Cartola: samba e lirismo

USP
Cartola: samba e lirismo

Do Catete ao Morro da Mangueira

Cartola nasceu em 11 de outubro de 1908. O Rio de Janeiro, a então capital do país, passava por reformas modernizadoras, aos moldes das reformas urbanas que tomaram lugar na Paris de 1853 até 1870. O projeto republicano urbanizador alargou ruas, construiu avenidas e criou praças. Para tanto, demoliu cortiços, destruiu vielas, expulsou moradores dos centros e alargou ruas. A empreitada modernizadora foi, na verdade, uma “faxina social”, que resultou na periferização da cidade e no crescimento das favelas cariocas.

Angenor de Oliveira, na verdade, nasceu Agenor. Assim foi registrado no cartório, por um erro de escrita. Mais tarde, quando trabalhou como pedreiro, por conta do chapéu que impedia que o cimento caísse em sua cabeça, passou a ser chamado por todos de Cartola.

O sambista passou o início de sua infância no bairro do Catete. De lá, foi para Laranjeiras, onde entrou em contato com os ranchos carnavalescos, agremiações que realizavam cortejos de carnaval, ao som das chamadas marcha-rancho. Lá, Cartola se aproximou do rancho Arrepiados, cujas cores eram rosa e verde.

Com um Rio transformado, ele e sua família tiveram que se retirar da zona sul e rumar para as bordas da cidade. Estabeleceram-se no Morro da Mangueira, em 1919. A ocupação do morro é datada do final do século XIX, mas a expulsão dos moradores do Morro do Castelo, no início da década de 1920, fez com que a população crescesse, aumentando também o número de pessoas envolvidas com os batuques afro-brasileiros, tradicionais na história do Morro da Mangueira.

Chega de demanda

A Estação Primeira de Mangueira foi fundada em 1928. Cartola foi um dos sete fundadores da consagrada escola de samba. Com as cores verde e rosa, as mesmas do grupo carnavalesco que marcou a infância do pequeno Angenor, a Mangueira teve seu embrião com o grupo Arengueiros, batuqueiros mascarados que por vezes tomavam as ruas cariocas.

A história da Mangueira está intrinsecamente ligada ao surgimento das escolas de samba do carnaval do Rio de Janeiro. Até 1920, as manifestações culturais das camadas populares urbanas provocavam forte aversão do Estado republicano. Este, com olhar positivista, queria disciplinar e controlar tais manifestações. O som dos batuques dos terreiros e dos sambas cariocas aterrorizava o Estado higienista brasileiro e as classes média e alta.

A população à margem dos planos daqueles que ocupavam o poder político e econômico descobrira no samba carioca um sentimento de pertencimento e de identidade. O samba conseguiu recriar os laços afetivos e familiares de uma população, em especial preta e pobre, que foi expulsa de seus bairros tradicionais. Mais que uma forma de diversão, o samba foi importante para a socialização dos grupos que se deslocavam durante as intervenções “urbanísticas” que a cidade sofria. Não fora à toa a perseguição sofridas pelos sambistas dessa época. Em maioria os negros, chamados de malandros e vadios.

O mesmo Estado, com o passar dos anos, passou a mudar sua estratégia. O controle não funcionava. As manifestações populares, principalmente na época de carnaval, resistiam. Havia também um desejo de aceitação social que crescia dentre as camadas populares. Ao mesmo tempo, blocos se uniam e se incorporavam em um movimento de nascimento das escolas de samba. A tensão social, lá fora das comunidades, se dava quando o “povo do morro” descia para desfilar na cidade. O desfile começa a ocorrer nos locais de onde, outrora, eles haviam sido expulsos, como a saudosa Praça Onze de junho. Aos poucos e aos trancos o samba começou a sair da marginalidade, ainda que Cartola e outros sambistas tenham sofrido repressões por agentes do Estado, mesmo depois da popularização da Mangueira.

Não há como saber a primeira vez que Cartola tenha se arriscado a escrever seus primeiros versos em uma folha de papel. Talvez nem tenha sido questão de se arriscar. Seus manuscritos quase não têm erros, rabiscos ou marcas de quem refez o verso mais de uma vez. É como se Cartola escrevesse sem dificuldades, de forma espontânea. A escrita à mão, bonita e determinada, faz dar a impressão de que as palavras lhe vinham de forma extremamente natural, sem esforço. O primeiro samba de Cartola a se tornar público foi também o primeiro samba de desfile da Mangueira. Chega de Demanda foi ouvida pela primeira vez em 1929.

Que infeliz sorte

Em 1930, Cartola foi procurado por Mário de Reis, através de Clóvis Miguelão, que subiu ao morro para comprar uma música. “Pensei em pedir uns 50 mil réis. O outro rapaz falou baixinho: ‘Pede uns 500 mil’. Eu disse: ‘Você está louco, o homem não vai dar tudo isso’. Com muito medo, pedi os 500 mil. Em 1932, era muito dinheiro. O Mário Reis respondeu: ‘Então eu dou 300 mil réis, está bom para você?’. Bom, ele comprou o samba mas não gravou. Quem acabou gravando foi o Chico Alves”, conta ele, ao programa MPB Especial, da TV Cultura, em 1973.

