Cara Gente Branca, militantes não são perfeitos

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Cara Gente Branca, militantes não são perfeitos

É com o nome da série que a protagonista Sam, interpretada por Logan Browning, introduz seu programa de rádio. Por meio dele, a personagem se posiciona como porta-voz do movimento negro da Universidade fictícia de Winchester e expõe suas opiniões a respeito da vida universitária com o intuito de “acordar” os estudantes brancos em relação aos seus privilégios.

A série, que estreou na Netflix no início de 2017, foi produzida por Justin Simien, diretor, roteirista e co-produtor de um filme homônimo lançado em 2014 e premiado no Festival de Sundance. A produção retrata situações que não se restringem à vivência dos negros norte-americanos. Elas também possuem uma relação muito forte com a realidade brasileira.

Isso inclui a realização de uma festa de Halloween para a qual os estudantes deveriam se fantasiar de negros, evento que remete à uma técnica de maquiagem teatral chamada “blackface”, com a qual atores brancos coloriam sua pele com carvão a fim de representar o negro de forma pejorativa e jocosa.

Pôster de um espetáculo de menestréis retrata a técnica “blackface”. Imagem: reprodução

Tal prática, lamentavelmente, também é muito comum no nosso país. Ela está presente tanto em fantasias de carnaval, quanto em caracterizações para peças publicitárias e produções humorísticas. Hoje, principalmente, é inaceitável que aqueles que a utilizam continuem fingindo inocência, uma vez que o ato é denunciado pela população negra desde sua popularização, ainda no século XIX.

 

Após confusão em festa, Reggie Green é abordado de forma violenta por policial. Imagem: reprodução.

O seriado também destaca a truculência policial direcionada à comunidade negra universitária. Reggie Green, personagem alvo do abuso, escreve  o  poema abaixo com o intuito de ajudá-lo a digerir psicologicamente o ocorrido.

Achamos que essas verdades são evidentes
que todos os homens nascem iguais
que recebem de seu criador certos direitos intransferíveis
Entre eles, vida, liberdade e a busca pela felicidade
A não ser que seja negro e tenha uma opinião
Aí só recebe uma bala
uma bala que me encurrala no fim
que fura minha pele e tira meus sonhos de mim
uma bala que pode silenciar as palavras digo a minha mãe
só por eu ser o outro
uma bala que me manteve refém
arma na minha cara
o ódio errado dispara
pele branca ou clara na jogada
pra mim a carne errada
me julgam sem eu ter cometido crime
dedo no gatilho querendo provar seu valor
tirando o meu a fogo
Minha vida em suas mãos
minha vida em jogo
Fred Hampington
Tamir Rice
Rekia Boyd
Reggie Green?
Salvo por meu documento mostrar
e assim ele pode me dar a liberdade que nem devia tirar
vida, liberdade e a busca pela felicidade
para alguns de nós, talvez
não tem nada de evidente nisso

O engajamento dos personagens de “Cara Gente Branca” faz com que muitos deles aprendam a ter orgulho de sua origem e formem uma rede de apoio mútuo fundamental para que resistam no ambiente hostil de sua Universidade.

Estudantes negros, latinos e asiáticos unem forças na irmandade Armstrong-Parker. Imagem: reprodução.

Porém, na militância nem tudo são flores. Se engajar na luta por direitos, seja ela qual for, demanda muita dedicação. Há sempre um mundo de mudanças para serem colocadas em curso. É, portanto, fácil perder-se em meio a tanto trabalho. Foi procurando entender os desafios de uma vida engajada que o Sala 33 conversou com Marco Antonio Fera, ator e apresentador do canal “Pretinho mais que básico”. A entrevista mostra como os temas debatidos pelo seriado se relacionam com sua militância.

Para Marco Antonio, o engajamento faz parte da construção de sua identidade. Imagem: Camila Fontenele

 

A luta dos jovens negros de “Cara Gente Branca” era por equidade de direitos dentro da Universidade. Quais são as suas lutas?

Quando somos negros as lutas são muitas. Entrar na Universidade, fazer parte integralmente da sociedade, ser bem recebido em espaços públicos. Agora falando diretamente de mim a minha maior dificuldade é no campo profissional, uma vez que sou ator. Ser inserido no mercado de trabalho é sempre uma dificuldade, ficamos sempre na dependência do personagem  negro. E quando pede-se um ator negro, espera-se um estereótipo dessa personagem. Estamos sempre na dependência de cumprir um estereótipo. E nessas nunca podemos desenvolver nossas subjetividades em cena.

