual. Quando estimulada, essa área libera dopamina, um dos neurotransmissores causadores da sensação de bem-estar, e garante que os atos necessários para a sobrevivência humana sejam instintivamente repetidos. “A natureza explicou, de certa forma, essa região do cérebro”, afirma Camila.

Mas em que ponto essas ações podem estar relacionadas ao vício em drogas? A resposta é que o circuito também pode ser ativado pelo uso das substâncias químicas, levando à produção desproporcional de dopamina nessa região do cérebro. A sensação prazerosa dessa reação acaba estimulando a repetição do consumo e, com o passar do tempo, são necessárias doses cada vez maiores da droga para que a dopamina seja liberada na mesma quantidade anterior.

É por isso que as drogas consideradas “mais viciantes” são aquelas que dão mais prazer em um período de tempo mais curto, induzindo o uso frequente para que a sensação de satisfação seja prolongada. As drogas psicodélicas, por exemplo, apresentam um menor grau de dependência, não por causa de seus efeitos, mas sim porque elas permanecem muito tempo no organismo. “Quanto menos tempo os efeitos da droga duram no corpo, maior a chance da pessoa querer repetir o consumo, então ela se torna mais viciante”, explica a médica. 

Além do vício em drogas

A psicóloga Natália Ragghianti explica que os vícios são comportamentos que têm como consequência alguma gratificação emocional e não estão relacionados exclusivamente com o uso de substâncias químicas. Assim como as drogas, esses comportamentos também podem ativar o centro de prazer do cérebro e, quando feitos de forma repetitiva, interferir no seu funcionamento. Dentre eles, Natália destaca a compulsão por compras, por internet/celular, jogo patológico e o sexo compulsivo.

Esses comportamentos compulsivos que independem do uso de substâncias são uma realidade importante e, muitas vezes, minimizada, já que são comportamentos socialmente aceitos. O maior problema disso é a baixa conscientização quanto à necessidade de busca por ajuda.

Os outros fatores da dependência

A descompensação do centro de prazer do cérebro pode ser vista como uma das principais condições para o desenvolvimento de um vício. Entretanto, não é a única: a dependência é um quadro multifatorial, ou seja, outros fatores também podem estar relacionados com a evolução de um vício. 

Dentre eles, a psiquiatra destaca a idade de início do consumo como um dos mais relevantes: quanto mais cedo, maiores as chances da pessoa se tornar dependente da substância no futuro — isso porque, até os 20 anos de idade, o cérebro ainda está em processo de formação. As condições socioeconômicas também influenciam no desenvolvimento de comportamentos viciosos, já que a pessoa que vive em condições de vulnerabilidade pode, muitas vezes, encontrar na droga formas de lazer e minimizar os impactos que ela pode trazer.

A predisposição genética também é um importante fator a ser destacado: ela é responsável por metade das chances da pessoa se tornar dependente na vida. “Filho de alcoolista deve se atentar ao padrão de consumo e à idade de início”, alerta Camila. É possível ressaltar também a frequência e quantidade de uso e até o sexo biológico — um exemplo disso é que as mulheres são mais vulneráveis que os homens para bebidas alcoólicas, pois elas naturalmente possuem menos enzimas que metabolizam o álcool, explica a médica.

Todos esses são elementos de risco para a evolução de um quadro vicioso. A interação deles predispõe riscos para que a pessoa se torne dependente e o prejuízo disso se manifeste no corpo e nas relações interpessoais.

A busca por tratamento

Quando identificados os sintomas da dependência de uma substância, é importante buscar por ajuda. “Sugiro que a pessoa procure ajuda quando o consumo da substância está causando prejuízos na saúde, na rotina de trabalho ou estudos e nas relações pessoais”, diz Natália. Complementa alertando que o aumento da frequência e da intensidade do consumo são indicadores que também merecem atenção.

A psicóloga explica que a dependência química é uma doença crônica, portanto, não há cura. Entretanto, ela é totalmente passível de tratamento, que não é feito de forma única e padronizada para todos os indivíduos; a prática clínica leva em consideração as particularidades de cada pessoa, além das complexidades da doença. “Tratamentos que englobam os aspectos psicológicos, sociais, familiares, clínicos, psiquiátricos da vida do indivíduo, e não apenas o uso da droga em si, demonstram as maiores chances de sucesso.”

As grandes dificuldades para o tratamento de uma dependência são as próprias particularidades da doença. Exemplos são a ambivalência (o usuário, ao mesmo tempo, querer e não querer modificar seu comportamento), a oscilação nas motivações acerca do uso e também a continuidade do tratamento frente à falta de apoio. Outro fator é a resistência dos dependentes em buscar ajuda, principalmente aqueles que consomem substâncias lícitas e socialmente aceitas, como o tabaco e o álcool. Além disso, a psicóloga ressalta que, de uma maneira geral, há escassez de serviços especializados, dificuldade de acesso rápido e fácil, somado ao estigma e preconceito da sociedade e do próprio usuário. “O fator mais preocupante da busca tardia de ajuda é o agravamento da dependência e os prejuízos associados, o que dificulta ainda mais a adesão e permanência a tratamento”, finaliza Natália.

Autor: Victoria Borges

Fonte: Jornalismo Júnio/USP.