Cartola vendeu os direitos de gravação da letra Que Infeliz Sorte. O samba não se adequou à voz de Reis e acabou sendo lançada por Francisco Alves. Ironicamente, a canção não teve o sucesso esperado, mas serviu para apresentar Cartola a um outro público, para além daquele que acompanhava, de perto ou de longe, o crescimento da Primeira de Mangueira.

Nas décadas de 1920 e 1930, era muito comum a compra de sambas, principalmente aqueles escritos por talentosos letristas dos morros. Os sambas eram interpretados por artistas em sua maioria homens, brancos, da elite, que tinham boa aceitação com o público consumidor de música e que não sofriam a perseguição e não recebiam a alcunha de malandros, tal como os sambistas dos morros. As letras vindas do Morro da Mangueira logo se tornaram conhecidas pelos ouvidos do Centro. Mesmo que Cartola nunca tenha se deixado levar pelos padrões impostos pela indústria fonográfica daquele período.

Em seus 72 anos de vida, Cartola escreveu, sozinho ou com amigos, cerca de quinhentas canções. Entre suas parcerias, estão nomes como Noel Rosa, Carlos Cachaça e Elton Medeiros. As músicas de Cartola, outrora compradas por quem vinha de fora do morro, continuam a ser regravadas por muitos intérpretes. O Sol Nascerá, escrita no começo dos anos 1960, já foi regravada mais de seiscentas vezes.

O processo criativo firmado sobre tanta espontaneidade impressionava aqueles que conviviam com Cartola e impressiona hoje quem estuda suas letras, dignas de uma grande intimidade com o fazer literário. Não é por acaso que Cartola é chamado de “o trovador do samba”. A música Velho Estácio foi escrita em minutos, enquanto Cartola, com Nelson Sargento, aguardava a chegada do amigo Estácio, na Mangueira.

Muito velho, pobre velho

Vem subindo a ladeira

Com a bengala na mão

É o velho, velho Estácio

Vem visitar a Mangueira

E trazer recordação

Outra vez, no terreiro da casa de Carlos Cachaça, chega um sambista do morro e pede a Cartola que escreva a segunda parte de um samba que havia composto. Cartola escreve ali mesmo, no meio de uma aglomeração de amigos, a segunda parte de A Mangueira É Muito Grande. E era sim. Fazia os versos no ato.

Em Mangueira vêm vários artistas

Do exterior, até turistas

Só para ver o que a Mangueira tem

Sambar como nossas cabrochas ninguém

A Mangueira, minha gente, dá galhos pra todo lado

E oferece a semente

Dona Regina, filha de Dona Zica e Cartola, conta, em entrevistas, as várias vezes que observou, quando criança, o momento em que o pai colocava os versos no papel. “Me veio aqui um boi com a abóbora na cabeça agora”, disse o pai, em uma dessas vezes. “Eu vou me trancar no quarto e não me chama lá.” A inspiração vinha assim.

Para a Ocupação Cartola, do Itaú Cultural, Dona Regina conta, mais uma vez, sobre um desses momentos. “Tinha um jardim aqui na frente com uma roseira que deu muita rosa, cresceu. E a mamãe estava aqui na janela. Ela falou: ‘Cartola, essa roseira deu tanta rosa, por quê, hein?” e ele falou ‘Sei lá, rosa não fala’”. Uns dias depois, Cartola cantava As Rosas Não Falam pela primeira vez, para Dona Zica e Regina. Beth Carvalho, um tempo depois, foi à Cartola procurar uma música. “Ela falou ´Ah, Cartola, é minha. Não dá para ninguém, que é minha’ ”, conta Dona Regina.

Queixo-me às rosas

Mas que bobagem

As rosas não falam

Simplesmente as rosas exalam

O perfume que roubam de ti, ai

Nós dois

Na década de 1950, Cartola vivia um autoexílio da Mangueira e da música. Foi nesse período que ele reencontrou uma velha conhecida de infância, Euzébia Silva do Nascimento. Dona Zica foi o grande amor de sua vida. Os dois ocuparam juntos os mais diversos espaços, até a morte de Cartola, em 1980. Dona Zica participou ativamente da Estação Primeira de Mangueira e tornou-se grande símbolo do carnaval carioca, lembrada como sambista da velha guarda da escola. Foi ela quem o levou de volta à Mangueira e, desde então, passou a exercer papel fundamental em sua vida e em sua carreira.

Em 1963 e 65, o casal tocou juntos um bar, na Rua Carioca, que reunia a comida boa e o gosto pelo samba. Dona Zica ficou à frente da cozinha. No morro da Mangueira, ela era conhecida por saber cozinhar como poucos. Cartola comandava a programação musical, levando sambistas para tocar ao vivo no Zicartola, nome dado ao bar.

Em algumas noites, o Zicartola chegava a reunir centenas de pessoas, no reduzido espaço da casa, que adentravam pela espremida porta e se apertavam no salão para ouvir algumas vozes já consagradas na época, como Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho, e vozes que ali iriam estrear, como foi o caso de Paulinho da Viola, que ganhou seu primeiro cachê no Zicartola.