Como ocorreu o seu primeiro contato com a militância?

Quando me descobri negro. Descobrir-se negro é um processo. Isso deu-se quando eu tinha uns 24 anos de idade, mas foi vindo aos poucos, a partir do teatro, quando em uma produção me percebi sendo massa de manobra para uma forte apropriação cultural de minha história. E neste momento fui buscar minha história, minhas raízes… E a cada momento era um descobrimento. Aí fui desenvolvendo minha luta e minha voz. Quando descobri que eu podia falar,  foi como um rompante.

Quais foram os principais pensamentos que a sua inserção nesse meio te ajudou a desconstruir?

Estou neste processo ainda. Mas o que mais eu desconstruí foi meu processo de autoestima e confiança. Eu era totalmente inseguro, desconfiado. E tudo isso me ajudou a me desenvolver como homem negro brasileiro. A desconstrução começa pela gente mesmo. E isso é o melhor.

A protagonista Sam chega a cogitar abrir mão de sua vida pessoal para dar conta de todas as suas funções como militante. Em algum momento você também sente que o seu engajamento se torna um peso? Como lida com isso?

Sim. Quando decidimos fazer nossa luta ecoar, viramos uma referência. Dentro e fora de casa e a busca incessante por nossas opiniões e nossa voz torna-se obrigação. Perceber a medida certa de tudo isso é bem independente, se não nos “policiarmos” falamos de racismo em todos os espaços. No trabalho, em casa e no nosso momento de lazer. Viramos “exemplo” e qualquer passo em falso torna-se um ato irrevogável. Eu não quero falar de racismo 24h do meu dia, tenho minha subjetividade, meus desejos e sonhos. Mas isso é sim uma cobrança, é como se só soubéssemos falar sobre isso. Esquecem que somos seres humanos e independentes. É uma ação contraditória na real. Incomoda.

Outro assunto presente na série é o colorismo. Qual é a importância da discussão desse quesito dentro do movimento negro?

O fato de reconhecimento de identidade e privilégios. Isso é uma questão que não se esgota aqui, pois é muito mais amplo. Mas o que posso dizer que colabora com seu trabalho é: vivemos um problema a cerca do colorismo. O que nos torna negro, ou branco? O que é necessário entender que quanto mais escura e traços mais negróides mais propício ao processo de segregação você vai estar. E entender, saber e reconhecer que você é negro ou negra mesmo de pele clara, ajuda na discussão étnico racial. É construir identidade e ancestralidade.

A personagem Coco passa pelo processo de aceitação de seu cabelo crespo ao longo da série. Você também passou a ter orgulho de alguma característica sua a partir do seu engajamento?

Ser negro. Gostar de mim mesmo. Algo que a sociedade “padrão” rejeita. Não é o meu cabelo que está na capa de revista, não é a cor da minha pele, não são pessoas como eu. Eu aprendi que ser negro não era legal, que pessoas não se interessariam por mim, que não conseguiria trabalhos, que sendo ator não estaria na tela da TV e do cinema, que só conseguiria fazer o teatro à “margem”. Com meu engajamento aprendi a gostar de mim. Ver, entender que comigo não havia nenhum problema. O problema estava no outro e eles que precisavam resolver.

O programa de rádio da Sam tinha a função de “acordar” os estudantes brancos para que eles percebessem seus privilégios. Qual seria a proposta do canal “Pretinho Mais que Básico”?

Um canal que apresenta negros e negras em diversas situações e em protagonismo. Um canal voltado para gente preta, como representação e espaço de fala. Mostrar, incentivar, ilustrar imagens, padrões pessoas que sirvam como exemplo. Levantar questões pertinentes a um grupo social que não tem voz, espaço, representatividade. E desconstruir estereótipos que foram construídos por pessoas não negras e permanecem até hoje. “Pretinho Mais que Básico” é para todos.

No primeiro episódio do canal, Marco Antonio convida artistas negros para uma conversa sobre suas experiências profissionais:

Texto: Letícia Vieira Santos

Fonte: Jornalismo Júnior/USP