Como a insegurança alimentar tem afetado o sistema imunológico de mais de 10 milhões de brasileiros

Segundo pesquisa Datafolha, cerca de 88% dos entrevistados perceberam que a fome aumentou no país em 2021.

Entre as principais sequelas provocadas pelo surgimento da pandemia do novo Coronavírus, destaca-se o aumento do número de desempregados no Brasil. De acordo com dados divulgados em 27 de maio de 2021 pelo IBGE, a taxa de desemprego chegou à marca 14,7% da população, sendo o maior percentual desde 2012. Com isso, o acesso à alimentação básica tem sido restringido, fazendo o país voltar ao mapa da fome segundo classificação feita pela ONU, na qual mais de 5% da população encontra-se em situação de insegurança alimentar. 

Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha entre 11 e 12 de maio deste ano, contando com a participação de pouco mais de 2.000 pessoas de 146 municípios de diferentes regiões e classes sociais do Brasil, cerca de 41% dos entrevistados que receberam auxílio emergencial em 2021 dizem ter faltado comida em casa. 

O estudo revelou que nos casos de famílias com filhos de até 6 anos, 35% alegam que tiveram menos alimentos que o suficiente. Os dados ainda apontam que quando apenas um dos adultos do ambiente familiar está empregado, 29% não conseguem acesso à quantidade de comida necessária. 

É o caso da moradora do bairro Alvarenga, em São Bernardo, Amanda Reis, 30, que mora acompanhada dos três filhos pequenos e o marido, único adulto empregado da casa. Com dificuldade para se recolocar no mercado de trabalho e conseguir arcar com os custos do aluguel da casa, a desempregada comenta sobre a falta de alimentos. “Desde o fim do ano passado percebemos que acabaríamos passando fome, mesmo com o salário do meu marido e o auxílio emergencial.” 

A alternativa encontrada até o momento tem sido a busca por doações de cestas básicas. Especialmente com a redução do auxílio emergencial, que ao final de 2020 equivalia a R$ 600 e que suspenso desde o início deste ano, só retornou em abril, no valor de R$ 250, a família de Amanda passou a enfrentar a insegurança alimentar. “A solução foi pedir a ajuda da Central Única das Favelas, que tem uma sede em São Bernardo, onde a gente vai buscar as cestas básicas todo mês”, disse ela. 

Impactos da fome no sistema imunológico 

De acordo com o nutrólogo Pedro Dal Bello, a diminuição da oferta de nutrientes como proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais, pode gerar os mais variados sintomas. “Esses indivíduos podem sofrer forte impacto emocional e alterações orgânicas, que por vezes podem ser irreversíveis, como a deficiência em vitamina B12.”  

Entre os sintomas mais encontrados em casos clínicos de constatação de problemas causados por fome, o especialista destaca os efeitos gerados pela pobreza de ingestão de proteínas. “A pessoa tende a perder músculo e com isso apresentar cansaço, fraqueza, piora da imunidade, alterações em cabelos e unhas, palidez, turvação visual e palpitações.”  

Segundo Dal Bello, além dessas consequências, alimentos que são fontes de proteína também apresentam vitaminas e minerais, que trabalham em conjunto, sendo importantes para a manutenção do equilíbrio do corpo. 

Efeitos da insegurança alimentar em diferentes faixas etárias 

Para o nutrólogo Frederico Lobo, os riscos envolvendo a saúde de pacientes da faixa pediátrica, indivíduos com até 18 anos, se relacionam com a maior necessidade de nutrientes e a formação do organismo. “Quando há uma situação de insegurança alimentar ou até mesmo fome, com certeza isso repercutirá no crescimento do jovem e até mesmo na cognição.”  

Além disso, a exposição à pobreza nutricional pode facilitar que pessoas pertencentes a essa faixa etária desenvolvam doenças crônicas não degenerativas na fase adulta. Entre os problemas mais comuns gerados por essa situação, estão a diabetes e a hipertensão arterial. 

Outro grupo de indivíduos bastante fragilizado quando se encontram em situação de insegurança alimentar, são os que pertencem à faixa etária acima dos 65 anos, aponta o especialista. “Tendem a possuir um organismo com menos reservas de nutrientes e muitos já apresentam doenças associadas que podem por si só agravar a perda da massa muscular.”  

A exemplo do impacto de doenças preexistentes no organismo de pessoas idosas, até mesmo o uso de alguns medicamentos pode favorecer a perda nutricional. “O tratamento da diabetes tipo 2, por exemplo, conta com a Metformina, que contribui para a redução dos níveis de vitamina B12”, alerta o nutrólogo. 

De acordo com Lobo, no caso dos adultos, apesar dos riscos oferecidos à saúde pela alimentação inadequada, não há a mesma gravidade dos problemas que são gerados pela fome em crianças e idosos. 

Melhores opções de alimentos para doação 

Ambos os especialistas destacam que apesar da inacessibilidade às carnes, por conta da alta nos preços, é importante priorizar alimentos que são fontes de proteína e ferro durante a montagem de uma cesta básica. “Por não ser viável a compra de carne vermelha, que é rica em proteína e ferro, as leguminosas são uma boa alternativa, já que fornecem ambos, além de carboidratos e outros nutrientes.” 

Entre as opções sugeridas de leguminosas, estão feijão, soja, ervilha, lentilha e grão de bico. Além da ausência, em muitos casos, de alimentos ricos em proteínas citados anteriormente, o leite é outro elemento importante que acaba sendo deixado de lado quando as pessoas reúnem alimentos para doação, de acordo com os nutrólogos. 

Por fim, o erro mais comum na montagem de cestas básicas é o acréscimo exagerado de comidas com altas taxas de carboidrato refinado. “A maioria são ricos apenas em carboidratos e alguns fortificados com ferro e ácido fólico, porém, pobres em outros nutrientes como magnésio, zinco e fibras”, concluem os especialistas.

Autor: Mateus Bertole.

Fonte: Metodista.