A casa tornou-se um ponto de encontro para sambistas. Segundo a placa que foi colocada no número 53 da Rua Carioca, anos depois, o “restaurante sediou o encontro cultural entre as zonas norte e sul da cidade”. O principal público da casa eram os jovens universitários, vindos da zona sul e interessados por sambistas antigos, por vezes esquecidos pelo público. Também foi por conta da efervescência do período em que surgiu, que o Zicartola tornou-se um reduto desses jovens, de intelectuais e de artistas que se mobilizavam nos anos iniciais da ditadura militar. Isso fez com que a casa se tornasse um espaço de resistência cultural ao golpe de 1964.

Em menos de dois anos, o Zicartola fechou suas portas. Por mais que o estabelecimento fizesse sucesso, desde as músicas à comida de Dona Zica, os problemas administrativos e financeiros falaram mais alto. Mesmo anos depois de seu fim, a casa ficou marcada como um dos espaços onde foi escrita parte da trajetória política e cultural do Rio de Janeiro.

Foi durante a convivência com Dona Zica que o sambista escreveu suas músicas de maior sucesso. Cartola e Dona Zica casaram-se em 1964. Para a ocasião, Cartola escreveu a música Nós Dois, uma de suas canções mais bonitas por conta da letra e da melodia.

Está chegando o momento

De irmos p’ro altar

Nós dois

(…)

Terminou nossa aventura

Chega de tanta procura

Nenhum de nós deve ter

Mais alguma ilusão

(…)

Nada mais nos interessa

Sejamos indiferentes

Só nós dois, apenas dois

Eternamente

O sol nascerá

No auge de seu sucesso, Cartola participou de uma série de apresentações promovidas pela União Nacional dos Estudantes, em 1970, chamadas “Cartola Convida”. Elas aconteceram na praia do Flamengo e reuniram grandes nomes do samba daquela época.

Só após os 65 anos, conseguiu realizar o sonho de gravar seu primeiro disco solo, intitulado “Cartola”, lançado em 1974. Em 1976, veio o “Cartola II”. Quem estampa a capa dos dois discos é o casal: Cartola munido dos costumeiros óculos escuros e Dona Zica vestindo um lenço nos cabelos, os dois na janela. A demora no lançamento do primeiro disco é explicada por uma vida conturbada, principalmente durante a juventude, quando saiu de casa após a morte da mãe, aos 17, e por uma sequência de falta de oportunidades que fizeram com que ele só se tornasse conhecido, de fato, na década de 1970.

Foi só nessa época que Cartola recebeu reconhecimento e consideração à altura de suas composições. Nos discos, cujo produtor foi Marcus Pereira, Cartola interpretou, entre outras canções, Tive SimAconteceO Sol NasceráAs Rosas Não Falam e Sei Chorar. Foi também nessa época, em 1974, que Cartola apresentou ao público, em um programa especial para a Rádio Jornal do Brasil, o sucesso O Mundo É Um Moinho, até então desconhecido.

Ainda é cedo, amor

Mal começaste a conhecer a vida

Já anuncias a hora de partida

Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

(…)

Ouça-me bem, amor

Preste atenção, o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos

Vai reduzir as ilusões a pó

Em 1978, Cartola deixou a Mangueira e se mudou para Jacarepaguá. O casal sempre voltava ao morro para rever amigos, jornalistas e artistas, que eram visitas frequentes na casa da família. Cartola adquiriu no novo endereço a sua primeira casa própria, buscando tranquilidade e sossego para continuar compondo e para se dedicar a um talento que, infelizmente, não pôde ser conhecido pelo público leitor naquela época, seus poemas.

Em uma entrevista exibida pela TV Cultura, em 1979, Cartola falou sobre a escrita de seus poemas. Eles não foram escritos para o samba, Cartola gostaria de reuni-los em um livro. “Quando eu tiver mais uma dúzia deles vou fazer um sacrifício (…) para que eu possa editar um livrozinho e deixá-lo para a posteridade”, explicou. Cartola morreu poucos meses depois, deixando preciosidades literárias como o poema “Obscuridade”, não datado e que talvez revele os sentimentos de um artista que só veio a ser reconhecido com certa idade. Cabe também a interpretação de poema pensando no sambista não como Cartola, mas como Agenor, homem, negro, que escrevia sambas no morro e que sofreu impedimentos e repressões por conta do lugar social que ocupou durante sua vida.

Passei pelo mundo sem ser percebido

Ouvindo a tudo

E a nada dando ouvido.

Segui pelo caminho que tinha à minha frente,

Mas não encontrei a estrada

Desejada em minha frente.

Nada fiz que aos outros tivesse interessado.

Tudo que fiz, fiz por dever ou acovardado.

Por nada tive paixão,

Mas nada fiz por ódio.

Se ausência de sentimentos

Não significa maldade,

Simplificando a história:

Vivi na obscuridade.

Texto: Giovanna Costanti

Fonte: Jornalismo Júnior/USP